Batalha de confetes

A maior festa do povo estava começando… O palanque armado perto da Estação dava a medida de sua grandiosidade. Autoridades e foliões dividiam o espaço privilegiado para não perder nada, e povo nas calçadas ajudava com sua descontração…

Assim que os tamborins iam esquentando, o alarido também aumentava até começar o desfile. A partir desse momento, o que se via era alegria e descontração entre todos os presentes.

O carnaval de Bicas era um dos melhores da região! Muita gente das cidades vizinhas apareciam para prestigiar nossa festa que era regada com descontração, organização e beleza…

Passavam os blocos primeiro, depois as escolas de samba vinham dando um show que magnetizava a plateia, principalmente, quando havia aquela famosa batalha de confetes e serpentinas.

Era uma maravilha olhar para cima e curtir aqueles rolinhos coloridos misturados com os confetes redondinhos caindo sobre os foliões. Essa abertura era apenas uma mostra da alegria que iria contagiar nos próximos quatro dias.

Talvez Bicas jamais terá outros carnavais como naquela época. Na nossa lembrança, jamais se apagarão aqueles momentos de uma festa realmente popular e com tanta alegria… Bicas, carnavalesca sempre.

Carnaval de ontem

Na abertura do carnaval daquela época, a figura do “Rei Momo” era imprescindível. Nossa Bicas tinha um ritual interessante para esse dia. A locomotiva ia com dois ou três vagões de ré até bem no fim da Reta. Lá começavam os preparativos. Se enfeitavam os vagões e a Maria Fumaça, além é claro, os foliões…

Na hora marcada, o mini comboio ia deslizando suavemente pelos trilhos começando a festa. No primeiro vagão, ficava os músicos. Entre eles, Sr. Olavo Fonseca, Milton Mazzoco, Didito e outros tantos, comandados pelo maestro Luiz de Deus, que não deixavam a peteca cair. O repertório, cheio de marchinhas que todo mundo cantava…

No outro compartimento, vinham os carnavalescos fantasiados, juntos com o “Rei Momo” Cento e Nove, que era o maioral, chamando para si todas as atenções. Quando a Maria Fumaça chegava ali atrás, perto do cinema, começava o foguetório. Beirando os trilhos, o povo ia fazendo a maior folia jogando confetes e serpentinas para engalanar e tornar ainda mais lúdica a festa do Momo, mostrando a pujança do nosso carnaval…

Na Estação, era aquele alvoroço, o Prefeito com a chave da cidade nas mãos, junto com fotógrafos e curiosos, passava o poder simbólico para o dono do Município nos próximos quatro dias. Cento e Nove, na plataforma com toda pompa, pegou o microfone e decretou o início oficial do carnaval. Comandada por Jorge Salomão, que trajava seu casaco do fraque e ceroulas de bolinhas, a Sapolândia deu a partida para mais um grande carnaval, para delírio da multidão… Bicas até quarta-feira.

Quiprocó na Geral

Todos os biquenses sabem que entre Leopoldina e Esporte a rivalidade chegava à beira do fanatismo, e os jogos principais eram aguardados com muita ansiedade, pois os dois times contratavam atletas de outras cidades para reforçar o elenco.

Dessa vez, não foi diferente… Estádio João Varanda lotado, e a preliminar era um aperitivo bastante concorrido também. Eu estava jogando pelo Leopoldina, aliás foi o ápice da minha carreira futebolística ser titular do aspirante…

Balanga fez a preleção antes do jogo e exaltou a figura do nosso treinador, que estava doente (José Serpa), pedindo a vitória para ele; por isso, entramos bastante motivados. A torcida visitante, no caso a do Leopoldina, ficava num monte de areia branca perto do bambuzal…

Edson Capa Gato, nosso zagueiro, tirando o perigo da área, mandou um bicudo na bola para o lado que o nariz estava virado e acertou em cheio o rosto da Zezé Cândido, torcedora fanática do Esporte, que já estava junto com outros torcedores armando um barraco no meio da nossa torcida…

Sr. Malaquias, nosso torcedor símbolo, quando viu a bola derrubando o arquinho da cabeça dela, deu aquela gargalhada que lhe era peculiar. Zezé não gostou e desferiu um golpe certeiro, quebrando a sombrinha na cabeça dele, começando aí um grande bafafá.

Empurrões, safanões, chutes e rabos de arraia, tomaram conta das torcidas. Subiu aquela poeira branca e todos desapareceram no meio da nuvem, deixando assim o nosso prélio em segundo plano.

Quando acabou a confusão, e o pó baixou, acharam sapato, chapéu e até uma dentadura. Sr. Dim Mota estava todo sujo segurando a Zezé, que estava uma fera gritando: “Aquele velho desgraçado da cabeça dura vai ter que pagar minha sombrinha…” Enquanto isso, apesar do frango do nosso goleiro, Sissi Batata, ganhamos o jogo por 2×1. Balanga liberou uma rodada de refrigerante no barzinho do campo e depois fomos para a galera esperar o jogo principal… Bicas boleira.

Ginásio Estadual

A escola começou a funcionar no prédio do Grupo Cel. Souza. Foi um acontecimento, pois até então quem quisesse fazer o ginasial tinha que ir para o Francisco Peres, que era pago. O Estadual já estreou com lotação máxima em todas as salas e, por outro lado, foi também um encontro de pessoas com idades diferentes que tiveram acesso ao ensino gratuito…

Por conta disso, rolava muito flerte na Pracinha dos Aposentados, bem em frente. Antes do sino tocar, era um festival de flechadas de olhares. Sem falar na turma que “matava” aula só para paquerar. Aquelas minissaias azuis eram de cortar os corações dos bobocas como eu…

A primeira série “E”, que eu estudava, era uma das mais bagunceiras do Ginásio, e nossa vítima predileta era a professora de educação artística. Tínhamos até gingle pra ela: Fessora, meu bem / Fessora /Você deve sorrir para ser bem melhor.

Quando ela entrou na sala, Tuin puxou a música, porém, desta vez, a fessora veio acompanhada pela diretora Dona Lillian. Aí, o bicho pegou! Dona Lillian foi direto na carteira do Tuin e pespegou: “o senhor não tem vergonha, sendo um dos mais velhos da classe, deveria dar o exemplo, mas fica se comportando como um moleque.” E continuou… “Se quiser cantar vai lá no Chacrinha! Pegue seus cadernos e saia. Você está suspenso por uma semana.” Maninho tomou as dores e bateu boca. Dona Lillian foi lá na carteira, enfiou o dedo no nariz dele e falou: “não sou polícia, mas não tenho medo de marginal. Se você quer brigar, podemos começar agora.”

Ele arregalou os olhos e ela mandou-lhe uma suspensão de quinze dias, com a seguinte dedicatória: “Se não quiser voltar mais, a escola agradece.” Eu, Veio e o Nelsinho fizemos cara de paisagem. Alceu Lopes quase enfiou a cabeça dentro da carteira… Dando uma geral, nossa diretora parou em frente a Regina Trenhão, mandou que ela se levantasse, e disse: Vá pra casa, coloque uma roupa descente, porque sua minissaia está menor que a da Wanderléa.

Na Saída, Dona Lillian abraçou a fessora e falou alto: “Se acontecer mais alguma gracinha, é só mandar lá pro meu gabinete. A sala ficou parecendo um cemitério… Bicas educando.

Divinas

Quando o bloco saia do HV descendo o “Tira Couro” a coisa fervia. Aquela anarquia organizada vinha chamando a atenção das pessoas que ficavam nas calçadas e janelas para ver a animação dos foliões…

O elenco era formado por marmanjos travestidos de mulheres sem o menor pudor: Jaime, Simplício, Getúlio e mais um monte de homens alegres formavam um bloco carnavalesco, que antes de chegar na Estação, carregavam uma multidão de curiosos, botando a alegria para fora…

Quem quisesse era só entrar. Didi Trocate vestido de melindrosa ocupava seu espaço. Índio, Zé Coleiro, Zoin Pelado e toda a turma do Flamenguinho, representavam a parte alta no nosso carnaval alegre e descontraído.

Assim fazíamos inveja às cidades vizinhas só com esse aperitivo…Bicas esquentando os tamborins.

Pelada Disputada

Miro dá um tranco ilegal em Valter Lobisomem, que foi parar dentro do córrego. Zé Maria quase vira do avesso de tanto rir. Fu Manchu tomou as dores do Valter e o pau quebrou. Era hora de tirar alguma diferença.

A turma do deixa disso entrou para acalmar a fervura.

Duca, nosso guardião, aproveitou e acabou com a pelada… Waltencir Farmacêutico, vizinho ao lado, deu graças a Deus, mesmo sabendo que, no dia seguinte, começaria tudo novamente.

Valter saiu do córrego parecendo um Lobisomem…

Bicas na pelada.

Na Banca do Padula

Peguei meu álbum de figurinhas coladas com grude para ir à banca de revistas e não me esqueci de levar as repetidas num saquinho separado para trocar. Era uma rotina que alegrava não só a mim, mas a quase todas as crianças e muitos adultos daquela época. Lá chegando avistei uns moleques jogando “Poupinha” na beira da calçada.

No outro lado da rua, no ponto de táxis, Alvino Novaes atento lia o “Jornal dos Sports” colorido (rosa). Ouvi quando o Balanga perguntou se o Amarildo ia jogar contra o Vasco… Encostado no poste em frente ao Tabuleiro da Baiana, Manoel Soares discutia política com o Zé Vieira. Bilucho ia indo pra sua casa com um jornal enrolado debaixo do braço. Certamente ele ia ler sentado na sua confortável cadeira na varanda de sua casa, longe do burburinho…

Entrei na banca e pedi dez pacotinhos de figurinhas. Quem me atendeu foi Ione, sempre sorridente. Na outra ponta do balcão, Vivinha falou pra todo mundo ouvir: Marta Rocha de novo na capa do Cruzeiro? Zé Padula muito sacana brincou: Você prefere ela ou a Zezé Macedo? Chico Marques deu uma risadinha matreira. Eneida atendia dona Margot, que queria algo sobre tricô, mas não sabia explicar direito.

Pareceu-me que era sobre um novo tipo de lã… Quando eu ia indo embora jogar com a molecada na calçada, Betinho pediu para que eu abrisse os pacotinhos para ver se saia alguma repetida para trocarmos… Foi minha sorte, pois tirei uma carimbada. Sargento Adão viu e me ofereceu dez pacotes em troca. Era a que faltava pra ele ganhar uma enceradeira. Negociamos e entreguei por trinta. Antes de descer o degrau, vi a figurinha sendo colada com goma arábica na página do álbum do Sargento e ele dando risada… Bicas premiada.

Dia de fúria

A nata da molecada estava brincando na esquina da Cooperativa. Uns jogavam pião, outros, bolinhas de gude, entre aquela movimentação enorme que era rotina todos os dias na Rua do Brejo. Sr. Alberto Moleque vinha com sua caixa de ferramentas no ombro, levou um safanão do Valdir do Cesário, que passou correndo e o jogou ao chão com tudo.

Valdir, nervoso, quando nos viu no seu caminho gritou: sai da frente molecada… Se a Chica me pegar, ela acaba comigo… Enquanto nós acudíamos e ajudávamos a recolher as ferramentas, Francisca, com um cabo de vassouras na mão, esbravejava: “Volta aqui seu vagabundo, que vou te dar um chá de coragem para arranjar um serviço.”

Paulo de Melo e Zédonfre, que eram maquinistas e estavam voltando de viagem, riram de cima da ponte, mais uma vez da mesma cena de sempre… Nesse momento, Revalino teve a infeliz ideia de soltar uma “cabeça de nego” no depósito de lenhas da Cooperativa. Sr. Eurico estava descarregando o leite de sua carroça, na plataforma, e sentiu quando o cavalo assustou com o estrondo…

Pulos, coices, relinchos marcaram o descontrole do animal. Natalino tentou segurar as rédeas e foi pro chão. Vanor gritou: “Saiam da frente que o bicho tá com o diabo no corpo.”

A carroça saiu de ré, bateu no caminhão do Manezinho, arrancou a cerca de arame e foi parar dentro do córrego. Sr. Ismael, com sua calma de sempre, tirou os tamancos dos pés, foi lá e acalmou o cavalo…

Nisso já rolava uma pelada no campinho. Foi quando Dona Guiomar passava com seu balaio cheio de quitutes para abastecer seu barzinho lá na Estação, e Bebete procurava mais um dos seus gatos, perdido ou talvez comido… Bicas fervendo.

Os três apitos

Durante todo o tempo que passei em Bicas, o que mais me chamava a atenção era a influência que a Leopoldina exercia sobre todos nós. Fosse como geradora de empregos ou pelo espaço físico que ela ocupava. Haja vista sua marca registrada: seus apitos que ecoavam por todos os cantos.

Seis e meia da manhã soava aquele que era o mais longo dos apitos matinais. Demorava propositadamente para acordar mesmo toda a cidade… Havia aquele corre-corre, pois sabíamos que quinze minutos depois viria outro mais breve, que queria dizer: tomou café?

Sempre encontrávamos pessoas correndo para o trabalho ou escola perguntando se o segundo apito já havia ocorrido. O terceiro e último da manhã, era mais longo que o do meio, ou seja,  intermediário, indicando que deveríamos estar a postos.

Nessa meia hora, os três apitos da parte da manhã faziam Bicas ficar elétrica e nos obrigavam a um enquadramento…No meio do dia, a história se repetia para o almoço, descanso e volta ao trabalho ou escola.

Mais tarde, às quatro e meia, o último dos apitos encerrando as atividades. Quase todos os estabelecimentos comerciais obedeciam essa marcação. A dependência da população era rotineira e automática, se por algum motivo os apitos da Leopoldina não funcionassem, nós ficávamos iguais a barata tonta…

Outra prova marcante da Rede Ferroviária nas nossas vidas, era a quantidade de comboios que passavam diariamente pela Estação; no mínimo uns cinco, fomentando um comércio de fazer inveja às cidades vizinhas.

A Leopoldina, que chegou a gerar quase mil empregos diretos, também nós deu duas ótimas escolas, uma renda per capta e padrão de vida de fazer inveja à região. Foi terrível para todos o fim das atividades dela sem deixar nenhuma opção no lugar. Isso causou um enorme êxodo e estagnação… Bicas sempre nos trilhos.

Cine Theatro São José

Ir ao cinema nos finais de semana era um programa obrigatório para quem podia e gostava desse entretenimento. Os filmes, geralmente eram escolhidos a dedo para satisfazer ao maior público possível. Faroeste, guerra, comédia, suspense ou romântico. Essa fórmula era infalível, os filmes menos conhecidos, reprises ou as famosas “bombas”, ficavam para a exibição no meio da semana, que os estudantes adoravam quando matavam aulas…

Assim, nossa principal diversão criou hábitos e fregueses fiéis. Adão, por exemplo, não só era espectador assíduo, como também gostava de ser o primeiro da fila, chegando bem antes que começar a sessão. Era comum alguém ficar na fila para entrar, guardando o lugar, enquanto o acompanhante ia para a fila da pipoca lá no carrinho do Sr. Jair Cotta, que fazia das tripas o coração para dar conta da demanda.

Conta a lenda que Chico Retto pediu ao pipoqueiro para furar os saquinhos de pipocas, pois assim que as luzes se apagavam, começava um festival de estouros dentro do cinema… Eu como outros jovens da época, falsificávamos a data de nascimento nas carteirinhas estudantis para entrar nos filmes proibidos para menores. Havia até comissários na portaria para verificar os documentos. Muitas vezes Ari Marocco, o bilheteiro, nos avisava que era melhor esperar o filme começar para não sermos barrados, é bom lembrar que estávamos em plena ditadura.

Ao passar pela portaria, nós também tínhamos a opção de compra dos amendoins, doces e salgados embalados naqueles cartuchos práticos que eram uma gostosura. As três badaladas, a música, o apagar das luzes e a abertura da cortina, formavam um ambiente de expectativas, que na verdade era a preparação para entrarmos num mundo de ilusão expondo nossas emoções.

Quando o mocinho beijava a mocinha lá no filme, a cena se repetia em várias poltronas, muitas vezes com o clarão da tela era possível ver os ósculos dos casais pegos de surpresa… A magia do espetáculo formava uma atmosfera lúdica, que quando terminava a sessão, era comum ver lágrimas e sorrisos escancarados.

Dependendo do enredo, também, a não concordância com determinados desfechos dos filmes, principalmente quando o mocinho morria, o que era raro. nossa Bicas pôde se orgulhar por muitos anos ter um cinema que era um dos melhores da região, tanto na escolhas das fitas, como também na organização dos eventos. Lógico que havia os contratempos: filme que não chegava na hora, fitas muito usadas e outras encrencas que faziam parte da rotina, mas todos que viveram aquele momento jamais esquecerão o quão emocionante era assistir um filme no cine São José… Corta Gote!!!