O circo chegou

Na véspera da estreia, já se notava o quão esperado era o circo. Fazendo uma apresentação gratuita, todos os artistas e animais desfilavam pelas ruas centrais de Bicas.

Na frente, o palhaço com as pernas de pau e um megafone dizendo: “Hoje tem marmelada? Hoje tem macacada!?” E a criançada repetia: “Tem, sim senhor!!!”.

A comitiva vinha com os mágicos, contorcionistas e a principal atração, os animais: leões, zebras, elefantes e tantos outros.

Era uma propaganda muito bem feita. Geralmente o circo ficava armado no Bairro Santana. Nós íamos lá durante o dia curtir todo aquele visual… olhando de fora.

Durante a apresentação no picadeiro, como sempre, palhaços, globo da morte, contorcionistas, mágicos e o teatro dramático no final do espetáculo. Muita gente saindo com os olhos lacrimejando. Na verdade, o espetáculo circense nos levava a momentos de emoções que iam, espontaneamente, do riso ao choro.

E o palhaço o que é? É ladrão de mulher!!!

Bicas divertida!

A nossa benzedeira

A nossa benzedeira

Cheguei em casa, minha mãe me olhou e disse: “Você está com os olhos apagados, isto é quebranto. Vá lá na esquina e peça pra dona Ciloca te benzer”.

Ciloca, Cecília, de nascimento, era uma senhora de cabelos brancos, amável e sempre de avental. Parava os afazeres para atender quem quer que fosse, quando se tratava de benzimento…

Foi ao quintal, pegou um galho de arruda, preparou três brasas pequenas e deixou na boca do fogão.

Sentei-me num banquinho, ela trouxe um copo com água, colocou a mão no meu ombro e disse-me para repetir as palavras chaves da benzedura. Enquanto as três brasas não boiassem, o “benzimento” não terminava…

Colocou a primeira no copo que foi pro fundo… “Cavaco rendido tire o mal desse menino”, passou a arruda molhada com a água do copo em minha cabeça, “Xô mal olhado, vá impregnar no inferno”…

Colocou a segunda brasa, esta boiou. A terceira, como a primeira, também foi pro fundo. Continuou o ritual com outras palavras, até que finalmente todas as brasas boiaram.

Levantei-me e agradeci. Acho que todos os moradores da Rua do Brejo foram “benzidos” por dona Ciloca, que era conhecida também em outras ruas.

Ela foi, sem dúvida, uma grande alma…

Bicas mística!

Quando criei asas

De agora em diante, O MUNICÍPIO vai recordar os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais. 


Encorpando a Brincadeira (orelhas do livro)

Depois que eu entrei no grupo dos biquenses nas redes sociais e descobri amigos que não via há anos, comecei, em tom de conversa de esquina, a contar pequenas histórias alegres, que se passaram durante o tempo em que eu vivi em Bicas.

Cada caso que saia, os conterrâneos iam se divertindo. Eu, sempre aguçava a memória e aparecia mais um. Assim passaram mais de dois anos. Fui aprendendo o jeito da linguagem simples da minha cidade que acabou desaguando nos pedidos para que eu publicasse as histórias.

Mostrei os textos para amigos que conheciam o caminho da publicação, e todos me animaram. Finalmente, criei coragem, adaptei e selecionei os causos com a ajuda de várias pessoas e assim nasceu esta singela homenagem que faço à minha querida Bicas.

Todos os personagens são pessoas comuns, que conheci desde a infância até a juventude. Optei pelo lado alegre da vida e procurei traçar um perfil daquela Bicas em que vivi, num momento de grandes transformações sociais.

Biografia 

Nascido e criado na Rua do Brejo, na pequena e alegre Bicas, que fica na Zona da Mata Mineira, Sebastião Agripino Teixeira (Vasco Teixeira), metalúrgico aposentado, desfrutou até a juventude às novidades de um período que marcou a quebra de vários tabus.

Cursou o ensino fundamental no Grupo Escolar Coronel Joaquim José de Souza e Ginásio Estadual “Deputado Oliveira Souza”, e o Senai, sabendo que a qualquer momento teria que deixar Bicas para tentar outros voos. Partiu em 1974 para São José dos Campos/SP, onde construiu sua nova vida. Casado, pai de três filhos, Sebastião sempre visitava sua família em Bicas, cidade que nunca esqueceu.

“Bicas, um causo à parte”, segundo ele, é um livro para compensar um pouco a dívida de gratidão que tem com a cidade, imposta pela sua ausência.

Quando criei asas (primeiro causo do livro)

Desmembrei-me de Guarará e me tornei independente, com documento e tudo, em 1923. Sempre fui muito espevitada. Logo comecei a crescer. De uma simples parada de tropeiros, virei uma cidade bem charmosa. Com a chegada da estrada de ferro, então, fui virando a rainha do pedaço.

Poucos anos depois, já gerava empregos suficientes para todos os meus filhos. Para se ter uma ideia, com pouco mais de oito mil filhos, eu tinha quase dois mil empregos diretos (Leopoldina, fábrica de calçados, exploração de caulim, comércio, entre outros…)

Modéstia à parte, sempre fui acolhedora e bonita… meus filhos sabem disso. Perdi alguns que queriam voos mais altos, mas eles nunca se esqueceram de mim, vêm sempre me visitar, quando não voltam em definitivo. Gosto de todos, do mesmo jeito. Tenho tentado dar o melhor sempre, mas não é fácil. São muitos os problemas. Estou atenta aos que me governam, tenho um nome a zelar, por isso não descuido. Uma arrumadinha aqui, outra maquiagem ali e vamos criando essa molecada que já está próxima de quinze mil.

Meus braços estão sempre abertos e meu coração grande, sempre tem lugar para mais um…
Euzinha sempre feliz.

Vasco Teixeira

Por e-mail

Pautada a sua coluna com “causos” e lembranças de nossa Querida Bicas, somos por vezes instados a revisitar o nosso baú de divertidas e saudáveis memórias.

Dotado de prodigiosa memória, competente e habilidoso com as palavras, enriquece com maestria o conteúdo de nosso O MUNICÍPIO.

Recentemente, gratificou-nos imensamente por destacar qualidades e a alegria de viver de minha saudosa Mãe (“ALMA DE PASSARINHO“).

Ao Escritor Vasco Teixeira, agradecemos sensibilizadamente,

Benigno Costa Correa e Silva, de JF

Ao contemporâneo Tião, um grande abraço do Beniguinho 

Envelhecer

Pedro Nava deu fim na sua vida aos 80 anos, com um tiro no ouvido. Helio Silva, ateu a vida inteira, quando chegou aos 90 anos foi se exilar num mosteiro se sentindo um pecador e só saiu de lá no caixão.

Elizeth Cardoso era do signo de câncer, tinha ojeriza a esse nome e morreu vítima do mesmo, aos 69 anos. Rita Hayworth suicidou-se aos 68 anos, por não querer envelhecer…

Chacrinha adorava a vida e nunca deu bola para a idade: morreu velho e feliz. Dona Canô passou dos 100 anos contente da vida e querendo viver ainda mais. Cartola tinha mais de 70 anos e se dizia uma criança…

Provavelmente, o envelhecimento deve estar ligado principalmente aos nossos desejos. Cada um a sua maneira quer vida longa, saudável e feliz. Porém, os desejos podem acabar nos distanciando daquilo que é uma vida ideal.

Simplicidade está sempre na lista de viver bem, mas as facilidades, às vezes, nos afastam desse quesito em troca das demandas reprimidas acumuladas durante a nossa caminhada.

Velório na Rua do Bonde

Bandulaque passou distribuindo aquele convite para mais um enterro. Ronaldo foi lá e pegou um… Zé Cueca olhou e sentenciou: “Esse vai dar pé”. – Onde, perguntou o Im. – Rua do Bonde, respondeu o Zé. Nós fazíamos a triagem dos velórios, desde quando não fosse nosso parente no caixão.

Precisávamos de ocupação noturna sempre, e velório era um bom item para passarmos o tempo. Depois da sessão de cinema, fomos parar lá na Rua do Bonde…

Respeitosamente, entramos e acompanhamos o terço, mas de olho no café com leite, broa, brevidade e biscoito de polvilho… sempre servidos a noite inteira. Não deu outra… A cozinha estava mais movimentada que a praça aos sábados.

Pexano estava num canto segurando uma caneca de esmalte saindo fumaça e na outra mão, um naco de broa daqueles. Vez por outra, Alvaro contava uma piadinha para espantar o sono… Maninho lacrimejou perto do caixão. Zé Augusto viu e deu uma olhada daquelas, que ele logo enxugou as lágrimas.

Quase clareando, Helinho foi acordado com um safanãozinho e fomos embora. No caminho, Pininho reclamou dizendo que só tomou um cafezinho e que da próxima vez iria ficar mais perto da mesa… Bicas com lágrimas de crocodilo.

Serenata pro meu brotinho

Eu estava indo para o Estadual com meus colegas, quando uma amiga do meu brotinho me parou e me entregou um bilhetinho. Alvaro, muito esperto, brincou, “Xi… lá vem dor de cotovelo de novo”. Maurício Vidon foi mais enfático: “Pé no traseiro”. Coloquei o papelzinho no bolso e me fechei. Até a portaria, foi só gozação.

Durante a aula de Moral e Cívica, do prof. Aníbal, tirei discretamente o bilhetinho e comecei a ler. Para o meu alívio, meu brotinho estava é com saudades das serenatas, pois já havia passado mais de mês e nada…

Já existia naquela época o som da madrugada com vinil na vitrola. A parada técnica foi por causa de um desacordo empresarial. Minha irmã que emprestava a vitrola portátil queria que nós pagássemos o estrago que foi de nossa culpa, mas todo mundo duro e fomos enrolando…

Depois da aula, Im me disse que também recebeu um bilhetinho parecido… Demos um jeito, fizemos uma vaquinha e fomos ao Fenelon, pagamos e retiramos nosso instrumento de trabalho noturno e acertamos os ponteiros com minha irmã.

Mandei um recado pro brotinho, dizendo que sexta-feira estaríamos de volta. No dia, encontrei com ela. Foi quando me falou que, debaixo do alpendre, atrás do vaso de antúrio, teria uma surpresa pra nós. Cinzano, Vodka e salgadinhos. O repertório foi caprichado: Run to me, Yesterday, The end, Carinhoso e tantas outras…. Bicas na seresta.

Alma de passarinho

Com uma atividade intensa no intuito de ajudar a sociedade e, principalmente, as moças e senhoras de sua época, Dona Beatriz, quando solteira, dava aulas no Ginásio Francisco Peres de educação artística, preparou muitas noivas para o casamento, ensinou trabalhos manuais e canto orfeônico.

Quando se casou, priorizou a família na educação dos filhos, mas não abriu mão do coral da igreja… Aos domingos, invariavelmente, saía de sua casa e era aquela via sacra até a Igreja Matriz.

Por ser uma pessoa muito querida, ganhava beijos, abraços e sorrisos que não acabavam mais. Com sua elegância discreta e sempre com um terço na mão, ia indo, até finalmente chegar.

Nesse momento, o padre soltava suspiros de alívio, pois sabia que teria mais uma missa com o acompanhamento impecável do órgão da mestra. Esse trabalho voluntário deu a Dona Beatriz respeito e consideração por todos os biquenses que tiveram o prazer de conviver com essa pessoa de espírito leve.

Nessa época, os valores eram disseminados não só pela família, mas também por homens e mulheres voluntários, tanto nas religiões, como em outras instituições que tinham preocupações com a sociedade. Ela sabia fazer isso muito bem… Bicas cândida.

Retto Junior

Eu fiz parte de uma das primeiras turmas de alunos e do Retto Junior. Acho que esta foi a segunda escola de ensino fundamental pública da terrinha. Engraçado que eu morava atrás do Cel. Souza e não sei que por qual razão, eu fui parar numa escola bem distante.

Não só eu, mas vários colegas que moravam por ali perto de mim. Fiz o 3º e 4º anos lá. Acabei me acostumando e gostando da caminhada matinal. Hoje vi uma postagem da atual diretora que saudava com satisfação os 60 anos dessa escola que alfabetizou muitas gerações.

Me lembro de Dona Marlene Garcia Passos e da dona Marília, como minhas professoras. Se não me engano, Dona Ernestina era a diretora… No recreio, nós brincávamos na rua de terra e voltávamos para as salas empoeirados.

A escola ainda estava se estruturando. Nas fotografias, vejo com satisfação a rua calçada e o prédio bem cuidado. Deixo aqui meus parabéns a esta escola que me ensinou o beabá com esmero e carinho. Que venham outros 60 anos… Bicas crescendo.

  • Publicado no Facebook do colunista, em 01/07/2020

Mais de mil palhaços

Quando chegava o carnaval, era mais que esperado a figura do Didi Trocate travestido de mulher. Ele sempre caprichava na indumentária. Melindrosa, madame, dona de cabaré e outras fantasias faziam parte do seu visual carnavalesco.

Na verdade, o carnaval foi para ele um momento de extravasar, colocando pra fora todo o seu desejo que era reprimido por uma sociedade conservadora… Didi ganhava a vida fazendo trabalhos domésticos em casas particulares e era muito requisitado.

Ele nunca escondeu sua homossexualidade… Dono de uma educação fina, era respeitado e admirado, mesmo encontrando resistência por ser negro, pobre e gay (viado, naquela época)…

Didi passou pela calçada como se estivesse numa passarela, todo produzido, maquiagem impecável. Um vestido capaz de provocar inveja na Marta Rocha e sua peruca mais que emperiquitada.

Hélio falou: “Seu gogó não nega” e deu uma risadinha maliciosa. Ele voltou com toda sua leveza e sem levantar a voz pespegou: “Você fica tirando sarro, mas deveria contar para seus amigos aí que és meu cliente de carteirinha!!!

“Aliás, você e mais uns três bobocas que estão rindo aí”… Nosso companheiro não sabia onde enfiar a cara, e os outros amigos fizeram cara de paisagem, engolindo seco. Didi Trocate, em cima do seu salto Luiz XV, saiu rodando sua bolsa e se perdeu na folia… Bicas, “adorei milhões”!