Quarta-feira de favas e o Brasil às cinzas

Já há muitos anos que tenho essa percepção e preocupação, desde recém saído da juventude e iniciado minha trajetória rumo ao amadurecimento. Mas, percebo que alguns fatos a exacerbaram com a subsequente contração de responsabilidades: a graduação, as incertezas e decepções profissionais, o casamento, a vinda dos filhos – média de 20 (vinte) anos para formar-se mais um pagador de impostos.

Mas, mantinha-me resignadamente calado, pois manifestar minhas posições quanto a tudo que me incomodava nas atitudes dos conterrâneos (brasileiros), jogavam-me imediatamente ao limbo. Todos contra. Tá ficando velho! Não gosta mais de Carnaval? Deixe os outros brincarem… Tem medo de ir ao Mineirão! Sair pra rua com a camisa do Cruzeiro… Não critique quem o faz.

Porém, me senti novamente encorajado a falar no assunto, assim que me senti respaldado por um texto atribuído ao cineasta, roteirista, diretor de cinema e TV, produtor cinematográfico, dramaturgo, crítico, jornalista e escritor brasileiro, Arnaldo Jabor, o qual, modestamente, ele parece ter lido em meu pensamento. Em especial, quando ele cita que os canalhas do poder adoram essa orgia que, além de sem sentido, também nos deixa igualmente sem, distraídos olhando para outro(s) lado(s), enquanto os patifes não desviam por um só segundo a(s) sua(s) atenções do lugar comum – os cofres públicos -.

O arremate já virou clichê: “Será que conseguiríamos reunir igual contingente para manifestarem-se contrários a esse descalabro de tudo que é tipo de safadeza perpetrados por nossos (?) políticos (???)? Não, é claro que não. Apena 01 (um) bloco aqui em BH – Baianas Ousadas – colocou 650.000 (seiscentos e cinquenta mil) inebriados a lhe seguir, fechou a Av. Afonso Pena, da Rodoviária até a Praça Milton Campos (esquina de Av. Contorno).

Quando constato uma coisa dessas, penso que o Brasil já resolveu todos os seus problemas: a saúde e a educação são de primeiro mundo; os professores, policiais, médicos, enfermeiros estão com os salários em dia; não há mais arrastões, assaltos, assassinatos, rombo na previdência e as estradas não possuem mais buracos. O país agora pode usar dinheiro público para financiar farra, entretenimento e orgias.

E é exatamente o que mais uma vez se repete em 2018. O Ministério da Cultura autorizou a captação de um montante de pelo menos R$ 118.100.000,00 (cento e dezoito milhões e cem mil reais), através da Lei Rouanet, para financiamento de festividades de carnaval em fevereiro deste ano. As regalias vão desde repasses de “pequenas” verbas para prefeituras, como R$90.100,00 (noventa mil reais) para a prefeitura de Rio Pardo/RS, até isenção de impostos (famigerada renúncia fiscal) de R$ 9.900.000,00 (nove milhões e novecentos mil reais) para a Dream Factory Comunicação e Eventos Ltda.

E, ainda assim, a “grita” dos carnavalescos foi tonitroante! Críticas aos governantes foram até tema para algumas Escolas (?) de Samba. A Estação Primeira de Mangueira teve, sem dúvidas, o enredo mais comentado deste Carnaval. Com a postura inédita de fazer um tema que bata de frente com a administração municipal, a verde e rosa, indignada após o corte de verbas das escolas de samba pelo prefeito Marcelo Crivella, lançou o enredo “Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco”.

Depois de passar por uma parte mais romântica do enredo, relembrando a história e as tradições de carnavais passados, o desfile da Estação Primeira na madrugada da segunda-feira de Carnaval, partiu para uma crítica frontal à postura do prefeito, citado nominalmente e representado por um boneco – tipo Judas – para ser malhado. Abaixo do boneco, a frase: “Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval!” No carro, um dos momentos mais políticos da história do Carnaval carioca, o “Cristo” mendigo – censurado – de Joãozinho Trinta, na Beija-Flor, em 1989, também foi transformado em crítica a Crivella, com a frase “Olhai por nós! O prefeito não sabe o que faz”. Parte da plateia se juntou ao protesto e gritou: “Fora, Crivella”.

Não estou aqui, de forma alguma, defendendo o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, até por que, na minha convicta e nada modesta opinião, para tal não o motivaram, nem a honestidade e o rigor no trato com a coisa pública e muito menos suas convicções religiosas – religião de político e o ‘politicismo’, cujas divindades são: ‘Poder & Dinheiro’ – e sim, tão somente por que,  com tal atitude, ele agrada ao seu rebanho de encabrestadas e dóceis ovelhas.

Completavam a alegoria integrantes de diversos blocos da cidade, que vieram com as fantasias que usam nos desfiles de seus próprios grupos, reforçando o protesto contra a repressão da atual gestão ao Carnaval, com as palavras “Deixa o povo brincar”. Por falar em encabrestadas e dóceis ovelhas, o público estava com refrão do samba na ponta da língua.

Ao final do desfile, o presidente da escola, Chiquinho de Mangueira, contou que o Judas com o rosto do prefeito foi uma decisão criativa do carnavalesco Leandro Vieira, que teve total liberdade. Sobre transformar o desfile em protesto, ele comentou: “Foi a resposta para ele repensar o que fez com o Carnaval. Cometeu a maior injustiça com a maior festa popular do mundo, que é o Carnaval. E a Mangueira se propôs a se rebelar contra isso tudo. E foi isso que você viu aí”.

Taí ! Será que os componentes da mangueira, aí inclusos seus diretores, presidente, chefes de ala e bateria, porta-bandeira e mestre-sala, e todos os seus fervorosos adeptos e fanáticos torcedores, topariam se reunir para fazer um protesto em frente à prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, por mais e melhores ‘Postos de Saúde’ na comunidade que da qual ‘ostenta’ o nome?

Nunca poderia imaginar que dinheiro do povo – pois, União, Estados e Municípios não geram renda, arrecadam – fosse fazer tanta falta a uma liga de escolas de samba, que recebem patrocínios milionários de empresas de TV, de bebidas, grupos de comunicação e, neste inusitado ano, até de preservativos! Sem contar o “Caixa 02”. Além de tudo isso, ainda cobram um absurdo para quem deseja assistir o espetáculo da ‘folia pagã’ na arquibancada.

E aí, já que cantamos o estribilho, voltemos lá no começo do nosso enredo… O ‘povo’ que reclama da carestia, da inflação, das tarifas de ônibus, das esperas nas filas, entra nas filas durante horas para comprar ingressos, a partir de R$ 250,00 (duzentos e cinquenta reais), abadás de blocos por até R$ 3.000,00 (três mil reais), R$ 5.000,00 (cinco mil reais) em Salvador e,  até R$ 500,00 (quinhentos Reais) aqui em BH.

Para mim, esse protesto da Mangueira – ‘Estação Primeira’, X Marcelo (que saiu de ‘Trivella’) e foi pra Europa,  é só birra de concorrentes, pois  a Mangueira também administra muito mal os seus recursos, bem como os nossos políticos.

Se essa ‘mangueira’ fosse de “Lava-a-Jato”, com certeza já teriam descoberto desvios de notas (nada musicais).

– E, durma-se com um batuque desses!!!