Um causo à parte / Memórias

Respeitável público

Quando o circo ia estrear, era uma festa enorme, principalmente, para as crianças.

Antes do primeiro espetáculo, já se sabia de quase tudo que ia acontecer, pois a propaganda na cidade era outro espetáculo à parte…

Entrávamos por um corredor longo, já maravilhados com o que veríamos lá dentro. Guloseimas diferentes, vendidas por alguém fantasiado, davam a dimensão da adrenalina do show que estava por começar.  Arquibancada de madeira, aquela lona terminando em um mastro que apoiava o trapézio, que era uma das principais atrações.

O picadeiro, onde os palhaços nos tiravam deliciosas gargalhadas, era o lugar mais visado do circo. Meu coração batia acelerado, meus olhos nem piscavam só de pensar em ver o domador dentro da jaula do leão. Tudo isso antes de começar…

Quando o mestre de cerimônias entrava em cena, sob aquele jogo de luzes, e anunciava a primeira atração, o silêncio dominava a plateia, todos extasiados, prontos para a descontração…

Bicas alegre!

Um causo à parte / Memórias

Piscinão do Zé Retto

Foto: João Batista Marques Souza

Nossa Bicas nunca teve rios caudalosos, nem muitos lugares para nadarmos, porém existia a lagoa do Zé Retto, que era uma ótima opção para nos refrescar no verão.

Sempre arranjávamos um jeito de aparecer por lá. Saíamos da nossa rua em bando, atravessávamos a cidade e lá chegávamos. Era muito comum a molecada de outras ruas irem para o mesmo destino…

Aprendi a nadar lá, mais o que mais eu gostava era ver o Samir Haddad boiando na parte mais funda, parecia que estava dormindo.

Quando aparecia uma câmara de ar de caminhão animava a festa. Os corajosos ficavam em pé, em cima dela, e davam mergulhos. Era sensacional.

Tinha gente que fazia piquenique o dia inteiro, muita alegria com simplicidade. Eu chegava em casa quase escurecendo e muito cansado de tanta estripulia…

Bicas singela.

Um causo à parte / Memórias

Galinha Pintadinha

Rolava na maior tranquilidade nossa peladinha rotineira no campinho na Rua do Brejo. De repente, Dona Ivone saiu da sua casa com uma galinha carijó debaixo do braço e um ovo na mão. Parou em frente a casa da vizinha e começou a xingar.

Sissi apareceu na janela e o bate-boca engrossou e aumentou de volume… Dona Ivone furiosa, reclamou: “Sua galinha botou um ovo em cima da minha penteadeira que acabei de comprar, também chiscou arranhando o verniz e quase quebrou o espelho de tanto dar bicadas”.

E continuou: “Da próxima vez que a galinha aparecer por lá, vai direto para a panela”…

Sissi rebateu: “Minha galinha não tem nada com isso, você quer é fazer propaganda daquela coisa horrorosa que tá lá na sua casa, pois ninguém deu bola para aquele boco moco que você comprou”.

Dona Ivone espumando pespegou: “Boco moco é o seu marido que não serve pra nada”.

Sissi não deixou barato: “Uai! não sabia que você tinha testado ele. Aqui em casa ele funciona muito bem, mas é enjoado e não gosta de qualquer buraco” …

Nisso, a galinha carijó escapou. Dona Ivone possessa atirou o ovo em direção a Sissi explodindo na janela com aquela gema amarelinha escorrendo. Sissi se recolheu. Dona Ivone voltou para casa pisando duro, e nós reiniciamos a nossa pelada…

Bicas barraqueira!

    

Um causo à parte / Memórias

Figura surumbática 

Toda cidade pequena tem, teve e terá alguns personagens que surgem não se sabe de onde, nem por quê. Para o bem, ou para o mal, fazem parte do nosso dia a dia. Bicas nunca fugiu a esta regra…

Tamanquinha foi sem dúvida uma das maiores representantes desse perfil ilógico. Toda vez que ela aparecia apenas andando pelas ruas, era motivo de curiosidade, mistério e medo…

Nós, os moleques, a chamávamos de Maria Tamanquinha. Nunca soube o seu verdadeiro nome. Parente do Sr. Salvador sapateiro, andava meio arcada, tinha um visual estranho, além daquele barulho característico dos tamancos…

Mexíamos só para vê-la xingar. Tinha gente que morria de medo, acho que sem razão. Às vezes, quando me dava dor de cabeça, pensava que era por ter mexido com a Tamanquinha.

Acredito que por trás daquela mulher misteriosa estava uma figura solitária, sofrida e incompreendida. Ela ficou em nossas lembranças como um enigma…

Bicas interrogativa (?)

Um causo à parte / Memórias

O MUNICÍPIO está recordando os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais.

Na bicicletaria 

As crianças e os adolescentes do meu tempo certamente se lembrarão do Nezinho. Era um cara espevitado e bom de negócios. Tinha uma bicicletaria pra lá de eclética. Fazia qualquer serviço em se tratando de bicicletas, desde um simples conserto, até a venda de uma magrinha zerinho.

Nossa molecada costumava ir lá apenas para fazer o politicamente incorreto, ou seja, comprar elástico. Matéria prima principal das atiradeiras, usadas para caçar passarinhos…

Um dia cheguei na loja e espantei! Vi pela primeira vez uma Monareta, que acabara de chegar. Ele, Nezinho, notou meu olhar de encanto e sem titubear mandou que eu desse uma voltinha para experimentar (acho que era o teste drive da época).

Tirei a maior onda. “Gá” quando viu ficou todo babão. Então eu disse: “Não é minha, foi o Nezinho quem deixou”. Logo formou fila e a garotada fez a festa…

Bicas brejeira…

Um causo à parte / Memórias

O eclipse na Rua do Brejo

Estávamos jogando bola de gude na rua, quando de repente o sol começou a se enfraquecer. Aquela cor diferente tomou conta e foi ficando tudo escuro. Valdir surgiu no meio da rua e gritou: “Enfim chegou o dia do fim do mundo…” Logo o dia virou noite.

Bita, com seus olhos esbugalhados, saiu correndo pra casa. Zé da Durica espantado, foi refugiar junto à mãe. Mariazinha apareceu na janela com um terço na mão, rezando. Dona Ciloca, com sua sabedoria, apenas olhou para o céu e continuou com seus afazeres domésticos.

Antes de irmos embora, vimos o Sr. Boia rindo daquilo tudo com sarcasmo. Cheguei em casa morrendo de medo, fechei a porta e procurei minha mãe, que me acalmou: “Filho, é coisa da natureza, logo passa, o mundo só acaba para quem morre”, completou.

Mais tarde o fenômeno se desfez e tudo voltou ao normal. Em homenagem à vida. Sr. Martins colocou na vitrola um bolero, na voz de Nelson Gonçalves…

Bicas fenomenal…

Um causo à parte / Memórias

Num entardecer

Quando minha mãe dizia: “Vamos sentar lá no Grupo”, era a senha para eu dar cambalhotas de alegria… Existia uma mureta que cercava o gramado do Grupo, que, na verdade, funcionava como um banco imenso. Tinha uns 50 metros de extensão, mas o que me dava contentamento era a certeza de comprar o picolé do Pedro Machado.

Minha mãe levava sempre um dinheirinho para isso. Enquanto ela conversava com as amigas, eu já estava na fila do picolé. O estabelecimento era uma uma mistura de sorveteria e bar. Tinha um atendimento muito legal. Tanto ele, como sua esposa, Aparecida, faziam questão que nós saíssemos de lá contentes…

Drops Dulcora, chiclete Ping-pong, salgadinhos e tudo que a criançada gostava. Mas, o nosso principal motivo ali era o picolé… Meu favorito, o de creme. Tinha vários sabores: amendoim torradinho, e o de coco, com uns pedacinhos que no final nós mastigávamos.

Entre um picolé e outro, brincávamos de pique na grama do Grupo, íamos até a pracinha dos aposentados, subíamos na grade do hospital, enfim, deitávamos e rolávamos…

Bicas, criança!

Um causo à parte / Memórias

Armazém do Sr. Armando

Minha mãe me deu a listinha de compras e a sacola e foi dizendo: “Traga logo que vou precisar para hoje.”

Rapidamente eu já estava virando a esquina do Grupo, passei pelo Pedro Machado e cheguei no armazém do Sr. Armando. Na entrada vi um rolo enorme de fumo. Dona Leonilda queria linguiça “Maria Rosa”. Um dos empregados estava arrumando as compras que o caixeiro estava esperando lá fora.

Encostei no balcão, Sr. Armando, calmo e sorridente, pegou a minha lista e colocou os pedidos na sacola: macarrão Santa Isabel, um pau de sabão, salsicha em lata, dois pacotinhos de Ki-suco e outras coisas. Sr. Armando, durante muitos anos, tocou seu negócio com uma grande freguesia e muita honestidade.

Ganhei uma marola de brinde, peguei, agradeci e saí logo. Mas deu pra ver o Mariano pegando o alpiste para seus pássaros e a Íris com um pacotinho de biscoito “Maria”…

Bicas negociando!

Um causo à parte / Memórias

Macumba na encruzilhada

Noite alta de sexta-feira, nossa turma mista, com crianças e jovens, estava voltando pra casa. Avistamos as velas acesas na encruzilhada da Baeta Neves com a José Soares, no pé da ponte.

Um despacho feito com todo esmero; galinha preta, cocadas, velas coloridas, cachaça e um alguidar, cheio de farofa. Formigueiro foi logo pegando a pinga, abriu a garrafa com os dentes e tomou um gole. Panelão encheu os bolsos de cocadas e saiu comendo, Lelé pegou carona na pinga e, por cima, chutou a galinha pra dentro do córrego, enquanto Otto mijou nas velas…

No outro dia de manhã, estávamos sentados na ponte falando sobre o acontecido e aí chegou o Formigueiro reclamando de ter passado mal e com uma dor de cabeça desgraçada.

Logo em seguida, Lelé surge mancando com o pé parecendo uma pata de elefante. Depois veio o Panelão dizendo que estava com piriri.

Dona Vitalina, mãe do Mosquito, passava por ali, escutou nossa conversa e sentenciou: “Vocês precisam respeitar a crença dos outros… Uma hora dessas a conta vem mais alta”.

Nós ficamos meio sem graça, quando o Lelé falou: “É, Dona Virtalina tá certa, precisamos criar juízo”.

Bicas mestra…

Um causo à parte / Memórias

O MUNICÍPIO está recordando os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais.

Ao som do rádio

Na hora marcada, às 18 horas, minha mãe colocava o copo d’água na beira do rádio, pedia silêncio e assim começava a oração da Ave Maria com Júlio Louzada, na Rádio Tupi. Um programa que ficou quase cinco décadas no ar.

Minha irmã, às vezes, ajoelhava e seguia sem pestanejar todo o ritual que vinha nas ondas do rádio, que ficava numa prateleira no centro da sala. Meu pai encostado no portal da cozinha, também ouvia atento. Eu ficava pra lá e pra cá…

Júlio, com sua voz aveludada, mandava bem e conseguia paralisar todos os afazeres de muitos lares naquele horário. Era quase uma obrigação ouvir todos os dias a Ave Maria. Virou moda, além de expressão coletiva da fé.

Terminado o programa, às vezes, tomávamos um gole da água que se tornou benta por estar ao lado do rádio. Dona Ana dizia que era bom para criarmos juízo e também curava doenças. Assim terminava mais um dia de rotina.

Bicas orando!