Crime e castigo

 Antes de surgirem os Beatles, era costume os homens cortarem os cabelos religiosamente todos os meses. Mal começavam as madeixas subirem às orelhas, pronto! Já era hora de ir ao barbeiro (naquela época não existiam cabeleireiros para o sexo masculino). Eu, que trabalhei dos dez aos treze anos na barbearia do meu pai, não tinha nem como dialogar, ele olhava e me mandava sentar na cadeira para o corte.

O que eu observava e achava engraçado, era quando um pai chegava quase puxando o filho para fazer o corte. Quando a criança finalmente se sentava na cadeira, ouvia a ordem: “Sr. João, máquina manual e príncipe Danilo”. Numa tradução livre queria dizer que o garoto fez alguma arte e chegou a hora de pagar.

Meu pai que tinha como lema: “o freguês tem sempre razão”, não titubeava, colocava o avental no pobre do menino, e começava a penitência. A máquina mais embotada que ele tinha, arrancava mais do que cortava os cabelos. Príncipe Danilo era um corte que deixava apenas um topetinho na frente. Nossa! Era para pagar os pecados mesmo. O danado do pai do garoto, ainda dizia: “se chorar, raspe tudo”. Quando terminava, o pobre do mancebo olhava para o Sr. João com lágrimas escorrendo pelo rosto, misturadas com cabelo e meleca, levantava da cadeira e saia correndo em disparada, mas antes, ouvia do meu pai que era para  melhorar o comportamento; assim, na próxima vez, poderia usar a máquina elétrica. Sr. Alípio, o outro barbeiro, dava aquela gargalhada sem medo de mostrar as gengivas… Bicas escalpelada!