Um causo à parte / Memórias / Dançando quadrilha

Dançando quadrilha

Quando fui transferido para o Grupo Retto Junior, no meio do ano, me convidaram para dançar quadrilha. Meio sem jeito, relutei, mas depois que soube que meu par seria a Ângela, não pensei duas vezes e aceitei.

Nos ensaios, o que eu mais gostava, era quando ela me dava o braço. A marcação da dança, naquela época, era em francês e eu achava muito chique… “Anarriê”, “Alavantu” e “Balancê”, estas palavras nunca saíram da minha cabeça.

No dia da apresentação oficial, todos nós vestidos a caráter, nervosos e a escola cheia. Era pura emoção. Todos bem ensaiadinhos, fizemos o dever de casa… Muitos aplausos e
abraços.

Dava pra ver, no meio de toda aquela parafernália, nossa diretora, Dona Ernestina com
um sorriso de orelha a orelha. Ah se tivesse selfies naquele tempo!

Bicas juninamente.

Um causo à parte / Memórias / A alma do negócio

A alma do negócio

Desde quando inventaram o dinheiro, o homem vem usando a criatividade para captá-lo. Zé Longo tinha um bar perto da Estação, vizinho do Açougue do Lourinho. O negócio andava meio borocoxô e precisava de uma injeção de ânimo, pois só tinha movimento de moscas…

Ele que era um marqueteiro nato, resolveu mudar seu espaço interno… Colou no teto rótulos de bebidas, colocou uma estufa para conservar os salgadinhos de ontem e, principalmente, afixou uma lista com os nomes dos bêbados, com a data de seus óbitos…

Aquilo logo causou um alvoroço. Nós, curiosos, íamos lá: “Cheiroso”, morte até junho; “Mário Lobisomem”, não passa de setembro; “Valdevino”, a qualquer momento. Não me lembro se a lista acertou algum prognóstico…

E assim, o bar aumentou a frequência e também o faturamento. Os citados na lista ficaram uma fera, mas como naquela época não existia a baboseira do politicamente correto, ficou o dito pelo não dito.

Zé Longo com seus olhos claros, sorriso rotineiro e humor esquisito, nos deu uma aula de como aumentar as vendas…

Bicas surfando na onda!

Um causo à parte / Memórias / Adoçando nossas vidas

Adoçando nossas vidas

Um dia nossa turma foi jogar uma pelada lá na Reta, indo pela linha do trem.

Quando estávamos passando por trás do cinema, avistamos uma cena rotineira, mas que nos chamou a atenção: Biba e mais duas outras pessoas retiravam de dentro de casa, com muito cuidado, um bolo enorme de três andares, com um casal lá em cima, abraçadinhos.

Era mais uma obra da famosa dona Geralda, sem dúvidas, uma das maiores confeiteiras que Bicas já teve.

Ela, atenta na varanda, dizia: “Cuidado, a mãe da noiva já está esperando”. Véio comentou: “Quem será que vai casar?” Ninguém respondeu. Nossa doceira era muito requisitada. Por trás de sua fama estava uma excelente profissional, dedicada e com mãos de fada.

Naquela época, era praticamente impossível uma grande festa em Bicas, que não tivesse um docinho, sequer, sem a marca dela. Geralda tinha até equipe de apoio.

Um dia conheci seu ambiente de trabalho. Havia uma mesa enorme com liquidificadores e batedeiras, além de um monte de colheres de pau. Dona de um sorriso escancarado, ela adoçou nossas vidas por um longo período…

Bicas docinha!

Um causo à parte / Memórias / Malhação

Malhação

A molecada ficava em polvorosa quando chegava o sábado de aleluia. Era bonito ver a participação da criançada. Cada um arranjava uma maneira de ajudar na confecção do Judas… Uns iam pegar capim para encher a camisa e calça, dando forma ao corpo. Uma bola de borracha pintada com boca, nariz e olhos caracterizava a cabeça, que também tinha um chapéu de palha preso em cima.

Tudo isso encaixado no colarinho da camisa xadrez. Um par de sapatos velhos amarrado na boca da calça completava o manequim. Alguns moleques compravam as bombinhas no Sr. Listote e preparavam o material bélico que ia dentro do Judas, que nesse momento já existia fisicamente…

Assim, à tarde, o danado do traidor já estava pendurado naquele poste feito de trilhos de trem, que ficava bem na esquina da rua do Brejo… Chegada a hora, nós, juntos com alguns coroas, todos armados com varas, batíamos sem dó no malvado traidor.

Quando ele finalmente caia, saíamos puxando aquele traste pelas ruas empoeiras até colocar fogo em seu corpo… Aí vinha o melhor da festa: eram bombinhas estourando juntas com umas cabeças de nego, até chegar a hora do busca-pé.

Aquele trem saia como um raio atrás de nós soltando faísca pra todo lado… Tinha moleque que até pulava dentro do córrego para se livrar das faíscas brilhantes. Enfim, o Judas virava pó, e nós, suados de tanto divertimento, fechávamos mais uma Semana Santa… Bicas empírica.

Um causo à parte / Memórias / Tesoura voadora

Tesoura voadora

Nossa rua era muito antenada. Armamos um ringue com quatro estacas amarradas com corda de bacalhau e deixamos tudo pronto para o “telecatch”…

O juiz tinha que ser um moleque mais velho e honesto. Cachaço era da nossa idade, porém grande e forte, o danado batia em todo mundo. Paulo da Durica tentou dar uma tesoura voadora nele e ficou pela metade… suas pernas ficaram presas em seu pescoço.

Cachaço aproveitou e aplicou-lhe um golpe encostando suas costas no chão;  assim, ganhando mais uma luta…

Passamos um bom período com essa brincadeira meio pesada, que era fruto de um programa de televisão dos anos 60, que virou febre nacional. Quem é daquele tempo se lembra com facilidade de Ted Boy Marino, Tigre Paraguaio, Verdugo, Rasputin e muitos outros…

Eu ia no Bar do Agostinho todos os sábados assistir às lutas. Esse sucesso se deveu, principalmente, à popularização da televisão e à teatralidade das lutas.

Era o bem contra o mal. Teve lutador que virou ídolo e fez carreira longa na tevê. Eu apanhava, mas me divertia no campinho da Rua do Brejo…

Bicas engalfinhada.

Um causo à parte / Memórias / De conversa em conversa

De conversa em conversa

Acabara de engraxar os sapatos do Sr. Nelson Ramos, quando meu pai que também terminara de barbear mais um freguês… Foi quando o Sr. Alípio barbeiro comentou: “Puxa, João, você está com as mãos de seda, pois o freguês sentou-se na cadeira e dormiu o tempo todo”.

Meu pai deu um sorriso de agradecimento. Sr. Michel não deixou passar e fuzilou: “Mão de seda nada, esse molenga que saiu é que é um dorminhoco e não vale nada. Imaginem vocês, ele tem uma morena danada de fogosa em casa e só tem dois filhos. Vai ver que dorme a noite toda…”

Meu pai tirou do bolso uma nota de vinte cruzeiros e pediu para eu ir trocar. Percebi que a conversa não era para crianças… Cheguei no armazém do Sr. Orlando de Freitas, pedi para trocar o dinheiro. Ele também estava cochilando e sem abrir os olhos disse que não tinha troco. No Bar do Valentim, finalmente consegui…

Quando entrei na barbearia de volta, quem estava na berlinda era JK por querer mudar a Capital para Brasília…

Bicas com a língua afiada!

Um causo à parte / Memórias / Raízes medicinais

Raízes medicinais

De quando em quando, eu era requisitado para ir até a matinha pegar raízes para fazer chás, unguentos, emplastros e afins. Dona Benedita, que era mãe da comadre da minha mãe, ia subindo a escada de casa e gritava: “Comadre, me empresta seu menino que eu preciso
dele…”

Essa era a senha para eu ir pegar atrás do galinheiro minha machadinha e um facão. Dona Benedita tinha um conhecimento sobre o assunto que parecia uma doutora. Chegava com um saco de estopa e um canivete afiado para confirmar as procedências das raízes

Com o seu inseparável cachimbo, lenço na cabeça e bom papo, me conduzia até o local onde invariavelmente acertava o que queria… Meu trabalho era braçal. Com a ponta do facão, descobria a raiz e com a machadinha cortava somente o necessário. Depois cobria novamente
o local.

Dona Benedita, na sua sabedoria, dizia: “Não pode judiar muito da planta…” Quando
voltávamos com o suficiente para suas demandas, ela me agradecia e me dava uns trocados para comprar picolé…

Infusão biquense!

Um causo à parte / Memórias / Túnel do tempo

Túnel do tempo

Na nossa vontade aventureira, ficávamos remoendo até achar algo interessante para nos manter ocupados durante o dia. A atividade da vez, foi uma dica do Gá; aliás, ele era danado pra ter boas ideias. Segundo o seu planejamento tático, nós iriamos explorar os túneis da fábrica de caulim, que ficava lá atrás do Morro do Cruzeiro, se não me engano, nas terras do Horácio Machado. 

Na preparação de expedição, além de cantil e lanche, carregávamos também outras tralhas; entre elas, as latas de querosene Jacaré, com alças de arame e tocos de velas dentro, que seriam nossas lanternas para iluminar a escuridão dos labirintos internos.

Duca foi convidado e desconversou. Uma equipe de uns dez desocupados, parecendo pesquisadores arqueológicos, seguiu morro acima… Depois de uma subida “daquelas”, viramos o morro e chegamos na entrada principal do túnel, acendemos as “lanternas” e começamos a exploração.

À medida que íamos entrando, a escuridão vinha junto com a adrenalina. Também, o medo começava a saltar aos olhos. Bita tremia mais que vara verde… Zé da Durica queria voltar… Eu ficava sempre perto de alguém…

Atravessamos algumas encruzilhadas, vimos aqueles carrinhos que transportavam o minério e tal. De repente, numa área mais larga e cheia de teias de aranha, apareceu um vulto: era um pano branco se movendo e dando uns grunhidos estranhos.

O clima ficou mais fantasmagórico com os ecos naquele lugar macabro. Foi um Deus nos acuda! Largamos nossas coisa para trás e saímos em disparada… Quando estávamos lá fora descansando, Duca veio em nossa direção morrendo de rir com o pano branco na mão. Xingamos, esbravejamos e tudo mais… Bicas assombrosa.

Um causo à parte / Memórias / Os ecléticos

Os ecléticos

Na minha infância, era difícil e caro brinquedo industrializado. Nós tínhamos que usar a criatividade para nos divertirmos. Na Rua do Brejo, por exemplo, havia várias pessoas que nos ajudavam a fazer carrinho de rolimã, pipas e mais uma porção de brinquedos…

Um dia fui até à casa do Sr. Juca, para ele me ensinar a fazer um pião, na base do canivete. Confesso que fiquei com medo, mas com a ajuda e paciência do instrutor, não só fiz o danado como aprendi a colocar o prego na ponta. Ficou tão bom que o pião até dormia quando rodava…

Era um prazer para os mais velhos passar seus conhecimentos. Sr. Otto vivia ensinando a molecada a arte da carpintaria… Até espingarda o Beto aprendeu a fazer. É claro, tinham os ensinamentos não ortodoxos, mas cada um sabia qual fonte beber. Isso estimulava nossa
criatividade e nos ajudava a passar o tempo.

As meninas também tinham ótimas professoras casuais. Esse relacionamento de vizinhança era fundamental para a nossa formação. Ajudava a despertar um sentimento de companheirismo…

Bicas aconchegante.

Um causo à parte / Memórias / Na Barbearia São Jorge

Na Barbearia São Jorge

Movimento fraco, eu varrendo o salão e os barbeiros na porta fazendo chacrinha. Meu pai, seu Alípio e o Sr. Augusto jogando conversa fora, quando chegou Sr. Israel e relatou o que havia acontecido na noite anterior no seu botequim: “Imaginem vocês, ontem a turma pegou
o Moraes, aquele folgado”.

Pato Rouco e Dulim prepararam um gato como se fosse coelho e deixaram bem no jeito. O “Serrote” já foi chegando e pegou logo a coxa do bichano, achando que era uma lebre. E comentou: “Nossa, que coelho gostoso! Quem preparou?”

O botequim ficava perto da praça dos aposentados e era um ponto de encontro de quem gostava de uma cerveja Portuguesa bem gelada e um tira gosto de primeira. Morais era especialista em “filar” nas mesas dos outros e não pagava nada para ninguém. Quando ele já havia comido quase todo o gato, suspeitou que nenhum colega sequer beliscara aquele delicioso petisco.

Foi quando a turma avisou que ele tinha saboreado um felino doméstico. Moraes esbravejou e disse que tinha asma e, se morresse a culpa seria deles. Saiu pisando duro, quando Pato Rouco gritou: “Tomara que não apareça mais aqui seu unha-de-fome!!!” Meu pai e os outros adoraram a história. Seu Alípio completou: “Vou fazer a barba do Dulim por uma semana de graça…”

Bicas sacana.