O Carnaval não é mais aquele

Antônio Santa Cruz Calvário (Tonico da Dona Minervina)  omunicipioonline.com.br 

O carnaval se aproxima com a sua alegria contagiante, com o seu ritmo envolvente, que põe requebros no corpo da gente, que domina, arrebata, que faz pular, dançar, gritar, e …pois é! …., mas…, apesar da grande animação, o Carnaval de hoje não é mais como antigamente.

Nos tempos da minha juventude, nos anos 50 e 60, o clima carnavalesco começava mais ou menos em dezembro, quando nas rádios começavam a aparecer as novas músicas gravadas para o Carnaval que se aproximava. Ouviam-se, então, as vozes de Emilinha Borba, Marlene, Chico Alves, João Dias, Carlos Galhardo, Linda Batista,  Nuno Roland, Dalva de Oliveira, Blecaute, Orlando Silva, Ivon Curi, Moacir Franco e outros, cantando as marchas e sambas: O teu cabelo não nega, Até amanhã,  Implorar, Mamãe eu quero, Não tenho Lágrimas, As pastorinhas, Jardineira,  Despedida da Mangueira, Lá vem a Mangueira, Eu agora sou feliz, Deixa andar,  Cabeleira do Zezé, Trem das onze, Tristeza, Vem chegando a madrugada, Solteiro é melhor, Aurora, Ai que saudade da Amélia, Alá-lá-ô,  Praça onze, Bandeira Branca,  Atire a primeira pedra, – Nega do cabelo duro, – Que rei sou eu, – Trabalhar, eu não, Cordão dos puxa sacos, General da banda, Daqui não saio, Nega maluca, Pra seu governo, Chiquita Bacana, Tomara que chova, Touradas de Madri, Sassaricando,  Você pensa que cachaça é água, Ressaca, Saca-rolha, Recordar, Maria Escandalosa, Vai com jeito, Vai ver que é, Chora doutor, Me dá um dinheiro aí,  Quero morrer no carnaval, Colombina, Deserto do Saara e um montão de outras.

Quando vai se aproximando a época de Carnaval sinto uma grande saudade, exatamente porque não ouço mais as músicas típicas do Reinado de Momo, apenas as “axé-music”, e que continuam a imperar até nos dias de folia.

Em Bicas, passados os bons tempos das Escolas de Samba (1980/1990), felizmente, ainda temos os desfiles de animadas agremiações, como o Bloco da Cana, Bloco do Urubu, Bloco das Abelhas, Piranhas da Rua da Caixa, Bloco dos Amigos etc; contudo, sentimos falta dos antigos e tradicionais Blocos Carnavalescos, como o da “Caninha Verde”, do “Cume Ardendo” e outros.

Também deixou saudades as apresentações da “Orquestra Sapolândia”, que alegrava os participantes e a todos que assistiam as suas apresentações, sem falar da chegada do Trem com o “Rei Momo”, em vagões da Leopoldina, enfeitados e cheios de foliões que eram acompanhados por uma Banda carnavalesca que animava a festa tocando as tradicionais músicas. A Estação, e a praça em frente, ficavam fervilhando de gente aguardando a chegada do Prefeito para entregar a Chave da Cidade ao Rei Momo que dava início ao Carnaval. Isso tudo com muita serpentina, confetes e muita alegria.

De posse da Chave da Cidade, o Rei Momo, Primeiro e Único, acompanhado pela Banda, e dos animados foliões, iniciavam o desfile pelas principais ruas da cidade, que terminava nos salões dos cubes Biquense e Esporte, onde aconteciam os animados bailes infantis com as animadas crianças acompanhadas por seus pais.

À noite, ele comparecia nos salões dos referidos clubes, para animar os foliões com a sua tradicional alegria que contagiava a todos, sempre com a Chave da Cidade nas suas mãos… o seu Reinado ia até a terça-feira gorda… só voltando no próximo Carnaval.

Costumes e profissões antigas

Antônio Santa Cruz Calvário (Tonico da Dona Minervina) – O MUNICÍPIO

Costumes Antigos

Costumes são práticas rotineiras, flexíveis e adaptáveis ao cotidiano — ações repetidas que facilitam a convivência e a cooperação.

Alguns costumes antigos que já não existem mais incluem: encontros nas praças; reuniões para ouvir rádio; escrever cartas à mão; visitas sem aviso; brincadeiras de rua; sentar nas calçadas para conversar; e festas de rua ou tradicionais, como quermesses e blocos de carnaval espontâneos, que faziam parte do calendário anual.

Com o crescimento das cidades, esses eventos foram sendo substituídos por festejos privados ou grandes eventos organizados.

Esses costumes refletem as mudanças sociais e tecnológicas que ocorreram ao longo do tempo, e muitos desses hábitos antigos nos ajudam a valorizar a diversidade cultural e a refletir sobre o que ainda permanece vivo em nossa sociedade.

Profissões Antigas

Com os avanços tecnológicos e as transformações no mundo do trabalho, muitas profissões foram extintas, tornando-se meras lembranças nas páginas dos livros de história e nos álbuns de fotografia.

Ao olharmos para as profissões que não existem mais, reconhecemos não apenas o impacto da tecnologia, mas também a importância da história e o esforço daqueles que exerceram esses ofícios.

Entre as profissões antigas que desapareceram (ou tornaram-se raras), podemos destacar:

  • Amolador de facas e ferramentas — ainda existente, mas muito menos comum devido à produção em massa de utensílios;

  • Vendedor de enciclopédias — a internet e os recursos on-line tornaram obsoleta a venda porta a porta;

  • Mensageiro de telegramas — substituído por e-mails e mensagens instantâneas;

  • Vendedor de leite em carroça;

  • Consertador de guarda-chuvas;

  • Vendedor de tecidos (mascate);

  • Lanterninha de cinema;

  • Datilógrafo;

  • Taquígrafo;

  • Engomadeira;

  • Ferreiro;

  • Ferrador de cavalos;

  • Parteira;

  • Rachador de lenha;

  • Benzedeira;

  • Furador de poços;

  • Carregador de malas;

  • Tipógrafo;

  • Guarda-freios;

  • Foguista;

  • Vendedor de jornais nas ruas;

  • Engraxate;

  • Capinador de quintais;

  • Vendedor de peixes em fieiras;

  • Vendedor de frangos em varal;

  • Carroceiro;

  • Telefonista;

  • Operador de telégrafo;

  • Lavadeira;

  • Comissário;

  • Vendedor de pirulitos;

  • Motorneiro de bonde;

  • Trocador;

  • Roçador de pasto;

  • Fogueteiro;

  • Entre outras.

Em tempos antigos, os produtos eram caros e de difícil acesso. Por isso, era muito mais comum consertar algo em vez de pensar em trocar. Além disso, os objetos tinham maior durabilidade, o que incentivava esse hábito. Saber consertar roupas, calçados e aparelhos domésticos era uma habilidade valorizada — bem diferente do que ocorre hoje.

Os jovens das décadas de 50 e 60

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Tonico, Celso Jardim, Felipe Abrahão e Ério Silva

Nas décadas de 50 e 60, os jovens biquenses tinham uma vida mais feliz e mais saudável, pois naquela época não existia internet, telefone celular e outras invenções que vieram para tomar o tempo das pessoas. A televisão estava nascendo e era para poucos. Jovens que viveram naquele tempo, do qual tive o prazer e satisfação de ter vivido, posso afirmar que as nossas diversões eram saudáveis, cinema, footing na Rua Coronel Souza, participávamos de animados e concorridos bailes nos nossos clubes da época, como o Clube Biquense, o Sport Club, os Paladinos, o Café que Abafa, Inex e outros, sempre conduzidos por famosas orquestras ou de ótimos conjuntos musicais.

Dava prazer dançar com os rostos colados, ao som de bonitas e românticas músicas. Naquela época, os conjuntos e orquestras usavam o som natural dos instrumentos sem auxílio de possantes e estridentes aparelhos amplificadores usados atualmente e que tornam os bailes um ambiente ensurdecedor e impossibilita as conversas ao pé do ouvido.

Além dos bailes em Bicas, também participávamos de bailes em cidades vizinhas, como: Mar de Espanha, Pequeri, São João Nepomuceno, Maripá e outras. Alugávamos um táxi e só voltávamos na madrugada do dia seguinte.

Lembro-me, também, das boas e saudosas brincadeiras dançantes realizadas no Clube Biquense, nas tardes de domingo, que, quando não tinha um conjunto para tocar, como o Copacabana do Joãozinho do Sr. Licinho, nós levávamos os nossos LPs (vinil), do Waldir Calmon, Pat Boone, Ray Charles, Paul Anka, Nat King Cole, The Platers, Chubby Checker, Celly Campello, Glen Miller, Perez Prado, Metais em Brasa, Românticos de Cuba, Trio Iraquitan, Ray Coniff, Billy Vaughan, Orquestras do Ruy Rey, Tabajaras, etc. 

Levávamos, também, os boleros românticos do Gregório Barrios, Lucho Gatica, Roberto Yanês, e outros que faziam sucesso naquela época.

Durante a semana, quando não tínhamos nada para fazer, íamos no Bar do Sr. Catulino para jogarmos umas partidas de sinuca e no final degustar um saboroso sanduiche de filé que só o Sr. Catulino sabia fazer, ou então, sentar com amigos no Bar da dona Tereza Lagrota, bater um bom papo, tomar umas cervejinhas ou degustar um saboroso sorvete caprichosamente preparado pela Dona Tereza.

Um divertimento que não podia faltar era, de vez em quando, reunir 3 ou 4 amigos, alugar um táxi e fazer uma visita às “meninas” da Tia Rita, uma senhora já idosa que comandava com muita competência uma zona, na parte alta da cidade.

Naquela época, não se falava e não usávamos drogas… As bebidas alcoólicas consumidas para prepararmos para os bailes e festas eram: o Vermute Martini Bianco, o Hi Fi (vodca com refrigerante Crush), o famoso Cuba Libre (Coca Cola com Rum), a tradicional Batida de limão (caipirinha), o leite de onça e, às vezes, um uisquezinho e a velha cervejinha.

Ao escrever esta crônica tive em mente somente fazer com que as pessoas que viveram no meu tempo rememorassem comigo alguns episódios acontecidos, num período da vida de mais ou menos sessenta anos. Ao mesmo tempo, procurei dar conhecimento ao leitor mais jovem sobre coisas e costume de um passado que já vai distante. 

O voo do coronel Arruda

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Imagem ilustrativa

O coronel Arruda foi um importante fazendeiro no município de Bicas, nos anos 50 e 60. Sua fazenda ficava situada perto do povoado de São Manoel. O coronel era um homem de visão e muito estimado pelos biquenses. Ele tinha o costume de, duas ou três vezes por semana, vir de sua fazenda até o centro de Bicas para fazer compras. Para tal, usava um triciclo, tipo lambreta, com um baú na parte da frente. Geralmente, esse tipo de veículo era usado pelas padarias para entrega de pães… Naquela época, era o único em Bicas. Quando ele passava despertava a curiosidade de nós, meninos da parte alta da cidade.

Às vezes, ele parava e conversava com a gente e, de vez em quando, permitia, um ou dois, embarcarem no baú. Isso quando levava poucas compras. Ele nos levava até a fazenda e, ao chegar lá, pedia para descermos e permitia que apanhássemos frutas no quintal da propriedade, como: goiabas, laranjas, araçás, mangas e marmelos.

Um acontecimento importante na vida do coronel foi quando ele comunicou aos vizinhos, amigos e aos biquenses que iria voar. Dessa forma, convidou a todos para comparecerem em sua fazenda, num determinado dia, para assistirem ao seu voo, informando que o primeiro seria em volta de sua fazenda, o segundo sobre a cidade de Bicas e o terceiro seria um voo panorâmico sobre de Juiz de Fora. No dia marcado, o terreiro de sua fazenda, onde secava cafés, ficou cheio de gente, curiosas para assistirem ao voo, entre elas a sua esposa, Dona Manú, sua filha Bebete o seu genro Mário da Cooperativa.

Na hora marcada, ele se dirigiu para a grande varanda do segundo andar da fazenda e pediu a um de seus empregados para amarrar em seus braços duas grandes folhas de bananeira, que ele colheu no bananal para ele iniciar o voo. O empregado disse: “Não faça isso, não vai dar certo… o senhor pode se machucar”. O coronel disse: “Amarra logo essas folhas que você vai ver eu voar… em seguida, tomou distância e, batendo os braços, saltou da varanda, espatifou-se no chão, com asas e tudo… Todos correram para socorrê-lo. Felizmente, teve apenas pequenas contusões. Ele se levantou e disse: “Da próxima, vai dar certo”. Foi com muito custo que os familiares e amigos conseguiram convencê-lo a desistir da ideia.

É possível que coronel tenha se inspirado na história de Ícaro, que foi uma personagem da mitologia Grega, cuja história envolve um par de asas de cera de abelhas, fiapos de colchas e penas de aves e a tentativa frustrada de fuga da ilha de Creta, junto com o seu pai, Dédalo, onde estavam cumprindo prisão. Angustiado para deixar o local, Dédalo então constrói assas para si e para Ícaro, a fim de abandonarem a ilha.

Antes de alçarem voo, o pai explicou que eles não poderiam voar muito baixo para que o mar não molhasse as penas, nem muito alto e perto do sol, para que o calor não derretesse a cera. Mas quando estavam voando, Ícaro ficou deslumbrado com a sensação de liberdade e com a vista maravilhosa,  distanciou-se do pai e passou a voar cada vez mais alto,  aproximou-se muito do sol, o que fez com que suas asas começassem a derreter. Foi então que aconteceu a queda de Ícaro. O garoto caiu e morreu no mar Egeu, num local batizado como mar Ícaro. Dédalo ficou muito triste e se sentiu culpado, por ser responsável pela fabricação da asas que mataram seu próprio filho. Em algumas versões da história, Dédalo e Ícaro escaparam, de barco, da ilha.

Os pastéis do Chico Marques e o Gilson Galil

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Imagem ilustrativa

O senhor Chico Marques, que fazia parte de uma tradicional família biquense, manteve por muitos anos uma famosa pastelaria onde eram feitos os melhores pasteis do Brasil. O estabelecimento funcionou em uma loja, na antiga casa da família Farhat, localizada onde hoje é a Prefeitura Municipal de Bicas. Ficava com a frente para a praça dos choferes e defronte ao prédio da antiga Prefeitura.

A pastelaria do sr. Chico era muito bem montada e com todos os requisitos de higiene… Possuía uma enorme geladeira comercial feita de madeira e que nas quatro estações do ano saiam cervejas sempre no ponto exato (Para retiradas de bebidas na sua parte superior, o Chico precisava do auxílio de uma cadeira.)

Sua iguaria principal era o famoso pastel, que tinha um tempero e gosto incomparáveis, cujo segredo da receita era o silêncio do Chico, que apesar de sempre sondado, jamais revelou para ninguém.

As cervejas, das mais variadas marcas, eram bem servidas e sempre no ponto. Também tinha as mais elogiadas pingas da época, como a Aracy, Saborosa, Vitória, Consolo, Pereirinha e outras que eram muito apreciadas pelos frequentadores.

O Chico participava dos bate-papos e, com o seu carisma, segurava os fregueses na casa, que sequer percebiam o adiantado da hora. O bar permanecia aberto até o último freguês ir embora.

Um dos assíduos frequentadores era o Dr. Ralf Grunewald que, após ministrar suas aulas de Ciências, no Ginásio Francisco Peres, se reunia com alguns amigos e formavam uma grande e animada mesa… degustavam os pasteis, acompanhados de muitas biritas. Eles eram muito divertidos, contavam muitas piadas e riam muito! As gargalhadas eu ouvia na minha casa, que ficava na Rua dos Operários, a uns 200 metros.

Depois de muitos anos de bons serviços prestados, o Chico aposentou-se e, para manter o seu tradicional pastel, convidou o seu cunhado Gilson Galil para dar continuidade. O convite foi aceito, e o Gilson, juntamente com o seu filho João, de posse da receita do pastel, deram continuidade e mantiveram o mesmo padrão e qualidade.

Para melhor atendimento, a pastelaria foi transferida para a Rua Coronel Souza, em uma loja ao lado do Clube Biquense, onde por muitos anos mantiveram a freguesia da Pastelaria Biquense, continuando a servir as famosas cervejas, no ponto certo, e as tradicionais pingas, muito apreciadas pelos frequentadores. Ainda, além dos pasteis, serviam deliciosos sanduiches e elogiados salgadinhos.

A pastelaria deixou saudades! Ao Chico, Gilson e João, a nossa homenagem e o nosso muito obrigado! 

A Churrascaria Espigão

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Nos anos 70, Bicas viveu bons momentos de lazer e entretenimento, no Bar e Churrascaria Espigão, um local onde se podia fazer refeições, tomar uma cervejinha bem gelada, acompanhada de saborosos tira-gostos, e também dançar ao som de ótimos conjuntos, que quase sempre eram acompanhados da bonita voz do Messias Leitão (Dom Pedrito), que apresentava os principais sucessos de boleros e músicas românticas daquela época. O Espigão virou um ponto de encontro dos amantes da noite e, em questão de bar, era o que tinha de melhor em Bicas e região.

A Churrascaria era localizada na Rua dos Operários, em um quintal nos fundos do Bar do Zé de Brito, um quiosque muito grande de forma arredondada, feito de madeira e muito bem construído… Era coberto com sapé. O seu fundador e proprietário foi o saudoso Agostinho Alves dos Santos.

Naquela época, o Espigão foi um sucesso, um dos primeiros a ter música ao vivo e eletrônica. Era muito frequentado pelos jovens e também por muitos casais, pois reinava muita alegria, desconcentração e respeito exigido pelo Agostinho.

O jornal O MUNICÍPIO, em sua edição do dia 09 de fevereiro de 1975, na coluna do JB, publicou a seguinte nota:

“Agostinho Alves dos Santos é o homem forte do sereno biquense, com a Churrascaria Espigão. E a curtição musical jovem é com o Conjunto CBV que, também, encontra sempre um jeito de badalar os corações já coroados.”

Eu me lembro que, nos fins de semana, eu e minha esposa Diná lá comparecíamos e passávamos bons momentos, tomávamos umas caipirinhas, cervejinhas, tira-gostos e aproveitávamos para dançar ao som de bonitas músicas.

O Espigão apresentava nos fins de semana animados shows com artistas e cantores de fama internacional e no Brasil.

Naquela época, em uma das apresentações, que nós tivemos o privilégio de participar, foi a do renomado cantor argentino Gregório Barrios. De fama mundial, com a sua voz romântica, famosíssimo, era considerado o maior cantor de boleros de todos os tempos. Seu repertório continha, entre muitas outras músicas, os sucessos: Contigo aprendi, Nosotros, Maria Bonita, La Barca, Lamento Boricano, Oracion Caribe, Dos Almas, Vereda Tropical, Frio em Alma, Palavra de Mujer, Perfídia, Díez minutos más, Anahí, Inutilmente, Luar de Ypacaraí e muitas outras.

No Espigão, também, apresentavam-se Nelson Gonçalves, Orlando Silva e a eletrônica Furacão 2000, entre outras… O Espigão deixou saudades e, quem viveu naquela época, certamente, vai lembrar do seu sucesso. 

A chacina do Guarará

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Rua Capitão Gervásio, vendo-se a Capela São Sebastião, ao fundo – Foto: Amarildo Mayrink

Em novembro de 1900, Guarará passou a ter como seu chefe político o jornalista Afonso Leite, que havia aportado na cidade, em julho de 1.898, sessenta e três anos antes de se ver envolvido na chamada “Chacina do Guarará”, por um crime do qual não participou, mas foi vítima da inescrupulosa trama engendrada por seus inimigos políticos, comandados por um Juiz de Direito desonesto.

Antes da tragédia de 15 de maio de 1960, jamais Guarará foi palco de qualquer acontecimento sangrento que pudesse macular o prestígio da comunidade de um povo ordeiro, pacífico e sempre vivendo em paz e harmonia até a publicação do Ato do Governador Bias Fortes, removendo para Guarará o Juiz de Direito da Comarca de Monte Belo, Dr. Isoldino da Silva Júnior, de personalidade não muito bem acatada, devido ao seu modo de proceder, sendo empossado nos últimos meses de 1.957. Um juiz mais político e menos juiz, marcado pela insensatez de seus atos.

No comando da política, insurgiu-se o juiz contra o tradicional chefe e ex-prefeito do município, Afonso Leite, e com ele vivia “às turras”, perseguindo seus amigos e correligionários, processando abusivamente muito deles, inclusive um Coletor da Fazenda Estadual.

A sociedade de Guarará vivia em sobressaltos e temerosa das arbitrariedades praticadas pelo desastrado e odiado magistrado, pelas piores ações cometidas contra os cidadãos da comuna que não rezavam na sua cartilha.

Em face de o juiz ter sido derrotado nas eleições de outubro de 1.958, desvestindo-se da toga, vestiu a roupagem de político sem pudor. Dominado pelo ódio e autoritarismo desenfreado, passou a atirar os munícipes uns contra os outros, por meio de ameaças, intrigas, calúnia e infâmias, acabando de se incompatibilizar com quase a totalidade da população guararense.

Assim começou a tragédia

Era conhecida a decisão o Egrégio Tribunal de Justiça, que havia punido o juiz Isoldino, por duas sérias infrações no exercício do seu cargo. Visando demonstrar o respeito ao povo de Guarará que o Poder Público Municipal, por seus representantes mais legítimos, não descurava na procura dos meios legais para afastar da comarca o indesejado juiz, que vinha perturbando a paz e a tranquilidade da vida municipal, o prefeito, vice-prefeito e o Presidente de Câmara Municipal publicaram um folhetim intitulado “Sem Comentários” em que as três autoridades municipais apenas transcreveram “ipsis verbis” duas Certidões extraídas da Corregedoria de Justiça condenando a pessoa do juiz Isoldino pelos fatos ocorridos.

Quando tomou conhecimento da existência dos boletins, que já estavam sendo espalhados pela cidade, o juiz e sua mulher traçaram um plano diabólico contra a vida do coronel Afonso Leite e disseram que tinha a sua disposição cinquenta homens para efetuar a tarefa ordenada, pois teriam que acabar com aqueles folhetins na cidade, mesmo que fosse necessário correr sangue.

Na manhã do dia 15 de maio de 1960, o coronel foi avisado que a dona Elizabeth, esposa do juiz, dizer que dispunha de 50 homens para atacar sua casa às 17h30. O coronel tomou providências com as autoridades (prefeito, delegado de Polícia etc). O delegado, como medida preventiva, determinou que o Destacamento Policial montasse Guarda na Praça do Divino, em frente à residência do coronel, a partir das 12h daquele dia. Um dos capangas do juiz dizia que aquele seria o “último dia vida do coronel Afonso Leite, pois a sua casa seria atacada pelo dr. Isoldino e seus capangas. Ao aproximar-se a hora marcada, ou seja, aos dezessete e trinta minutos, um após outro vinha e se colocava em frente ao Bar do sr. José Abrahão, ao lado da Rua Tiradentes, e em frente à casa do coronel, os demais, trinta ou quarenta dos asseclas do juiz, vinham com ele e sua esposa no tempo oportunamente combinado.

Informados de que o sr. Afonso e seus amigos estavam no referido bar, armados com revolveres e facas. Um dos capangas do juiz saca de uma faca e fere o prefeito, sr. Marcos de Souza Rezende pelas costas. Felizmente não foi muito grave e ele se recuperou. Daí para frente, começou o tiroteio, que só terminou quando acabaram todas as munições e teve como resultado a morte do juiz Isoldino, de sua esposa, Dona Elizabeth e de um capanga do juiz, de nome José Arcanjo. Doze pessoas foram feridas à bala ou com arma branca (faca). O delegado já havia se comunicado com os seus superiores, isolado os cadáveres e providenciado socorro aos feridos.

Do processo

O juiz da pronúncia, depois de discorrer, a seu jeito, sobre a atuação de cada um dos denunciados, sempre no diapasão do relatório oferecido pelo delegado do inquérito, e acatando o entendimento da denúncia do MP, o julgador pronunciou os denunciados, transferindo, como de lei, o julgamento a ser proferido pelo Tribunal do Juri da Comarca de Juiz de Fora, de competência legal, deferida para decidir o caso em espécie. No primeiro julgamento, em 20/2/1961, os acusados foram condenados com penas rigorosas: 1 réu a 36 anos de reclusão, 1 a 27 anos, 3 a 19 anos, 1 a 10 anos e 1 a 7 anos de reclusão.

A defesa, para lograr um julgamento imune de paixões interessadas, não vacilou em impetrar à Instancia Superior os recursos legalmente admissíveis. O primeiro julgamento do Primeiro Juri foi anulado, em razão de irregularidades cometidas pelos jurados. Obstinadamente, a acusação sempre apelou das absolvições de qualquer dos réus, nos diferentes julgamentos a que foram submetidos. Essa novela se desdobrou em tantos capítulos, que teve a duração de sete anos consecutivos, desde o dia 20 de fevereiro de 1960, quando foi realizado o primeiro Júri, até a data de 11 de maio de 1967, que ficou marcada, historicamente, pelo reconhecimento da inocência dos réus, sem mais apelo, da existência de um Direito conspurcado desde a primeira hora pelos verdadeiros destruidores da imagem da Justiça.

A providência Divina, que a tudo assiste, e é mais pura e solidária do que a inconfiável Justiça dos homens, abriu para aqueles réus a estrada larga da compreensão e da sabedoria para que os injustiçados obtivessem a recuperação de uma liberdade por mais de seis anos perdida, e que havia sido produzida pela maledicência do despeito, da desfaçatez e da ambição política, que via de regra não tem limite na sua atuação e que nunca é proveitosa para a própria sociedade. Que o exemplo fique para aqueles que, servidores ou não da Justiça, possam aproveitar.
Obs.: Por uma questão de respeito não mencionei os nomes dos réus.

Os pracinhas biquenses que combateram na Segunda Guerra Mundial

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Pracinhas eram os soldados, veteranos do Exército Brasileiro, que foram enviados para integrarem as forças aliadas contra as forças do Eixo, na Segunda Guerra Mundial, iniciada em setembro de 1939 e terminada em agosto de 1945. Essa guerra ceifou a vida de cerca de 55 milhões de pessoas.

Por fazer parte da aliança com os Estados Unidos, os alemães afundaram vários navios brasileiros, causando grandes prejuízos ao nosso país, e a morte de muitos compatriotas. Por esse motivo, o governo brasileiro, em agosto de 1942, decidiu participar das forças aliadas, e a partida do primeiro navio brasileiro para a Itália se deu apenas em 02 de julho de 1944. A demora em enviar tropas visava, justamente, a formação de um corpo militar.

Aproximadamente 25 mil homens fizeram parte da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que lutou junto aos Aliados na Campanha da Itália. Dessa forma, em torno de 1500 brasileiros foram mortos na guerra (cerca de 450 morreram em combate).

Eu me lembro que, em 1945, com 7 anos, os meus pais me levaram para uma cerimônia cívico -religiosa, que o vigário da época, Padre Francisco Maximiano de Oliveira, em um ato de solidariedade, homenageou a mãe do nosso conterrâneo, Sargento José Carlos da Silva, que foi morto em combate na Batalha de Monte Castelo, na Itália, doando a vida em defesa da Pátria.

Na foto, os pracinhas biquenses que merecem a nossa homenagem pelo muito que fizeram e contribuíram pela vitória das Forças Aliadas:

Após o término da 2ª guerra mundial, em maio de 1945, foi realizada em Bicas grande festa cívica em homenagem aos pracinhas de nossa cidade que participaram das batalhas de Montese e Monte Castelo.

Entre eles: Alibert Adib, Sinval Ribeiro de Castro, Sebastião Soares, Juquinha de Castro (Pequeri), José Jorge da Silva e Heitor Rocha, que sobreviveram e retornaram ao Brasil. Ó Sarg. José Carlos da Silva e o Tenente Belfort Arantes (Pequeri), lá serviram e morreram.

Os antigos barbeiros de Bicas

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

Vamos voltar ao passado e lembrar de nossos antigos barbeiros, aqueles da época das navalhas “Solinger”, que eles amolavam e afiavam na presença do freguês. E, para isso, usavam uma pedra própria e um pedaço de madeira macia; logo após, conferiam o corte, passando o fio da navalha na unha dos seus polegares esquerdos.

Os mais antigos guardam na retina a figura do barbeiro de pé diante do espelho de sua barbearia, afiando a navalha com habilidade e em gestos cadenciados, com a calma de um religioso e a espiritualidade de um bom contador de casos.

Pronta a navalha, sacava da gavetinha a torturante máquina manual de cortar cabelos, aquela que arrancava mais do que propriamente cortava. E pior ainda, quando a título de higienizar a região trabalhada, vinha com a mão cheia de álcool e esfregava sobre os ferimentos… os fregueses quase desmaiavam de tanta dor.

Às vezes, usavam um recipiente spray, com uma bola de borracha para espirrar o álcool; depois, para aliviar a dor, pegavam uma pequena botija de borracha abastecida com talco e borrifavam a pele do freguês.

O barbeiro é como um mago das tesouras e navalhas, capaz de transformar uma simples juba em uma obra-prima. Além disso, ele é um confidente… Alguém em que se pode confiar para compartilhar segredos e desabafos, e também ouvir e contar fofocas.

Fazemos aqui uma homenagem, ainda que singela, e sujeita a esquecimento, aos antigos barbeiros de Bicas. Partindo da Rua do Bonde, tínhamos o Sr. Luiz barbeiro, que também prestava serviços de afiar tesoura e facas (ele tinha como passa tempo uma criação de passarinhos)… Chegando na Rua Cel. Souza, tivemos a barbearia do Zanone, do Agostinho dos Santos, do Sr. Jacks Soares (pai) e Jacks (filho); o Wantuil, o Sr. Jorge Sarto, o Zambone e o Alberto barbeiro (Moleque).

Na Rua dos Operários, tivemos o Sr. Jovelino, o Tute, o Sebastião Maluco, e seu irmão Luizinho, o Januário, o João da Malvina, o Vicente dos Santos (Chacrinha); na Rua Capitão Pedro Assis Amaral, tivemos a Barbearia São Jorge, do Sr. João Bello, muito conceituada, que também contava com o barbeiro Sr. Alípio.

Tivemos também o Sr. Juquinha, ao lado da Farmácia Rezende. Logo depois da refinação de açúcar, em frente a Maçonaria, na rua de baixo, o Mário barbeiro… Seguindo para o Tira Couro, tinha a barbearia do Sr. Jair de Dona Malvina e, mais a frente, o Sr. Cornélio. Na Rua Santa Tereza, depois da casa do Dim Motta, tinha uma barbearia, muito frequentada, mas não lembro o nome dos barbeiros.

A esses ilustres barbeiros que, naquela época, foram responsáveis pela boa aparência dos biquenses, a nossa homenagem e o nosso respeito pela importante profissão.

Os Correios

Escrito por Antônio Santa Cruz Calvário
(Tonico da Dona Minervina)

A agência dos Correios em Bicas funcionou durante muitos anos em uma casa situada na Rua Barão de Catas Altas, ao lado da antiga Farmácia Rezende e de frente ao Clube “O Paladino”, que era muito atuante naquela época, com a realização de famosos bailes.

Na referida agência, funcionários e telegrafistas muito queridos e eficientes prestaram serviços, dentre eles, lembro-me de alguns como o Sr. Gumercindo Silva e sua esposa, Dona Mariana; do Sr. João Xavier; do José Maria Xavier; da Dona Conceição; do José Galil (Zuza); do João Marques; do Sebastião da Costa Moura; do Carlos Augusto Machado Veiga e de outros que não me recordo mais os nomes. Também, tinham eficientes carteiros, como o Sr. Crispim, muito alegre e muito querido pelos biquenses.

Os Correios da época tinham por finalidade transportar fisicamente cartões postais, cartas e encomendas, sendo, também, prestador do serviço de telegrama, que era uma mensagem urgente e confidencial, transmitida eletronicamente, impressa e auto envelopada. Após o devido acondicionamento, o telegrama era entregue no endereço do destinatário. Hoje em dia pode-se enviar “telegrama” via internet.

Os telegramas eram enviados por meio do Telegrafo, que foi uma das primeiras formas de comunicação à distancia e sua história remete ao século dezoito… Foi um aparelho de comunicação muito importante nos séculos dezenove e vinte, que permitiu que informações fossem transmitidas a longa distância, de maneira rápida e eficiente, revolucionando a comunicação em todo o mundo.

Apesar de sua importância, o Telegrafo ficou ultrapassado, com a popularização do telefone, durante o século vinte. Mesmo assim, sua invenção e desenvolvimento foram fundamentais para a criação de outras tecnologias de comunicação que utilizamos atualmente como a internet, que alguns estudiosos acreditam que foi um marco importante e decisivo na evolução tecnológica. Isso por que ultrapassou barreiras ao aproximar pessoas, culturas, mundos e informações.