Refrescando a memória

Quando me dei por gente, este prédio já pertencia à Cooperativa de Leite e as crianças que aparecem nela já eram bem adultas. Meu pai me contava que essa empresa que negociava café tinha um grande comércio na região e que só desapareceu, naquele momento em que Getúlio Vargas mandou destruir os cafezais Brasil afora…

Logo depois, o prédio foi incorporado pela Cooperativa e virou seu escritório e vendas de insumos para os fazendeiros. Assim, esse endereço continuou com um papel importante na economia biquense…

Também pudera! Ali nada mais é que a entrada principal da minha Rua do Brejo, a famosa Rua José Soares. Aquela que termina lá no quintal do Sr. Eurico, passando bem em frente à Cooperativa e também fazia divisa com aquele campinho das maiores peladas da terrinha.

Ah! Tinha também a ponte dos discursos do Zé d’Onofre perto da encruzilhada dos despachos de umbanda (cocadas, velas preta, farofa no alguidar, marafo e galinha preta). Cá pra nós, minha rua sempre foi top né?… Bicas e seus amores!

Show da “Wanderléa”

Fui para casa do Sr. Edgar Arezo aprender a fazer uma nova pipa que o Jari trouxe do Rio de Janeiro. Ele estava ensinando para quem quisesse. Armação de bambu invertida e duas curtas rabiolas. Confesso que não achei difícil e logo fui fazer a minha “Wanderléa” para cortar o céu da terrinha. Maninho me falou que era melhor colocar “cortante” (cerol), porque os outros iam dar em cima da novidade.

Peguei uns cacos de vidro e fui lá na linha do trem na hora que o Expresso ia passar e coloquei os cacos em cima do trilho. Assim que o comboio passou, com cuidado recolhi aquele pó fino que mais parecia talco. Passei no Globo das Louças e comprei um pedaço de cola de sapateiro.

Cheguei em casa… Enquanto a cola se derretia dentro de uma lata no fogo, estiquei no quintal uns trinta metros de linha nº 10 amarrados em dois pontos e preparei o “cortante”. Depois de pronto, emendei a linha com o “cortante” na outra que estava enrolada numa lata de Leite Glória e fui soltar a Wanderléa no céu da terrinha.

Logo apareceu uma pipa ali do bairro Santana que foi tosada sem o menor sacrifício. Ela desceu tremulando sem rumo e foi parar em cima do telhado do consultório do Dr. Ladeira.

Uma outra também teve o mesmo destino, caindo no campinho da nossa rua. A terceira eu cortei e aparei. A “Wanderléa” veio com o frete enroscado na linha naquele lindo céu azul. Quando eu terminei a operação, a molecada me cumprimentou e eu ganhei mais tarde uma graninha vendendo cópias da “Wandeca”… Bicas em céu de brigadeiro!

Um cidadão

Na minha infância, uma maneira de arranjar uns trocados, era juntar ferro velho para vender. Quando o volume do material estava com aquele aspecto que dava para ir ao cinema, era hora de levar para o Sr. Pedro Avelino.

Não me lembro se havia outro ferro velho na cidade. O dele ficava ali perto da Sede do Sport. Era distante da minha rua, mas eu sempre ia lá. Ficava maravilhado com aquela montanha de bagunçada… Tinha sucata por todos os lados e dependuradas também.

Volta e meia saia caminhões com destino à siderurgia. Ele perguntava a procedência do produto e nos tratava com muito carinho… Pesava o ferro velho e o pagamento era na hora…

Pedro Avelino passou por Bicas como um homem simples, de hábitos comedidos e com muitos amigos. Gostava de prosear com aquela fala mansa. Seus braços cruzados na hora de prestar atenção em quem estava falando, era sua marca. Não perdia a missa dominical. Não era fácil encontrar Sr. Pedro triste, mesmo quando a situação não estava boa, ele mantinha seu humor.

Homem de valores comuns e companheiro, respeitado e ouvido por todos aqueles que quisessem um bom conselho. Sua passagem foi discreta e ao mesmo tempo marcante…. Bicas agradecida.

Talento e paciência

Já na hora do almoço, meu irmão mais velho chegou à mesa, ainda com cara de sono. Minha mãe pespegou: “Pelo jeito a serenata de ontem rendeu… Você chegou com o dia clareando?” João Lúcio contou que foi a melhor que sua turma fez, pois teve o reforço do amigo José Roque. Minha mãe parou os afazeres, colocou os cotovelos sobre a mesa, pedindo mais detalhes…

Ontem, nos deixou José Roque, mais um grande artista biquense se foi. Com uma voz aveludada, foi barítono do principal elenco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. E olha que quando José chegou por lá, quem era o titular se chamava Paulo Fortes, um barítono respeitado no mundo inteiro, na música erudita.

José Roque, com paciência e técnica, logo foi chamando a atenção do mundo das óperas… Começou com pequenas participações, sempre elogiado pelos colegas, até que um dia substituiu um titular.

Foi quando nunca mais deixou de marcar presença nas grandes óperas daquele palco… João Lúcio contou que: ele, Rubinho, Joel e Renê tiveram a honra de receber na serenata daquela noite, José Roque, que com sua voz espetacular, cantou na janela da casa de Maria dos Anjos “A noite de meu Bem”.

Fez tanto sucesso que até os pais da moça saíram para cumprimentá-lo. Naquele tempo serenata era com “S” maiúsculo… Bicas retribuindo gratidão.

Fossa curada

Entrei no “Brazinha” pisando duro  e quase não cumprimentei a turma. Pedi para o Zé Augusto um gim-tônica duplo e fui lá pro fundo. Pexano colocou a mão na sua boca e disse: “Xiii!”. Me aboletei e minha dor ficou exposta sobre a mesa… Meu olhar sem brilho era a principal prova da minha tristeza e foi quando aí comecei a afogar as magoas naquele copo borbulhante gélido e transparente.

Zé Luís foi pra dentro do balcão, e na vitrola, colocou “Coração de Papel”. Meu coração explodindo, com a dúvida que os pedaços de mim ficaram de fato naquele brotinho que me chutou. Pensei e vi a felicidade escapando pelos dedos por mais uma burrice minha…

Já estava na segunda dose, quando  o Im se aproximou e perguntou se eu ia para a serenata. Respondi que poderia ir, mas na casa dela não faríamos aquela parada habitual.

O sacana concordou de araque! Passei meio cambaleante pela turma, paguei a conta e fomos… Conversa vai, conversa vem e eu meio tonto percebi que estávamos bem em frente à  casa do meu brotinho.

Quando ia dizer alguma coisa, a vitrola portátil começou a tocar “Run to me”. Meu coração começou a palpitar quando vi a luz do quarto dela acender e apagar várias vezes. Cornélio fez sinal de positivo e eu me curei rapidinho por conta da alegria… Bicas de coração aberto!

Por entre fumaças

Maria Fumaça deu na chegada seus últimos deslizes pelos trilhos, soltou aquela baforada que enfumaçou quase tudo. Lá na estação, um homem se levantou do banco e com uma flor na mão foi ao encontro de sua amada.

Antes dela pisar na plataforma, tomou um abraço tão forte que as cinzas do seu guarda-pó chapiscou a camisa branca do amado. Ele pegou a mala dela, e abraçadinhos, entraram pelo corredor central e saíram bem em frente e praça Dr. Bianco… pegaram o carro de aluguel e partiram…

No mesmo momento, João Marques retirava do vagão de cargas as encomendas do Correio. Dona Guiomar servia sem parar café com leite e quitutes para os que iam seguir viagem.

Eu, Bita e Paulo estávamos com uns cabos de vassouras com meias nas pontas amarradas em aros de arames que pareciam cesta de basquete. Fomos rapidamente para o vagão, cercado em forma de treliça, que transportava as galinhas.

Enfiamos os apetrechos e recolhemos vários ovos que elas botaram durante a viagem  e fomos vender para a Dona Guiomar… Pouco depois a Maria Fumaça deu outra baforada, apitou e saiu de mansinho, levando um comboio enorme e deixando saudade… Bicas cheirando passado!

Lembranças de uma lembrança

Outro dia estava na janela de minha casa olhando as montanhas das Gerais e me lembrei de uma visita que fiz aos meus pais em Bicas… Eu também estava na janela de casa observando o que restou do cafezal. Aquele que ficava por trás do barracão da Leopoldina. Logo, desviei a atenção para o burburinho do recreio dos alunos do Grupo Escolar Coronel Souza, pois minha casa ficava bem atrás.

Assim que o sino bateu, não resisti e fui até lá. Tentei esticar o pescoço para ver por cima do muro e não deu certo, mas olhei o portão lateral que ficava em frente à casa do Sr. Edson Pena e, como estava, aberto entrei. Do lado direito tinha um corredor que dava acesso às salas de aulas. Subi e fiquei observando as crianças… Perto do muro, uns garotos jogavam piões; ao fundo, do lado da horta, na divisa com o córrego, estava a turma da bolinha de gude, que corria solta…

No centro do pátio ficava a criançada do corre-corre. Debaixo daquelas imensas figueiras, as meninas pulando cordas e, na área coberta, um coral improvisado cantando: “Pirulito que bate-bate, pirulito que já bateu…” Meus olhos molharam levemente e o coral continuou: “Tra-lá-lá que gente é essa, trá-lá-lá que gente má…”

Uma funcionária se aproximou, eu me identifiquei e pedi para ir até à cantina… E fui atendido. Claro, não era mais a Dona Zenóbia, a merendeira chefe. Provei a merenda, que continuava com o mesmo sabor do meu tempo de criança…Bicas reminiscente.

Cine Theatro São José

Eu estava passando em frente ao cinema quando alguém me chamou: “Menino por favor me ajude!” Era o Dodi que estava trocando os cartazes dos filmes que ficavam pendurados nas paredes internas para fazer propaganda.

Entrei e segurei o quadro. Ele tirou o cartaz do filme “Sete homens e um Destino” e colocou “Candelabro Italiano”… Logo, depois, aproveitei que as cortinas estavam abertas, parei naquela mureta que separava os corredores, e olhei para aquela fábrica de ilusões sendo arrumada para mais um espetáculo.

Uma senhora estava limpando os assentos, e outra varrendo os corredores. A tela, lá, impávida, pronta para mais um caso de amor ou, quem sabe, muitos tiros… Mas, romântico como sempre fui, imaginei o filme “Candelabro Italiano” sendo exibido, todas as cadeiras ocupadas, Rossano Brazzi beijando Angie Dickinson com o fundo musical: Al Di La.

Casais apaixonados se apertando nas cadeiras com abraços quentes e aqueles coraçõezinhos subindo apaixonados na escuridão… Voltei à realidade com um barulho.

Era o Goty pegando aquelas latas de filmes que pesavam mais que chumbo. Na saída, Dodi me agradeceu com um sorriso e ainda dei uma olhadela para a cabine da bilheteria e pensei naquela fila enorme para o próximo final de semana…. Bicas cinematográfica.

Baile bom

Toda vez que o “Casino de Sevilha” estava na agenda de um baile, era sinal de casa cheia e muita pompa. Dessa vez, mais uma vez, o Clube Biquense se preparou para o acontecimento.

O assoalho de madeira estava brilhando, as mesas com aquelas toalhas rendadas e flores. Os garçons com camisas brancas, calças pretas e gravatas borboletas, terminando o traje; os sapatos engraxados com esmero…

A fila para passar na portaria e subir aquela escadaria, não acabava antes de o baile começar. Bem em frente ao último degrau, ficava o bar que era uma parada obrigatória para animar os bailarinos…

Os rapazes, com o tradicional “passeio completo”… As moças, nem se fala, vestidos longos, luvas e tal. Assim, quando os metais da orquestra entravam em ação, os casais deslizavam naquele piso liso e nós, os simples mortais, íamos tentar a sorte com os brotinhos desimpedidos… Bicas bailando!

Aquele leilão

Sempre acontecia na mesma época e nos mesmos dias. Quem teve o privilégio como eu de curtir o leilão da Parte Alta, vai ter uma doce lembrança daqueles encontros da vida biquense.

O serviço de alto-falante era o xodó dos adolescentes para mandar os recadinhos para  suas paqueras. A principal frase que o locutor pronunciava era: “Esta música é que alguém oferece para alguém e não diz o nome porque não convém…” Havia a coroação da rainha na igreja e a banda, com os seus dobrados, corria solta no cantinho ali perto da tenda.

Carrinho de pipocas, algodão doce, pirulitos e amendoins faziam o comércio paralelo. O leilão com as prendas era bastante concorrido pelos coroas, mas os adolescentes, como eu, queriam mesmo era paquerar. Tinha também víspora e todo aparato de uma festa religiosa. Aqueles leilões nunca saíram da cabeça dos frequentadores… Bicas e suas histórias.