Quase sempre quando ele passava naquela rua, a observava na janela com admiração. Ele solteirão, passando dos cinquenta; enfim, um dia tomou coragem. Sabendo que ela era desimpedida, foi em frente, comprou um buquê, com lindas flores e bateu em sua porta. Ela moradora antiga do Bairro Santana, o recebeu sem oferecer a sala.
Entre o portão e a entrada da casa, havia um pequeno jardim. E, ali conversaram… Com a melhor das intenções, ele disse-lhe que estava cansado de ficar só e se ela quisesse, poderiam tentar vencer a solidão juntos. Ela se ajeitou no parapeito da varanda, calma e educadamente respondeu: “Fico contente por você ter se interessado em falar comigo; porém, fico na janela apenas observando aquela linda paisagem lá em cima.”
E, com um amargor cáustico fulminou: “Não gosto de homens nem de dinheiro… Alguns se aproximaram e não tiveram as respostas que procuravam. Provavelmente, o amor se é que existe, entre as pessoas, ainda não comoveu meu coração. Vivo com o fruto do meu trabalho e adoro minha solidão. “Às vezes, me pinto para mim mesma… Talvez essa seja a minha única vaidade”. E terminou: “Peço desculpas por decepcioná-lo mas, é melhor usar de franqueza… Acho que assim minimizamos as dores. Nós não estamos mais na idade de ilusões. As iniciativas têm que ser fortuitas, quando se vai chegando ao ocaso ”…
Ele, com ar de decepção, colocou o buquê ao lado dela e disse: “Enfeite sua penteadeira com estas flores, provavelmente, você terá a sua imagem mais bela que a paisagem da sua janela.” Saiu, fechou o portão e foi pensando… “Sempre achei que o coração fosse o órgão sensível do nosso corpo, por onde passa a emoção. Hoje, encontrei um petrificado… Bicas amarga!