Um causo à parte / Memórias

Macumba na encruzilhada

Noite alta de sexta-feira, nossa turma mista, com crianças e jovens, estava voltando pra casa. Avistamos as velas acesas na encruzilhada da Baeta Neves com a José Soares, no pé da ponte.

Um despacho feito com todo esmero; galinha preta, cocadas, velas coloridas, cachaça e um alguidar, cheio de farofa. Formigueiro foi logo pegando a pinga, abriu a garrafa com os dentes e tomou um gole. Panelão encheu os bolsos de cocadas e saiu comendo, Lelé pegou carona na pinga e, por cima, chutou a galinha pra dentro do córrego, enquanto Otto mijou nas velas…

No outro dia de manhã, estávamos sentados na ponte falando sobre o acontecido e aí chegou o Formigueiro reclamando de ter passado mal e com uma dor de cabeça desgraçada.

Logo em seguida, Lelé surge mancando com o pé parecendo uma pata de elefante. Depois veio o Panelão dizendo que estava com piriri.

Dona Vitalina, mãe do Mosquito, passava por ali, escutou nossa conversa e sentenciou: “Vocês precisam respeitar a crença dos outros… Uma hora dessas a conta vem mais alta”.

Nós ficamos meio sem graça, quando o Lelé falou: “É, Dona Virtalina tá certa, precisamos criar juízo”.

Bicas mestra…

Um causo à parte / Memórias

O MUNICÍPIO está recordando os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais.

Ao som do rádio

Na hora marcada, às 18 horas, minha mãe colocava o copo d’água na beira do rádio, pedia silêncio e assim começava a oração da Ave Maria com Júlio Louzada, na Rádio Tupi. Um programa que ficou quase cinco décadas no ar.

Minha irmã, às vezes, ajoelhava e seguia sem pestanejar todo o ritual que vinha nas ondas do rádio, que ficava numa prateleira no centro da sala. Meu pai encostado no portal da cozinha, também ouvia atento. Eu ficava pra lá e pra cá…

Júlio, com sua voz aveludada, mandava bem e conseguia paralisar todos os afazeres de muitos lares naquele horário. Era quase uma obrigação ouvir todos os dias a Ave Maria. Virou moda, além de expressão coletiva da fé.

Terminado o programa, às vezes, tomávamos um gole da água que se tornou benta por estar ao lado do rádio. Dona Ana dizia que era bom para criarmos juízo e também curava doenças. Assim terminava mais um dia de rotina.

Bicas orando!

Um causo à parte / Memórias

Bituca ia dobrando a esquina da Rua do Brejo, com um fecho de lenha na cabeça, quando foi abordado pelo Valdir do Cesário.

O problema era um sumiço de felinos nas cercanias. Valdir, sempre educado, perguntou: “Bituca, o que o leva a comer os gatos da nossa rua?” Bituca, que era mais direto, respondeu: “Quem te falou que faço uma maldade dessas?”

Nisso, Sissi do Sr. Otto, entrou de sola: “Quem falou que você não faz!? Me disseram que foram em sua casa e viram o couro do meu rajadinho pendurado no seu varal”.

O exterminador de felinos desceu o fecho de lenha e sem muita cerimônia rechaçou: “Imagina? Os restos mortais no meu quintal são de coelhos que eu caço, vocês estão desinformados!”

Valdir, com o humor de sempre, satirizou: “Tá certo meu amigo, mas cuidado com os seus coelhos que estão presos, devem estar doentes, pois à noite eles miam pra caramba”.

Bebete ouviu tudo, balançou a cabeça e murmurou: “Esse não tem jeito mesmo”. Nós continuamos a brincar de bandeirinha…

Bicas felina!

Um causo à parte / Memórias

A volta do ferroviário

Zé D’Onofre, maquinista da Maria Fumaça, chegou na Estação Ferroviária, depois de quase uma semana viajando e, com o guarda pó cheio de fuligem, resolveu, antes de ir para casa, dar uma passadinha no bar do Sr. Arlindo, para tirar a poeira da garganta. Afinal, ninguém é de ferro.

O botequim ficava em frente à Praça dos Aposentados. Tomou todas e foi cambaleante, descendo a Rua José Soares, em direção à Rua do Brejo, com sua capa que ia até o chão e um balaio contendo moringa, cobertor e outros apetrechos…. cantarolando: “Viva o doutor Oliveira/Viva o doutor Oliveira”.

Parou e encostou no poste que ficava em frente ao campinho e, sem nenhuma cerimônia, tirou a água do joelho. Olhou para nós e disse: “Vocês sabiam que a única fêmea mais bonita que o macho é a mulher? Pois é, e eu que tenho lá em casa aquele tribufu, não tive sorte, e é por isso que bebo…”

Chegou na ponte e fez um discurso para o córrego. Bastante dominado pelo alto teor etílico, passou perto da casa da Durica e gritou: “Antônio Moraes, herói brasileiro, defendeu o Brasil na Itália, merece uma estátua”. Já subindo a Necésio Silva, fez elogios ao Sr. Otto.

E, finalmente, chegou em casa gritando palavrões e fazendo gestos obscenos. “É aqui Geralda, hoje você me paga”. Geralda recolhe suas coisas e puxa-o para dentro. Depois da ressaca, nosso ferroviário, não se lembrava de nada…

Bicas aos goles!

Um causo à parte / Memórias

Lá vem o trem

Um dia qualquer nos tempos idos, nossa Estação Ferroviária parecia um formigueiro, de tanta gente. Antes da chegada do “Expresso ou do Misto”, que coincidia com o horário de pico, era muito gostoso sentir a pujança de nossa querida Bicas.

Na ponta esquerda da Estação, estava o Sr. Nicolino contando mais uma de suas mentiras para o Balanga e o Ciro Malaquias, que fingiam acreditar. Do lado direito da plataforma, tinha o cafezinho da Dona Guiomar, com seus quitutes deliciosos. No balcão, saboreando um bolo de fubá, enquanto esperava o trem, João Marques com o carrinho para levar as correspondências dos Correios.

A Maria Fumaça apontou lá perto da Casa do Compadre, e o burburinho foi se formando. Nessa hora, o Sr. Antônio Marques, com seu uniforme caqui e quepe vermelho, chamava a atenção do Abrantes para não esquecer de verificar se a carga que ia para Pequeri estava certa.

Gente se movimentando com as passagens nas mãos… Zé do Onofre colocando seu guarda-pó para seguir viagem…

Bicas agitadíssima!

Um causo à parte / Memórias

Para não dizer que não falei das flores

Minha mãe tinha acabado de arrumar o almoço do meu pai e disse com firmeza: “Um pé lá, outro cá!!! Hoje o dia não é para criança”.

Peguei a bolsa e fui fazer o de sempre. Não entendi direito o recardo, mas desci a Rua do Brejo, passei pela José Soares e cheguei na esquina da Barão de Catas Altas.

Notei que o clima não estava bom. Waltencir, dentro da farmácia, com cara de poucos amigos. Amado na porta do armazém apreensivo fumava um cigarro, sem charme nenhum. Cheguei na barbearia, meu pai foi logo me dizendo: “Volte pra casa direto”.

Mas, eu, criança curiosa, não deixei ficar em branco. Vi o Sr. Michel na porta da loja… Ele estava mastigando a ponta do charuto. Parei em frente à Estação Ferroviária e vi o motivo de toda a preocupação: tanques do Exército cercando tudo. Foi a primeira vez que vi uma metralhadora de verdade.

Sr. Jorge Sarto, que estava passando, pegou-me pelo braço e mandou eu ir para casa… Com medo fui correndo e quando virei a esquina, ouvi uns versos num rádio de alguém: “Há soldados armados amados ou não”. Era abril de 1964…

Nossa Bicas sisuda…

Um causo à parte / Memórias

Lá vem a Sapolândia

Irineu Garibaldi, Antônio Lamha, Sheila Salomão e Jorge Mossoró

Domingo de Carnaval, à tarde, em frente o Barra Limpa, estava aquela coisa… Um bloco? Uma banda? Não sabia direito, mas com certeza, uma turma muito animada…

A Sapolândia, certamente, era uma anarquia, que nos fazia dar boas risadas. Mossoró com seu fraque e cuecas de bolinhas, era o maestro com toda a pompa regendo uma orquestra de malucos por diversão…

Os instrumentos eram improvisados (latas, tubos de borrachas com penicos na ponta, violão sem cordas e mais outros objetos indecifráveis).

As calçadas cheias de gente já rindo dos personagens antes do desfile começar. Patesco, com sua minissaia curtíssima, rebolava na boquinha da garrafa e quando achava um descuidado gritava no seu ouvido: “Oh Munha!!!”. Sá Onça encarnava o retratista “Medo Onça” e com seu tripé tirava fotos, que na verdade eram uma explosão que enfumaçava tudo.

Tinha também o impagável repórter da rádio PR KPETA, Mazzaropi, que fingindo entrevistar, dava o microfone para alguns e quando a pessoa ia falar, levava um choque elétrico e soavam mais gargalhadas…

Passa a Sapolândia com aquele som estridente deixando risos e saudades no coração da gente…

Bicas sapeando!

Na Banca do Padula

Na Banca do Padula

Peguei meu álbum de figurinhas e fui para a banca de revistas. Logo avistei uns moleques jogando “Poupinha” na beira da calçada.

No outro lado da rua, no ponto de táxi, Alvino Novaes lia o Jornal dos Sports. Ouvi quando Balanga perguntou se o Amarildo ia jogar contra o Vasco.

Encostado no poste em frente ao Tabuleiro da Baiana, Manoel Soares discutia política com o Zé Vieira. Bilucha voltava para casa com o jornal enrolado debaixo do braço…

Entrei, pedi dez pacotinhos de figurinhas. Quem me atendeu foi a Ione. Como sempre sorridente, me deixou escolher. Vivinha falou pra todo mundo ouvir: “Marta Rocha de novo na capa do Cruzeiro?”.

Zé Padula muito sacana brincou: “Você prefere ela ou a Tamanquinha?”. Eneida atendia dona Margot, que queria algo sobre tricô… Quando eu estava saindo, Betinho pediu para que eu abrisse os pacotes, se tivesse alguma repetida poderíamos trocar. Foi minha sorte, tirei uma carimbada.

Sargento Adão viu e me ofereceu dez pacotes em troca. Era a que faltava pra ele ganhar uma enceradeira. Entreguei por trinta. Ele colou ali mesmo, vi a página completa do álbum do Sargento, e ele dando risada…

Bicas sortuda.

Rotina da Rua do Brejo

Rotina da Rua do Brejo

Desci as escadas da minha casa para ir à escola, enquanto esperava o Zé Geraldo. Minha mãe perguntou da janela se eu havia escovado os dentes.

Sr. Ismael passou com seus tamancos barulhentos… toc toc toc… indo às pressas abrir o portão da cooperativa, porque o Sr. Horácio Machado já estava esperando, com sua famosa caminhonete, para descarregar o leite.

Nelson Novaes tentando com uma manivela fazer o caminhão funcionar para mais uma viagem… talvez pro Rio.

Zé chegou e fomos indo. D. Maria, do Sr. Martins, recolhi o pão, bem embrulhadinho, junto com a garrafa de leite que o padeiro acabara de deixar. Na esquina da rua do ginásio, Sr. Cesário varria sua calçada.

Bem em frente ao prédio do Grupo, Sr. Edson Pena tratava dos seus pássaros. Chegamos até a entrada da escola, e dona Noêmia nos deu um “Bom dia”, com muito carinho e elegância…

Bicas acordando!

Dia de fúria

Dia de Fúria

A nata da molecada estava rodando pião em frente à casa da dona Guiomar. Sr. Alberto Moleque vinha com sua caixa de ferramentas no ombro. De repente, Valdir do Cesário passa correndo e gritando: “Sai da frente meninada, se a Chica me pegar ela me mata”. Na pressa, derrubou a caixa do Sr. Alberto. Enquanto ajudávamos a recolher as ferramentas, Francisca, com um cabo de vassoura na mão gritava: “Volta aqui seu vagabundo. Vou te dar um chá de coragem pra você arranjar um serviço”.

Nesse momento, Revalino teve a infeliz ideia de soltar uma “cabeça de nego” no depósito de lenha da Cooperativa…

Sr. Eurico estava descarregando o leite de sua carroça e o cavalo se assustou com o estrondo. Foram pulos e coices. Natalino tentou segurar as rédeas e foi para o chão. Sr. Valmor gritou: “Sai de perto que o bicho tá com o diabo.”

A carroça bateu no caminhão do Manezinho e foi parar dentro do córrego. Sr. Ismael, com sua calma de sempre, foi lá e acalmou o animal.

Nisso, já rolava um jogo de bolinhas de gude na esquina da Dona Ciloca, e vinha descendo escoltado por dois soldados, o Bijuca acusado de comer mais um gato da Dona Bebete…

Bicas agitada!