Num Domingo qualquer

Quando minha mãe ia fazer frango no almoço, já se sabia logo: caldeirão cheio de água pra ferver no fogão a lenha… Meu pai me mandava ir lá no armazém do Sr. Armando comprar queijo ralado e macarrão Santa Isabel, aquele que vinha numa embalagem roliça de papel.

O queijo era ralado na hora numa máquina manual que ficava fixa na beira de uma mesa. Na volta, em troca do serviço, avisava que a moela era minha, mas Ana Lúcia sempre me filava um pedaço. Os outros irmãos não ligavam…

Enquanto a água fervia, minha mãe já estava com o ciscante no ponto de sacrifício. Logo ela pisava nas asas e nos pés do galarote imobilizando-o. Colocava um prato de esmalte com algumas gotas de limão debaixo do pescoço já depenado do coitado e a faca mais afiada que língua de trapo fazia o sangue jorrar…

O limão era para o sangue não coalhar depois de exaurido. Assim, com a água já no ponto, começava o trabalho de limpeza e esquartejamento, para levar o galináceo à panela de ferro.

Em poucos minutos, espalhava pela casa aquele cheirinho do tempero da Dona Ana. O macarrão era quebrado antes de cozer, para facilitar a degustação. Na hora do almoço, o peito ficava sempre para o meu pai que podia troca-lo.

Havia um revezamento: quem comia a coxa num domingo, no próximo ficaria com o pescoço e os pés e assim por diante. Além da macarronada com frango, havia também algum complemento.

Antônio, meu irmão do meio, gostava de frango com macarrão, feijão e quiabo. Tinha para nós todos Q-suco, com gelo da geladeira da Ivone. Eu ria ao ver no espelho minha língua roxa da uva artificial.

No final do almoço, aquela forquilha de osso do peito ia para a chapa do fogão e quando ficava seca, eu a Ana Lúcia fazíamos a disputa puxando as pontas para ver quem ficava com o pedaço maior… Bicas self service.