Os três apitos

Durante todo o tempo que passei em Bicas, o que mais me chamava a atenção era a influência que a Leopoldina exercia sobre todos nós. Fosse como geradora de empregos ou pelo espaço físico que ela ocupava. Haja vista sua marca registrada: seus apitos que ecoavam por todos os cantos.

Seis e meia da manhã soava aquele que era o mais longo dos apitos matinais. Demorava propositadamente para acordar mesmo toda a cidade… Havia aquele corre-corre, pois sabíamos que quinze minutos depois viria outro mais breve, que queria dizer: tomou café?

Sempre encontrávamos pessoas correndo para o trabalho ou escola perguntando se o segundo apito já havia ocorrido. O terceiro e último da manhã, era mais longo que o do meio, ou seja,  intermediário, indicando que deveríamos estar a postos.

Nessa meia hora, os três apitos da parte da manhã faziam Bicas ficar elétrica e nos obrigavam a um enquadramento…No meio do dia, a história se repetia para o almoço, descanso e volta ao trabalho ou escola.

Mais tarde, às quatro e meia, o último dos apitos encerrando as atividades. Quase todos os estabelecimentos comerciais obedeciam essa marcação. A dependência da população era rotineira e automática, se por algum motivo os apitos da Leopoldina não funcionassem, nós ficávamos iguais a barata tonta…

Outra prova marcante da Rede Ferroviária nas nossas vidas, era a quantidade de comboios que passavam diariamente pela Estação; no mínimo uns cinco, fomentando um comércio de fazer inveja às cidades vizinhas.

A Leopoldina, que chegou a gerar quase mil empregos diretos, também nós deu duas ótimas escolas, uma renda per capta e padrão de vida de fazer inveja à região. Foi terrível para todos o fim das atividades dela sem deixar nenhuma opção no lugar. Isso causou um enorme êxodo e estagnação… Bicas sempre nos trilhos.