Um causo à parte – Memórias – Oba, lá vem ela!

O MUNICÍPIO está recordando os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais. 

Oba, lá vem ela!

Um dos maiores filósofos da Rua do Brejo foi Valdir do Cesário. Um dia, ele no auge de sua erudição, profetizou que Vênus e Apolo tiveram um encontro secreto na nossa rua e depositou ali o DNA da beleza.

Quem é Brejense ou morou um determinado período lá, adquiriu a beleza eterna. Essa, portanto, seria a razão de ter tanta gente bonita naquele local…

Dito isso, lá vinha ela descendo a Necésio Silva com seus lindos cabelos louros até quase a cintura, com seu corpo escultural em clima do salto alto, dentro de uma pantalona verde e camisa branca…

Nós, adolescentes, paramos nossos afazeres e fomos correndo sentar na beirada da ponte, pois ali era nossa passarela… Quando ela se aproximou começou as gracinhas.

Nelsinho: “Colírio pro meus olhos”, Zé Durica: “Esta é a nora que mamãe queria”. Nossa musa passou por nós e deu um sorriso daqueles. Bita, com seus olhos esbugalhados, quase caiu de costas dentro do córrego. Aquele perfume, solto no ar, nos enfeitiçava.

Rivalino disse que na “Brincadeira” de sábado iria tirá-la pra dançar. Eu, sem nenhuma dor de cotovelo, falei: “Tomara que ela não apareça e se for que te dê uma tábua”.

Lúcia vira a esquina e some dos nossos olhos…

Eta… Bicas sensual…

Um causo à parte / Memórias / Nos anais (Foto Adelson)

O MUNICÍPIO está recordando os pitorescos contos do livro “Bicas, um causo à parte”, do saudoso Vasco Teixeira, prestigiado ex-colunista do jornal. Um biquense que também fez história nas cidades de São José dos Campos (SP) e Paraisópolis (MG), onde estava radicado. O Tiãozinho da Rua do Brejo era multifacetado: metalúrgico, político, cronista, escritor, artista plástico e mais. 

Nos anais (Foto Adelson)

Desde pequeno gostava de ir ver a vitrine fotográfica do Adelson. Fotos de casamentos, inaugurações, eventos. Tudo que acontecia de importante em Bicas, nosso principal fotógrafo registrava profissionalmente.

Me lembro de quando fui fazer aquela foto padrão da Primeira Comunhão, Adelson, perguntou se eu queria colorida. Espantei, pois ainda não tinha visto. Mais tarde fiquei sabendo que ele pintava a foto em preto e branco artisticamente. Isso já foi um grande avanço… Seu estúdio era ali quase em frente à padaria do Sr. Chiquinho.

Acho que suas vitrines só perdiam em visualização para os cartazes do cinema. Certamente, com mais de cinquenta anos e, por estar na ativa até hoje, Foto Adelson deve ter um acervo que conta grande parte da história de nossa Bicas. Isso é um patrimônio capaz de causar inveja em muitos municípios do Brasil…

Bicas em foco…

Um causo à parte / Memórias / Sessão de Cinema

Sessão de Cinema

Chegou minha vez de comprar o ingresso. Na cabine, por fora, a plaqueta de “Proibido para menores de dezoito anos”. Eu ainda não tinha idade para entrar, mas mesmo assim, resolvi arriscar. Se desse algum problema poderia devolver o ingresso.

O bilheteiro Ary Florentino pergunta: “Inteira ou meia?” Eu pedi inteira. Na portaria, Duílio acompanhado por um comissário (Tia Ica) fazia a triagem. Entrei sem ser contestado. Comprei amendoim do Maninho e fui me assentar.

Logo a cortina se fechou, vieram as três badaladas e o apagar das luzes. Canal 100: Vasco 3×0 no Flamengo. Depois dos trailers e, finalmente, o filme: “Fúria no Alasca”… pela quarta vez naquele ano.

Lá pelas tantas, a fita parou de rodar, vieram os costumeiros gritos de “Corta, Goty”. Mas desta vez a situação foi pior: a lata que trouxe o filme, estava faltando uma parte e não teve como recomeçar…

Sá Onça acendeu um papel no meio da escuridão e a balbúrdia começou. Muita gritaria, pessoas saindo, outros exaltados atirando objetos na tela. Charles Cândido, que estava na parte de cima (Pulman), jogou uma cadeira pra baixo…

Com a chegada da polícia, a confusão aumentou. “Queremos nosso dinheiro de volta”, disse Zuquinha… Naquele empurra-empurra, o cassetete cantou. O pessoal mais nervoso chutou a porta do Cinema, pois estavam querendo fechá-la. Chico Retto sacou o revólver e o quiproquó foi amenizado. Com certeza, esse foi um dos poucos momentos de confusão no nosso Cine São José…

Bicas ação…

Um causo à parte / Memórias / Com o rabo ardendo

Com o rabo ardendo

Novamente escutei o assobio característico do maninho, olhei pela janela, lá estava ele com sua atiradeira no pescoço e um embornal cheio de munição. Era hora de irmos caçar passarinhos. Peguei meus apetrechos e fomos.

No campinho da dona Graciema, na beira do córrego, já havíamos gastado mais da metade da munição e nada. Olhamos para dentro do quintal do Sr. Neném e vimos o pé de
Eugênia carregadinho. Não pensamos duas vezes… Entramos, cuidadosamente, por um buraco na cerca e nos escondemos atrás das bananeiras.

Discretamente subimos na árvore e começamos a colher aquelas gostosuras de cascas cor de vinho e polpa branca. Enchemos nossos embornais, quando de repente levei uma chuchada na bunda com um bambu e escutei um grito de satisfação: “Peguei vocês seus ladrõezinhos!” Era o Sr. Neném, dono do quintal.

Nisso, o Maninho também levou uma bambuzada na perna. Eu disse: “Se o senhor deixar a gente ir embora, prometo que não entro mais aqui”. Ele: “Conversa fiada, todos os dias vocês estão aqui me enchendo o saco”.

Subi lá para as grimpas, Maninho muito esperto segurou a ponta do bambu, aí eu desci em disparada. Quando estava chegando perto da cerca, levei uma varada nas costas que fui parar dentro do córrego.

Maninho saiu pelo quintal vizinho e nos encontramos no campinho. Ele estava com a perna sangrando. Perdeu a atiradeira. Eu tirei do embornal umas frutas e fomos comendo.

Cheguei em casa, fui tomar um banho e tirar as farpas do bambu da bunda…

Bicas sacana!

Um causo à parte / Memórias / O afano dos galináceos

O afano dos galináceos

Na divisa do campinho da rua do brejo ficava o quintal de dona Aracy, que volta e meia brigava conosco por causa da invasão para pegar a bola que lá caia. Vez por outra, ela até furava nossa pelota…

Ficamos sabendo que seu irmão Itibêre Gouveia do Amaral,  deu-lhe de presentes algumas galinhas exóticas e que ela tinha o maior xodó com os galináceos. Por este motivo nos aguçou aquela vingança reprimida. Preparamos cuidadosamente uma visita ao galinheiro das beldades penosas.

Neném Brasinha nos disse que seu fogão a lenha estava à disposição, desde que o produto chegasse em sua casa já depenado; portanto, sem a prova do crime. Já com longa experiência no ramo, nosso pelotão de frente entrou em ação…

Já noitinha, subimos pela mangueira que ficava no fundo do quintal do Waltencir e, num silêncio sepulcral (parecia que estávamos levitando), tivemos acesso ao galinheiro. Duca, Miro e Fumanchú, os especialistas, jogavam para fora, já abatidas, as aves e, nós do baixo clero, as recolhíamos dentro de um saco de estopa.

Recolhemos um bom número para o jantar… Mais tarde, durante a ceia, Gá reclamou que ao limpar os pés de uma delas tinham penas e uma outra galinha tinha uma crista enorme. Havia também um frango bem peitudo. Rolou cachaça para os adultos e Ki-suco para a molecada, além do arroz com angu…

Dias depois, nós estávamos no campinho, quando chegaram o sargento Mário e os soldados Isaías e Severino. Sgt. Mário entrou de sola: “Como vocês tiveram a coragem de roubar as galinhas de raça da irmã do general? A mulher tá uma fera. Ela quer de volta aquela dos pés empenados, a francesa dos ovos azuis e galo chinês.

Enquanto isso, os soldados procuram na beira do córrego as provas do crime e nada encontraram. Nós, como sempre, fizemos aquela cara de paisagem… Não sabíamos de nada. Depois de várias ameaças, eles foram embora. Landinho deu uma risada e sentenciou: “Bem feito por ela ter furado minha bola…”

Bicas dando o troco.

Um causo à parte / Memórias / Os fanfarrões

Os fanfarrões

Estávamos batendo uma “laçada” de pipas no céu do campinho, quando desceram a José Soares, Zé D’Onofre e João Gulinha numa “rama” danada. Não se via quem se escorava
em quem.

Os dois cantavam: “Viva o dotô Oliveira, viva o dotô Oliveira”… Zé D’Onofre parou na ponte tão abruptamente que João Gulinha desequilibrou-se e foi catando cavaco até a varanda do Neném Brasinha. Sem a menor cerimônia, Zé abriu a braguilha da calça e começou a regar o córrego…

Dona Durica rapidamente cerrou a janela, mas esqueceu de tirar o olho da fresta. Didi Trocate, que acabara sua tarefa na casa da Bebete, quando viu aquela exuberância balançando, deixou seus pertences no chão, colocou a mão no rosto e caprichou em bom tom: “Nossa!!! Que enorme!!! Adorei Milhões!!!”.

Zé D’ Onofre, antes de guardar seu conteúdo lúdico, chacoalhou e gritou: “Aqui Geralda, hoje você não me escapa”… João Gulinha se escorou no parceiro e falou: “Vamos cumpadre, é tarde e a patroa pode xingar”…

Os dois subiram, cambaleantes a Rua do Brejo cantando: “Quando você se cansar dos carinhos meus/não precisa me enganar/basta me dizer adeus”… Nessa hora, o Maninho já havia cortado e aparado a minha pipa…

Bicas tomando umas!

Um causo à parte / Memórias / De frente pro crime

De frente pro crime

Colhíamos mangas na beira do córrego, quando Bita veio correndo dizer que estavam vindo dois soldados. Descemos depressa e ficamos morrendo de medo. Severino e Isaías
passaram pela ponte, cumprimentaram alguns moradores e subiram a Rua do Brejo. Ely achava que eles iam à casa da Dona Hilda. “No Jair Cotta”, palpitou o Miro.

Os soldados, vestindo uniformes impecáveis e completos, foram varar na casa do Bituca. Uma casa simples que ficava numa viela. Chamaram pelo proprietário e foram
entrando. Desta vez Bituca não escapou. Severino explicou que o motivo deles estarem ali, era uma reclamação da Dona Bebete sobre o sumiço dos seus gatos. “Outra vez”!!!, exclamou o
morador, “eu não tenho nada com issi”, concluiu.

Enquanto isso, Isaías foi por trás da casa e viu a prova do crime: três couros de gatos esticados para fazer tamborim…

Bijuca tentou justificar dizendo que era couro de jaguatirica, que tinha caçado na matinha. Bravo, Severino retrucou: “Você acha que somos idiotas? Nessa mata não tem nem gambá, ainda mais jaguatirica albina com rabo de angorá. Teje preso!”.

Desceram a rua com o Bituca, entre os dois. As bruacas nas janelas como sempre: “Coitado, é para alimentar sua família”, outra: “Bem feito, tomara que fique numa jaula com os leões do circo”.

Bebete, de sua casa, no alto, observava tudo com um certo ar de alívio…

Bicas na lei…

Um causo à parte / Memórias / Remédio caseiro

Remédio caseiro

Minha mãe me chamou lá da horta para eu mostrar o meu machucado para a sua comadre Luzia que estava do outro lado da cerca. Passei mancando pelos canteiros. O de couve manteiga estava verdinho e com as folhas enormes… o de alface nem te conto…

Dona Ana, mostrou o meu pé e disse que eu tinha pisado num estrepe e que o machucado zangou. Luzia, por um buraco da cerca, calmamente, passou a mão sentiu que estava quente e falou: “Vou fazer uma infusão e darei para você se banhar”.

Olhou também para a minha nuca e notou que o emplastro de fumo com azeite e açafrão que ela colocou tinha dado resultado, pois no local da impigem o cabelo estava nascendo… Voltei e vi a parreira de chuchu lotada.

Modéstia à parte, meu pai cuidava bem lá de casa. As duas comadres continuaram o colóquio e eu fiquei esperando o tal banho de guiné com alfavaca que, segundo Dona Luzia,
não só ia desinflamar, como também o estrepe ia pular fora…

Bicas medicamentosa.

Um causo à parte / Memórias / Histórias Quentes

Histórias Quentes

Nas noites de inverno, era comum, antes de irmos para a cama, acomodarmos à beira do fogão à lenha para ouvir histórias. As de assombrações eram as nossas preferidas. Meu pai caprichava no enredo, sempre pedindo confirmação para a minha mãe… que anuía.

Sr. João era bom contador, sabia nos prender com aquela fala mansa… A Mula sem Cabeça soltava fogo pelas ventas, destruindo tudo que estava à sua frente e não adiantava querer saber onde ficavam suas ventas.

O Saci Pererê passava assobiando com o cachimbo na boca, pulando na garupa do cavalo e trançando suas crinas. Tinha também aquela mulher vestida de branco que arrastava correntes no casarão abandonado…

Minha irmã ficava com os olhos arregalados, eu me encostava em minha mãe. Os outros irmãos se fingiam de durões, mas quando iam para a cama não queriam que apagasse a luz do corredor.

Eu nem me hesitava em cobrir a cabeça e ficar sem mexer até dormir. Nossas noites eram quase sempre assim. O rádio saía logo do ar, não existia televisão, os mais velhos, às vezes, liam algo. Mas o bom mesmo era ficar à beira do fogão curtindo aquele medo.

Bicas Fantasmagórica.

Um causo à parte / Memórias / Amistosa pelada

Amistosa pelada

O escrete brejense foi solicitado para um jogo amistoso, lá na Forquilha. Estávamos jogando um bolão e na zona urbana, nossa invencibilidade já chegava à casa das trinta partidas…

Para o deslocamento dos atletas, foi contratado o caminhão do Sr. Eurico. Ramiro, ao volante, e Duca, na manivela, fizeram aquele Ford verde e preto funcionar. Os craques foram subindo: Miro, Lengo, Orney e todos os outros grandes nomes…

A viagem foi longa e com muitas paradas para o desaquecimento do motor. Enfim chegamos… Gá passou mal e foi tomar um chá de losna para desembrulhar o estômago. Eu
fiquei meio verde, mas aguentei firme…

Num jogo duríssimo, Fumachu deu uma bicuda que quebrou o travessão de bambu. A peleja foi interrompida, mas logo a bola voltou a rolar. Ganhamos de 7×5. Na volta, vínhamos cantando: “É canja, é canja, é canja de galinha, arranje outro time pra jogar com a nossa linha”.

O pneu do caminhão furou e alguém teve a ideia de enchê-lo de capim, pois não tinha estepe e a câmera de ar rasgou toda. Gá passou mal de novo, jogou os bofes pra fora, acertando o
cangote do Panelão. Terminamos a viagem no solavanco…

Bicas e seus pupilos!