Mossoró era o ó do borogodó

Irineu Garibaldi, Antônio Lamha, Sheila Salomão e Jorge Mossoró

Quando se aproximava a festa do Momo, o homem se transformava. Apesar de ser um comerciante alegre e tratar todos com respeito; no carnaval, ele pisava na jaca. Mossoró foi um dos maiores foliões que Bicas já teve… Organizava as etapas mais importantes do nosso carnaval.

A chegada do Rei Momo, as batalhas de confetes e principalmente a Sapolândia. Aí ele se esbaldava e não deixava a peteca cair. Comprava a pólvora para o fotógrafo “Medo Onça ” colocar para explodir na hora da tal foto, arrumava a bateria do microfone que o repórter da Rádio PR Capeta Mazzaropi ia entrevistar os incautos, dando-lhes um choque.

E, por fim, quem não se lembra do maestro de fraque e cueca de bolinhas disfarçado com nariz de palhaço e cartola na cabeça regendo aquela incrível “orquestra”. Gente! Mossoró foi tudo isso é muito mais… Bicas explodindo de alegria.

O mascate

Fazendo concorrência com os lojistas, aquele vendedor ambulante conquistou o coração e o bolso de muita gente, por Bicas inteira. Quando chegava na nossa rua, a atenção se voltava para ele e sua mala. Munir (acho que era esse seu nome), na verdade o famoso “Tá Barato”, parava na ponte, passava o lenço branco na testa tirando o suor, respirava fundo e gritava: “O comadre Tá Barato chegou!”

Com esse cartão de visitas, a mulherada aparecia nos portões de avental, bobes no cabelo ou de qualquer jeito, só para ver as novidades… Tá Barato calmamente colocava aquela mala enorme no chão, ajeitava no braço uma variedade de tecidos femininos, que era para atrair a mulherada e assim começava os trabalhos…

Gabardine tropical inglês, uma porção de novidades, retalhos que era cópia do vestido de Brigite Bardot, do filme tal e, por aí ia com seu lero-lero. Dizia ele para os amigos: “Se eu abrir a mala, nem que seja um alfinete tenho que vender”.

Tá Barato fez história numa época que a palavra valia mais que qualquer documento e se tornou uma pessoa de posses, graças ao seu trabalho duro e honesto… Geralmente, quando ele estava terminando de visitar nossa rua, algum moleque sempre fazia a mesma pergunta pra ele: “Você sabe porque turco tem o nariz grande?” Ele: “Moleque eu não sou turco, sou libanês”.

Mas nós respondíamos, em coro: “É porque o ar é de graça”. Ele dava um sorriso e ia para outra freguesia… Bicas para todos!

A tradutora de sonhos

O jogo do bicho foi durante um longo tempo uma forma de divertir e se associar. Ninguém ficou rico acertando no milhar, que era o maior prêmio. Depois o jogo perdeu o glamour e acabou na mão do crime organizado, e o povão aos poucos migrou para outros jogos.

Naquela época a febre passou para a loteria esportiva… No período da minha infância e juventude, na minha querida Rua do Brejo, tinha uma pessoa iluminada. Sua especialidade era interpretar sonhos e traduzi-los num palpite. Dona Doca tinha uma margem de acerto enorme. Sempre algum vizinho recorria a ela, contando seus sonhos, na intenção de fazer uma fezinha no bicho.

Doca dizia, com muita esperteza, que a química da tradução, só valia para os seus sonhos, mas não se negava a interpretar os sonhos alheios… Seu cambista preferido era o Mosquito. Ele a ajudava na tradução e a incentivava, pois aumentava as apostas.

Um dia, Maria Pé de Boi disse para Doca que havia sonhado com um beija-flor mamando numa cadela. As contas foram feitas e ela sapecou: borboleta e cachorro, mas pode ser vaca ou cabra.

As duas ficaram por ali fazendo as contas, com a ajuda de Mosquito, até que finalmente se acertaram. Fizeram vários passes e ternos, mas o que deu mesmo foi o terno: borboleta, cabra e cachorro. D. Doca e Maria receberam uma graninha legal e  deram, naturalmente, a porcentagem do Mosquito, além de comprarem pirulitos para a molecada. Essa é a Rua do Brejo. Bicas contraventora!

Passando por aqui

Hoje, dia 07 de janeiro de 2021,  José Luiz Bertelli nos deixou. Fomos contemporâneos de uma Bicas que não existe mais, onde o coleguismo e amizade faziam parte de todas as turmas que se formavam nos quatro cantos da terrinha.

Eu e ele fazíamos parte daquele grupo que sempre conto algo por aqui: o pessoal jovem lá do “Brazinha”… Tomávamos nossos drinques, contávamos lorotas, paquerávamos os mesmos brotinhos e, às vezes, repartíamos as roupas de sair para variar o nosso pobre guarda roupa.

Aquelas calças bocas de sino eram medidas para ver qual tinha a boca maior, e o sapato Cavalo de Aço então?… Nos bailes, apesar dos salões cheios, nunca nos perdíamos de vistas. Quando passava um brotinho dez, ele dizia: “Ô trenhão”.

Na Tia Rita também nossa turma ficava de antena ligada, por conta do ambiente… Hoje a covid o levou. Mesmo sem vê-lo, há anos, senti sua perda e me lembrei das nossas aventuras juvenis numa época que podíamos nos abraçar e encher a boca dizendo: “Esse é meu amigo”.

Todas as tormentas e distância que qualquer amizade passa, nunca é maior que sua representatividade. Esteja em paz Meu amigo Zé Luiz… Bicas fraterna.

O inovador

Existem situações que às vezes estão debaixo dos nossos narizes e não percebemos. Aqueles privilegiados que enxergam o futuro nos seus negócios, fatalmente tiram proveito e emergem como empreendedores.

Temos um monte de casos assim… Na terrinha, nos anos 60, foi inaugurada a Casa Petite, uma loja com todo o arrojo, que quebrou as regras na forma de atendimento, produtos, vitrines, iluminação e crédito.

Por conta disso, virou uma febre para os que queriam andar na moda e tirar onda. Me lembro que fiquei na fila de espera para comprar a minha primeira calça Lee. Foram dias de angústia até que, finalmente, pude vestir aquele sonho de consumo do momento…

Recentemente, Tanide, o dono daquela loja nos deixou, e deixou também sua loja, que desde 1967 faz parte do comércio biquense e ajudou-nos a andar na moda. Certamente, Tanide deve tá dando um jeito nas roupas dos anjos no espaço sideral. Seu faro empreendedor deve tá revolucionando o céu… Bicas na moda.

A leveza do ser

Há três anos tive o privilégio de tomar café na casa de um homem que ajudou muito na minha formação e de vários outros jovens biquenses. Por motivos que só a vida explica, nosso reencontro aconteceu quase meio século depois.

Sr. Vicente Rossi estava beirando os cem anos, mas sua cabeça continuava a mesma de sempre. Fiz aquela velha pergunta para ele: “Qual o segredo de sua longevidade?”

Ele rindo me mostrou uma garrafa de uísque bem no jeito perto da prateleira. Tomava sempre uma dose para lustrar a alma. Contou-me histórias de sua trajetória, dizendo que o verdadeiro segredo para se viver bem é fazer o bem. Tratar todos com igualdade, ter fé em Deus e se puder tomar um uisquinho de vez em quando.

Nessa madrugada, Vicente Rossi nos deixou, mas deixou a lição de que viver sempre vale a pena. Claro que estamos tristes, mas a alma desse homem comum deixará um rastro de bondade e valor à vida… Bicas enlutada.

A quilha e a onda

Não era hora marcada, coincidência ou não sempre que ele sentia saudade, se acomodava naquela cadeira posicionada estrategicamente entre as samambaias dependuradas na parede e o vaso de lírio branco que enfeitavam a varanda de sua casa ali na Barão de Catas Altas.

Aquele homem grisalho e com sinais da idade no rosto, mais uma vez puxou a mesinha para apoiar seu copo de bebida. Esse ritual já fazia parte do enredo que talvez tenha se tornado um dos poucos momentos importantes de seus sonhos.

Ela às vezes passava pela calçada só; outras, vinha abraçada com seu amor. Discreto entre as flores, assim que seus olhos a alcançava, o coração batia mais forte e ele remoía aquela paixão que um dia cortou o mar de sua solidão e, como o cheiro fugaz de um perfume barato, se foi.

A cadeira balançava seu corpo como se estivesse num barco ao mar. A volta aos dias vividos com ela, descia forte pela sua garganta, misturando a bebida com o gosto empoeirado da paixão.

Não importava mais capitular aquele caso, pois ele há anos fazia parte de uma história. O tempo foi cruel com ele, mas com ela não. Seu andar firme e olhos brilhantes, mostravam que a felicidade mudou de endereço, permanecendo viçosa.

A vida dela também cortou tormentas, mas parou numa praia plácida com areias brancas que descansavam nas rochas. Quando ela sumiu de sua vista, o uísque já havia fugido do copo, deixando apenas as pedras de gelo. A cadeira continuava balançando sozinha e ele com seu olhar fosco caminhou pelo corredor titubeando como uma onda.

Galinha pintadinha

Rolava na maior tranquilidade nossa peladinha rotineira no campinho na Rua do Brejo. De repente, Dona Ivone saiu da sua casa com uma galinha carijó debaixo do braço e um ovo na mão. Parou em frente a casa da vizinha e começou a xingar.

Sissi apareceu na janela e o bate boca engrossou e aumentou de volume… Dona Ivone furiosa, reclamou: “Sua galinha botou um ovo em cima da minha penteadeira que acabei de comprar, também chiscou arranhando o verniz e quase quebrou o espelho de tanto dar bicadas”.

E continuou: “Da próxima vez que a galinha aparecer por lá, vai direto para a panela”…

Sissi rebateu: “Minha galinha não tem nada com isso, você quer é fazer propaganda daquela coisa horrorosa que tá lá na sua casa, pois ninguém deu bola para aquele boco moco que você comprou”.

Dona Ivone espumando pespegou: “Boco moco é o seu marido que não serve pra nada”.

Sissi não deixou barato: “Uai! não sabia que você tinha testado ele. Aqui em casa ele funciona muito bem, mas é enjoado e não gosta de qualquer buraco” …

Nisso, a galinha carijó escapou. Dona Ivone possessa atirou o ovo em direção a Sissi explodindo na janela com aquela gema amarelinha escorrendo. Sissi se recolheu. Dona Ivone voltou para casa pisando duro, e nós reiniciamos a nossa pelada… Bicas barraqueira.

Na chuva, na rua, na terrinha…

Minha mãe me gritou para ajudá-la a recolher as roupas do varal, pois vinha vindo um temporal. Dito e feito! O tempo fechou e logo começou a relampejar. Mas como toda chuva de verão… passou logo. Eu já estava retirando e dobrando algumas folhas de um caderno velho e fazendo barquinhos de papéis.

Assim que a chuva abrandou, sai de fininho e fui lá na esquina da Dona Ciloca fazer “represa” junto com a molecada. A água da chuva descia a Necésio Silva pelos cantos, que era contida com o barro da própria rua. Nesse momento, nós já estávamos lambuzados da cabeça aos pés.

Rapidinho, eu, Veio, Nelsinho e Revalino construímos a barragem para brincar, que em pouco tempo se tornava um lago, enquanto ia chegando mais moleques. Em seguida, entrava em ação os barquinhos de papel que concorriam com algumas pequenas bacias de alumínio.

Todos navegando naquele lago. Outras crianças também iam construindo represas em outros pontos, fazendo da chuva um grande divertimento. Os coroas ficavam nas janelas morrendo de inveja e mães desesperadas com a sujeira de nossas roupas.

Quando a enxurrada acabava, e o volume d’água diminuía, era hora de desmanchar as represas e fazer a esperada guerra da lama. O barro era democrático e não se salvava ninguém… Alguns mais e outros menos.

Depois disso, era a hora de enfrentar a cara feia em casa. Dona Ana, dizia: “vai direto pro tanque”. Eu pegava o balde cheio de água e tirava o grosso, só depois entrava para o banho. Mesmo assim, ficava alguma marca atrás da orelha… Bicas era demais!

Era uma vez…

Olhando para a fotografia acima, voltei naquele sábado. Meu brotinho marcou de me esperar ao lado da gruta. Passei rápido pela padaria do Sr. Chiquinho, comprei chiclete de caixinha sabor hortelã e também um “Sonho de Valsa”. Fui depressa, pois eu estava em cima da hora…

Ela lá estava com um vestido estampado cobrindo aquele corpinho jovial cheio de belas curvas. Na cabeça, um “arquinho” segurando seus lindos cabelos louros. Olhei para os lados e não vi impedimento em lascar um beijo seguido de um abraço bem apertado.

Assim que pôde, ela rindo me disse que quebrei suas costelas… Demos umas voltinhas pela praça de mãos dadas e tudo. Sentamos no nosso banco favorito (aquele que ficava meio escondidinho perto do lago).

Ali passava menos gente e por isso era bom para namorar… Meu brotinho me deu chaveiro para reforçar minha coleção. Eu, em troca, dei um anel feito de couro que estava bombando naquela época.

Conversamos, beijamos e nos acariciamos. Quando olhamos para o relógio da igreja: quase dez da noite! Cheguei no portão de sua casa e como despedida, saboreamos o bombom num gostoso beijo… Bicas romântica!