O incrível “doutor” propaganda

De início, dizia-se: “O segredo é a alma do negócio.”  Depois, inverteram: trocaram o segredo pela propaganda… Passaram a dizer que a propaganda é a alma do negócio… Mas, negócio tem alma? Principalmente num país que obedece à famigerada lei de Gérson, em que todos querem levar vantagem em tudo, onde a imunidade parlamentar transforma ladrões em “políticos”, para se protegerem das falcatruas que cometem, onde a impunidade grassa para os ricos e bem colocados na vida e atinge apenas os pobres e miseráveis gabirus que pululam de norte a sul à procura de sobrevivência.

À ponto de, recentemente, uma ex-presidiária ter se recusado a sair da prisão por achar que lá a vida lhe era mais compensadora do que em liberdade: tinha cama, comida e roupa lavada, além do convívio  social com suas companheiras de infortúnio. Que me perdoem aqueles que pensam apenas no lado nobre da propaganda a facilitar o conhecimento dos cidadãos a respeito de artigos úteis e necessários e que podem e devem ser consumidos. Inclusive, acredito nos benefícios da propaganda e da publicidade éticas, humanas e honestas.

Mas, pergunto-lhes, quando vejo determinadas e duvidosas propagandas nos meios de comunicação: Há sinceridade nisso? Alguns exemplos:

1) Álcool promovendo bem-estar, felicidade e alegria, em rodas onde o antes inocente samba servia apenas de lazer, prazer e distração para o corpo e a própria alma, mas que criaram uma perigosa sociedade de consumidores de bebidas alcoólicas, a somarem, e muito, para as trágicas mortes no trânsito!

2)Enquanto as televisões, as rádios e os jornais mostram o sangue, a morte e a tragédia de mais de  100 mortos por dia, num total anual superior a 60.000 “assassinados” pelo trânsito, onde muitos  motoristas alcoolizados são mais assassinos do que simples atropeladores, aí está “ a alma do negócio” – a barulhenta propaganda, ao mesmo tempo,  distribuindo numa incrível concorrência diabólica entre os fabricantes de veículos, oportunidades de cada um ter seu carro, do modo mais fácil e econômico: e as ruas e avenidas se locupletam de vaidosos e estúpidos motoristas da famigerada sociedade consumo, na qual, quem não tem seu carro não  é considerado bem sucedido.

3) E as “ofertas” de medicações, sem consulta e sem receita médica? Prometendo curas e prevenções onde não existem doenças – ou pior – foram “diagnosticadas” pelo incrível Dr. Propaganda, ainda que “ele” se salve, em letras quase ilegíveis, com a clássica frase: “Não melhorando procure um médico”… Sócrates, já àquela época, dizia: “Gosto de ir ao mercado para olhar tudo aquilo de que não preciso”. E Lao-Tsé, melhor ainda: “O conhecimento (consumo)  é a arte de acumular coisas, e a sabedoria (o bom senso) a arte de se desfazer dessas coisas”…

A propósito, habitantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e todas as grandes  cidades brasileiras, vamos nos desfazer de nossos veículos – guardando-os para momentos especiais – e vamos usar, diariamente, transportes  coletivos. E vocês, políticos e governantes, vamos parar de fazer politicagem barata e criminosa, confiando na imunidade parlamentar, e reforçar e atualizar, em qualidade e em quantidade, os transportes coletivos, dentro das cidades, deixando a megalomania dos trens-bala para ligar as grandes cidades para depois de nos civilizarmos dentro delas.