Ir ao cinema nos finais de semana era um programa obrigatório para quem podia e gostava desse entretenimento. Os filmes, geralmente eram escolhidos a dedo para satisfazer ao maior público possível. Faroeste, guerra, comédia, suspense ou romântico. Essa fórmula era infalível, os filmes menos conhecidos, reprises ou as famosas “bombas”, ficavam para a exibição no meio da semana, que os estudantes adoravam quando matavam aulas…
Assim, nossa principal diversão criou hábitos e fregueses fiéis. Adão, por exemplo, não só era espectador assíduo, como também gostava de ser o primeiro da fila, chegando bem antes que começar a sessão. Era comum alguém ficar na fila para entrar, guardando o lugar, enquanto o acompanhante ia para a fila da pipoca lá no carrinho do Sr. Jair Cotta, que fazia das tripas o coração para dar conta da demanda.
Conta a lenda que Chico Retto pediu ao pipoqueiro para furar os saquinhos de pipocas, pois assim que as luzes se apagavam, começava um festival de estouros dentro do cinema… Eu como outros jovens da época, falsificávamos a data de nascimento nas carteirinhas estudantis para entrar nos filmes proibidos para menores. Havia até comissários na portaria para verificar os documentos. Muitas vezes Ari Marocco, o bilheteiro, nos avisava que era melhor esperar o filme começar para não sermos barrados, é bom lembrar que estávamos em plena ditadura.
Ao passar pela portaria, nós também tínhamos a opção de compra dos amendoins, doces e salgados embalados naqueles cartuchos práticos que eram uma gostosura. As três badaladas, a música, o apagar das luzes e a abertura da cortina, formavam um ambiente de expectativas, que na verdade era a preparação para entrarmos num mundo de ilusão expondo nossas emoções.
Quando o mocinho beijava a mocinha lá no filme, a cena se repetia em várias poltronas, muitas vezes com o clarão da tela era possível ver os ósculos dos casais pegos de surpresa… A magia do espetáculo formava uma atmosfera lúdica, que quando terminava a sessão, era comum ver lágrimas e sorrisos escancarados.
Dependendo do enredo, também, a não concordância com determinados desfechos dos filmes, principalmente quando o mocinho morria, o que era raro. nossa Bicas pôde se orgulhar por muitos anos ter um cinema que era um dos melhores da região, tanto na escolhas das fitas, como também na organização dos eventos. Lógico que havia os contratempos: filme que não chegava na hora, fitas muito usadas e outras encrencas que faziam parte da rotina, mas todos que viveram aquele momento jamais esquecerão o quão emocionante era assistir um filme no cine São José… Corta Gote!!!