Dançando com cinderela

O baile no Clube Biquense estava na maior pompa, como sempre. Garçons com gravatas-borboleta, champanhe naquele vasilhame de inox com bastante gelo e o piso do salão enceradíssimo.

Nossa turma também não estava de se jogar fora, mas confesso que a minha gravata me incomodava… Quando a orquestra tocou aquelas músicas pra gente dançar, agarradinho, falei pro Im: vou tirar aquela gata pra dançar.

Ele deu uma olhada e retrucou: vê se te enxerga! Não sabe que é muita areia pro seu caminhão? Não dei bola e fui para minha tarefa.

Convidei aquele monumento para deslisarmos naquele assoalho, testemunha de tantas travessuras românticas. Ela aceitou e fomos bailar… Eu não falei nada com medo dela ficar brava… Tentei dar uma encostadinha, mas ela educadamente se esquivou.

Dançamos umas duas músicas e paramos. A acompanhei até a sua mesa e despedi com uma ponta de orgulho… Quando voltei para a roda de amigos, tirei a maior onda. Cornélio queria saber o que eu falei pra ela. Eu disse que marcamos um encontro para breve. Eles estão esperando esse encontro até hoje… Bicas cascateando.

Apesar de você

Lá pelos idos dos anos 60, apareceu um juiz em Bicas, que era uma mistura de xerife com delegado. Um perfil certo para aquele momento; enfim, o rei da cocada preta. Dr. Amilar foi designado pelos militares, com carta branca para agir.

Havia uma zona de conflito no Espírito Santo e a Região Militar de Juiz de Fora estava de antena ligada… Enquanto isso, em Bicas, mais precisamente na sede do Sport, um general, que estava sendo homenageado, levou um soco na cara… 

Assim, Dr. Amilar caiu como uma luva para conter os ânimos. Uma de suas primeiras medidas foi criar o Comissariado de Menores, convocando os homens “de bem” para tal empreitada. Numa noite, nós os moleques, estávamos brincando de esconde-esconde na Praça dos Aposentados quando chegaram dois comissários no carro da polícia e nos levaram para a delegacia.

Enquanto nossos pais estavam sendo avisados, levamos a maior bronca, quando chegou o Goty, pai do Maninho, indagando qual o motivo de estarmos ali? O Juiz secamente respondeu que perturbávamos a ordem na praça.

Um outro pai, perplexo, indagou: brincar na praça é crime? O xerife quase o prendeu por desacato. Por fim, nos mandou para casa, com recomendações de ficar na rua somente até escurecer; caso contrário, se algum de nós aparecesse por lá novamente, ele mandaria para o reformatório de Sete Lagoas.

Minha mãe chorava de medo e de raiva. Quando chegamos em casa, quase apanhei. Aos poucos a vida foi voltando ao normal. Dr. Amilar começou a meter os pés pela mão e foi mexer com os graúdos… Com isso, se enfraqueceu e perdeu o apoio dos homens “de bem”… Logo, logo, foi transferido para outra comarca.  Bicas temerosa.

Escola democrática

Quando o Ginásio Estadual foi inaugurado, o objetivo era sanar uma demanda enorme de pessoas que não podiam cursar o ginásio, por não ter como pagar. Só o Francisco Peres oferecia o curso pago, e a criação do Estadual, que era gratuito, contemplou a grande massa que queria e não podia estudar.

Nos primeiros anos, a escola funcionava à noite, no prédio do Grupo Escolar Cel. Joaquim José de Souza, com todas as salas ocupadas e lotadas… A minha por exemplo era a 1ª E, portanto, havia mais quatro turmas da 1ª série… Foi um momento importante para a educação biquense.

No pacote, vieram professores jovens que estavam fazendo cursos superiores e nem aí para os anos de chumbo. Gogóia, Gracinha Roque e Dora Croce, por exemplo, vieram com métodos novos de ensino e eram como nós os alunos: amavam os Beatles e os Rolling Stones. Isso ajudava a arejar a jornada dupla da maioria dos estudantes.

Dona Lilian era durona, mas sabia fazer o meio de campo, se por um lado ela media as saias das estudantes (quatro dedos no máximo acima do joelho), por outro, estava sempre ajudando os mais problemáticos. Tivemos grandes temas discutidos por lá, em época de ditadura, e nem por isso a escola fechou ou foi acusada de doutrinadora.

Parabéns Ginásio Estadual pelo seu papel na formação dos jovens biquenses… Que outras demandas venham e seu corpo docente continue com a sabedoria que sempre honrou esta escola.

Não chega de saudade

Quando ia aproximando o fim do ano, era aquela expectativa envolvendo o Baile de Debutantes que, na minha época, bombava no BTC… Paletó e gravata arrumava emprestado, mas era formalidade só na portaria.

Quanto a calça e a camisa, minha querida irmã entrava em cena com sua incrível habilidade e fazia o figurino cantar, deixando o mano nos trinks. Brylcreem nos caracóis dos cabelos, Mistral nas axilas e um perfume no pescoço.

Ia eu me encontrar com os amigos para o grande baile, que sempre era marcado por uma grande orquestra e pompa no salão… Quando nós subíamos aquela enorme escada, dava pra notar que a noite ia ser uma criança.

Nossa turma sempre junta e com o mesmo objetivo: fisgar algum brotinho (quem não tinha). No bar ao lado da piscina, tomávamos alguns drinks para animar… Me lembro que estava dando um rolê no salão e a orquestra tocou “Can’t help falling in love”, do Elvis Presley. Corri, e com sorte, achei meu brotinho. Tirei-a para dançar e ficamos todo o baile no maior love… Bicas amando.

Ostracismo social

Na Grécia antiga, o cidadão que atentava contra o bem público era condenado ao ostracismo. Tinha seu emprego cassado e ficava por dez anos praticamente isolado do povo, sem poder se manifestar sobre vários temas e, principalmente, as questões políticas.

A origem da palavra vem do movimento da ostra, que quando se sente ameaçada se fecha numa autodefesa… Na linguagem atual, é comum quando uma pessoa famosa ou poderosa vai perdendo sua influência retorna, ao pó de onde veio.

No meio político, estamos sentindo o movimento forte da ostra se debatendo para não se fechar. Como esta ostra não tem pérola por dentro, não vai fazer falta nenhuma, mesmo depois de fechada e pagando pelos seus pecados…. Vai exalar toda a sua podridão.

Golpe de mestre

Geraldo estava na cidade vindo de Três Rios. Ele era o encarregado de levar as cartelas da Loteria Esportiva para serem registradas. Coisa comum naquela época. Por conta desse trabalho, ganhava uma boa grana…

Ele adorava jogar sinuca e só jogava valendo. Pinguim, o melhor taco de Bicas, armou uma arapuca para pegá-lo. Assim que Geraldo entrou no bar do Aduba, nós já estávamos jogando uma “vidinha” com Pinguim (tudo armado).

Geraldo se aboletou no balcão e pediu uma caçulinha, enquanto via o Pinguim nervoso errando bolas fáceis e perdendo as disputas sempre… Chateado Pinguim parou de jogar e foi até o balcão, pediu um cafezinho e tirou do bolso um monte de dinheiro, que o Geraldo cresceu os olhos…

Aduba aconselhou Pinguim a ir embora. Ele, solerte, disse que ia dar a volta por cima, mas queria jogar “partida” e só estava faltando parceiro.

Geraldo engoliu a isca e… foram para o pano verde… Encurtando a história: nosso taco de ouro pagou várias rodadas de bebida no Brazinha, rolando até Drurys, que estava na moda, para os simples mortais. Terminamos a noitada lá na Parte Alta com as meninas… Bicas nunca trocou as bolas!

Euzinha emocionada

Dia 7 de setembro, completei noventa e seis anos. Não precisa pensar que sou velha, pois para uma cidade, essa idade é juventude pura. Queria agradecer aos meus queridos filhos que fizeram aquela festa maravilhosa. Quase morri de tanta emoção.

As crianças, os jovens e os coroas deixaram-me em prantos… Teve uma cidade amiga que não entendeu a diferença de data entre eu e a Estação. Expliquei que a Estação é mais velha 44 anos, e que eu só me tornei cidade por conta do crescimento que ela proporcionou.

E também disse que, a homenagem aos ferroviários era por que, sem eles, eu certamente não existiria ou não seria tão garbosa assim…

Notei que minha vizinha fez um arzinho de inveja, mas deixa pra lá. Estou radiante e espero que no próximo níver, os ferroviários parem lá no seu principal reduto (Bar do Zé de Brito) e tomem uma Brahma sem mosquito. “Só pra descontrair, hehehe”… Eu agradecida.

Esperança perdida

Quase sempre quando ele passava naquela rua, a observava na janela com admiração. Ele solteirão, passando dos cinquenta; enfim, um dia tomou coragem. Sabendo que ela era desimpedida, foi em frente, comprou um buquê, com lindas flores e bateu em sua porta. Ela moradora antiga do Bairro Santana, o recebeu sem oferecer a sala.

Entre o portão e a entrada da casa, havia um pequeno jardim. E, ali conversaram… Com a melhor das intenções, ele disse-lhe que estava cansado de ficar só e se ela quisesse, poderiam tentar vencer a solidão juntos. Ela se ajeitou no parapeito da varanda, calma e educadamente respondeu: “Fico contente por você ter se interessado em falar comigo; porém, fico na janela apenas observando aquela linda paisagem lá em cima.”

E, com um amargor cáustico fulminou: “Não gosto de homens nem de dinheiro… Alguns se aproximaram e não tiveram as respostas que procuravam. Provavelmente, o amor se é que existe, entre as pessoas, ainda não comoveu meu coração. Vivo com o fruto do meu trabalho e adoro minha solidão. “Às vezes, me pinto para mim mesma… Talvez essa seja a minha única vaidade”. E terminou: “Peço desculpas por decepcioná-lo mas, é melhor usar de franqueza… Acho que assim minimizamos as dores. Nós não estamos mais na idade de ilusões. As iniciativas têm que ser fortuitas, quando se vai chegando ao ocaso ”…

Ele, com ar de decepção, colocou o buquê ao lado dela e disse: “Enfeite sua penteadeira com estas flores, provavelmente, você terá a sua imagem mais bela que a paisagem da sua janela.” Saiu, fechou o portão e foi pensando… “Sempre achei que o coração fosse o órgão sensível do nosso corpo, por onde passa a emoção. Hoje, encontrei um petrificado… Bicas amarga!

Zelinha no céu

No corredor do céu, São Pedro vem com uma lista na mão e diz: “Zélia Antunes Ferreira da Costa está presente?”… Aquela mulher, com a alma radiante de bondade , levantou-se e chegando perto do barbudo se apresentou como Zelinha.

São Pedro então tira uma casquinha: “Zelinha do Nelson Cristóvão?” Pronto, ela olhou para os lados e sapecou: “Zelinha do Nelson é o seu…” Aí se lembrou que estava na entrevista de entrada para o céu… Amenizou “nariz” e completou…

São Pedro coçou a barba e a chamou para fazer a tal entrevista. “Sua ficha veio da terra com ótimas recomendações, mas tem uns assuntos aqui que preciso checar.”

Zelinha colocou a mão fechada no queixo e ficou escutando… “A senhora assinou uma promissória para sua vizinha analfabeta, jogava no bicho sempre. Os evangélicos bateram na sua porta e a senhora disse que ali não era lugar de religião e rolava sexo, droga e rock and roll. Também mandou um padre para aquele lugar né?”

Zelinha, quase cochilando, fuzilou: “Mas não neguei Cristo por três vezes não! E o meu galo cantou por alegria e não para anunciar uma fraqueza.”

Pedro deu uma raspada na garganta e mandou Zelinha entrar, exaltando sua bondade na terra e a luta contra a dureza da vida… Bicas amada.

Além do arco-íris

Depois que ela andou pelas ruas, sem parada, abriu a porta do quarto e sentou-se na cadeira. Passou a mão pela testa, encontrando as rugas. Seus olhos amendoados, que outrora foram armas para suas conquistas, não chamavam mais a atenção.

Aqueles lábios, antigamente carnudos, não passavam de peças crispadas e pálidas… Pensando no passado, a mulher, lembrou-se dos homens que podia escolher e outros tantos a queriam. Os poucos que se aproximaram dela, não conseguiram jogar a ancora por conta do mar revolto que a cercava.

Gênio complicado e vaidade nas nuvens eram seu cardápio principal: ostentação sempre foi seu brinquedo predileto … Assim, passou o tempo para a linda mulher, que quando deu por si, já tinha a solidão como a única companhia.

Com sacrifício, ajeitou-se em sua cama de solteiro (nunca se deitou em uma de casal), olhou para o retrato na parede, numa moldura empoeirada, e se viu aos vinte anos, e pensou que, antes de atravessar o arco-íris, ia pegar o pote de ouro no seu pé e encontraria finalmente a felicidade junto com um daqueles homens que desprezou. Bicas em preto e branco.