O conjunto da obra

No nosso tempo, banda era aquela que tocava nos coretos ou procissão. Quem animava os bailes, tinha outro nome: conjunto. Nós, biquenses, tivemos o privilégio de, no começo dos anos 70, ter um conjunto que era a coqueluche do momento; sem dúvidas, era o que se tinha de melhor na região.

No começo, com seu nome original CBVJW5, a coisa andou perigando, porém, mais tarde, com a mesma formação e reduzindo o nome quilométrico e quase impronunciável para CBV, o sucesso foi imediato e a turma botou pra quebrar. Com isso, a nossa juventude dançou adoidado…

O CBV introduziu um repertório moderno e eclético. Carlos, Betinho, Vitinho, Lace, Chuveirinho e Willian nos proporcionaram bailes fantásticos. Quem não se lembra de alguma música que eles cantavam? Minha favorita era: “Wild Word”, do Cat Stevens…

Quando a luz negra acendia e começava a seleção de músicas lentas, era o ápice do baile. Para nós que íamos paquerar, havia aquela fase preparatória… O salão parecia o Big Brother: todos com olhares afiados.

Os brotinhos davam sinais… Os rapazes decifravam e armavam o bote. Rostinho colado, sussurros no ouvido… Ah, era bom demais… O CBV foi o responsável por alegrar nossas vidas, ajudando também a transformar namoros em casamentos, que começaram ali naqueles bailes espetaculares. Tivemos a sorte de participar de momentos felizes com a performance do nosso querido conjunto… Bicas bailando.

Apagando o passado

Minha mãe estava podando as roseiras do nosso jardim, e eu sentado na mureta olhando a movimentação dos carpinteiros trabalhando do outro lado do córrego. Dona Cota, nossa vizinha, vinha com sua costumeira elegância (inclusive, com uma sombrinha colorida que estava na crista da onda).

Parou e comentou com indignação a demolição do hospital: “Ana, você está presenciando de camarote a derrubada de uma das mais belas construções que Bicas tem”. Minha mãe não deixou por menos: “Dona Cota, meus filhos nasceram em casa, mas eu tenho dois netos que nasceram no Hospital… Foram as únicas vezes que lá entrei. Sempre achei os balaústres ingleses e os corredores do palacete do Barão coisa de cinema, também, sua imponência externa sempre deu um ar aristocrático à Praça dos Aposentados e ao Grupo.”

Dona Cota apontou o dedo em direção à demolição e com os olhos umedecidos observou: “Outro dia fizeram a mesma coisa com a casa do Coronel Joaquim José… Deveria haver uma lei que proibisse esse descalabro. A família do Barão de Catas Altas, talvez nem saiba desse malefício contra o nosso patrimônio… Uma cidade que não preserva sua cultura não tem alma. Certamente vão construir lá algo que ninguém vai notar.”

E eu ali, impávido, vendo o gurpião cortar uma enorme peça de madeira, sobra do caramanchão, que ficava na parte interna do hospital. Dona Cota se foi e, na desatenção de minha mãe, um espinho espetou-lhe o dedo… Bicas se desmanchando.

Caminho da roça

Não era uma rotina, mas sempre ficávamos ali perto da casa do Sr. Cesário esperando. Quando o carro de boi virava a esquina da Dona Diola, nosso humor melhorava muito. Tião da Modestina vinha com o ferrão na mão para controlar os bois, geralmente quatro em fila de dois.

Não sei se era proposital ou se por causa do peso, mas o danado vinha cantando o cocão, que se ouvia ao longe… Talvez fosse um lamento ou chiado, não importa; aquilo era uma beleza para nós moleques…

A mesa principal era feita de sucupira, madeira dura e resistente, cercada em volta por uma esteira de taquara, que quase encostava nas enormes rodas de madeira. Os bois, mansos e adestrados em suas cangas, davam pouco trabalho para o carreiro.

Os latões de leite quase não davam espaços para a gente pegar uma carona até à cooperativa, mesmo assim, Tião nos mandava fazer um revezamento, pois não cabiam todos de uma vez.

Quando chegávamos ao destino, ajudávamos a descarregar o leite e dávamos água aos bois. Na volta, tinha sempre um moleque que até guiava os bois por uma curta distância. Assim ia se passando a infância na minha rua… Bicas rural.

No escurinho do cinema

Eu estava paquerando um brotinho que era um docinho de coco. Ela tinha um corpinho escultural, uma cinturinha de vespa e um olhar que me deixava mais bobo ainda. Marcamos nosso encontro na sessão de domingo, mas só depois que as luzes se apagassem…

Me arrumei como um príncipe: calça boca sino verde de tergal e uma camisa estampada que estava na crista da onda. Até perfume eu coloquei… Chegada a hora, dei uma olhada na fila e a vi muito linda. Ela me fez um sinal discreto.

Quando a portaria foi liberada, o broto entrou e sentou-se no lugar combinado e, ao seu lado, uma amiga. Quando ficou tudo escuro, aproximei-me e sua amiga cedeu o seu lugar para mim.

Logo peguei na mão e fui me “aprochegando”, sem resistência nenhuma. Sabe, naquela hora que ficou bem escuro, nós trocamos até um beijo gostoso. Não me lembro que filme estava passando.

Tive que sair antes de terminar a sessão para ninguém saber do nossa romance… Era apenas uma formalidade, pois todo mundo sabia que eu fazia com o broto essa gostosura de beijos roubados no escurinho do cinema. Bicas… Me engana que eu gosto.

A dama do cabaré

Quando comecei a frequentar a zona, lá pelos idos dos anos 60, deparei-me com a figura lendária da Tia Rita. Ela não prestava mais os serviços de outrora, por causa da idade avançada, mas sua casa, ainda era um cabaré…

Com o andar alquebrado, raramente aparecia em público. Sentava numa mesa e ficava jogando baralho e prestando atenção no ambiente. Suas “meninas” faziam tudo como ela gostava. Apesar de poucos, porém ainda apareciam pais levando os filhos para a iniciação sexual (muitos dos quais queriam que suas filhas casassem virgens).

Tia Rita tratava todos do mesmo modo, mas adorava conversar com os jovens, e nós de ouvi-la “Meninos cuidado com as doenças e a violência por aqui.” E mais: “Se eu contar a quantidade de homens que se deitaram comigo, dá uma fila indiana daqui a Juiz de Fora, ida e volta”, falava ela com prazer…

A polícia não entrava em sua casa, por respeito e medo talvez, pois todos tinham seus pecados guardados por ela. Assim, quando havia batida por lá, nós que éramos “de menor” entrávamos no seu quarto, com sua permissão, e aguardávamos acalmar o ambiente…

Naquela época, quando as mulheres estavam queimando sutiãs em luta pelos seus direitos, nossa dama já era uma mulher livre. Notava-se, no seu rosto e nos seus cabelos brancos, traços de beleza e sofrimento, e também a certeza de sua independência.

Tenho para mim que Tia Rita foi mestra para várias gerações de biquenses… Tanto na prática, como na teoria. Sua vivência foi norte importante para um tema hermético, como o sexo, naquele tempo… Bicas sem hipocrisia.

Malhação

A molecada ficava em polvorosa quando chegava o sábado de aleluia. Era bonito ver a participação da criançada. Cada um arranjava uma maneira de ajudar na confecção do Judas… Uns iam pegar capim para encher a camisa e calça, dando forma ao corpo. Uma bola de borracha pintada com boca, nariz e olhos caracterizava a cabeça, que também tinha um chapéu de palha preso em cima.

Tudo isso encaixado no colarinho da camisa xadrez. Um par de sapatos velhos amarrado na boca da calça completava o manequim. Alguns moleques compravam as bombinhas no Sr. Listote e preparavam o material bélico que ia dentro do Judas, que nesse momento já existia fisicamente…

Assim, à tarde, o danado do traidor já estava pendurado naquele poste feito de trilhos de trem, que ficava bem na esquina da rua do Brejo… Chegada a hora, nós, juntos com alguns coroas, todos armados com varas, batíamos sem dó no malvado traidor.

Quando ele finalmente caia, saíamos puxando aquele traste pelas ruas empoeiras até colocar fogo em seu corpo… Aí vinha o melhor da festa: eram bombinhas estourando juntas com umas cabeças de nego, até chegar a hora do busca-pé.

Aquele trem saia como um raio atrás de nós soltando faísca pra todo lado… Tinha moleque que até pulava dentro do córrego para se livrar das faíscas brilhantes. Enfim, o Judas virava pó, e nós, suados de tanto divertimento, fechávamos mais uma Semana Santa… Bicas empírica.

O afano dos galináceos

Na divisa do campinho da rua do brejo ficava o quintal de dona Aracy, que volta e meia brigava conosco por causa da invasão para pegar a bola que lá caia. Vez por outra, ela até furava nossa pelota…

Ficamos sabendo que seu irmão Itibêre Gouveia do Amaral, lhe deu de presentes algumas galinhas exóticas e que ela tinha o maior xodó com os galináceos. Por este motivo nos aguçou aquela vingança reprimida. Preparamos cuidadosamente uma visita ao galinheiro das beldades penosas.

Neném Brasinha nos disse que seu fogão a lenha estava à disposição, desde que o produto chegasse em sua casa já depenado; portanto, sem a prova do crime. Já com longa experiência no ramo, nosso pelotão de frente entrou em ação…

Já noitinha, subimos pela mangueira que ficava no fundo do quintal do Waltencir e, num silêncio sepulcral (parecia que estávamos levitando), tivemos acesso ao galinheiro. Duca, Miro e Fumanchú, os especialistas, jogavam para fora, já abatidas, as aves e, nós do baixo clero, as recolhíamos dentro de um saco de estopa.

Recolhemos um bom número para o jantar… Mais tarde, durante a ceia, Gá reclamou que ao limpar os pés de uma delas tinham penas e uma outra galinha tinha uma crista enorme. Havia também um frango bem peitudo. Rolou cachaça para os adultos e Ki-suco para a molecada, além do arroz com angu…

Dias depois, nós estávamos no campinho, quando chegaram o sargento Mário e os soldados Isaías e Severino. Sgt. Mário entrou de sola: “Como vocês tiveram a coragem de roubar as galinhas de raça da irmã do general? A mulher tá uma fera. Ela quer de volta aquela dos pés empenados, a francesa dos ovos azuis e galo chinês.

Enquanto isso, os soldados procuram na beira do córrego as provas do crime e nada encontraram. Nós, como sempre, fizemos aquela cara de paisagem… Não sabíamos de nada. Depois de várias ameaças, eles foram embora. Landinho deu uma risada e sentenciou: “Bem feito por ela ter furado minha bola…” Bicas dando o troco.

Salão São Jorge

Durante mais de quarenta anos, uma placa com um “São Jorge” pintado atravessou Bicas em vários endereços. Eu comecei a acompanhá-la, como engraxate, quando seu endereço era frente aos correios na Barão de Catas Altas.

A barbearia do João Barbeiro registrou uma parte importante da história biquense. Eram três barbeiros fixos, e uma outra cadeira que ficava sempre à disposição de um aprendiz e, claro, a banca de engraxate, por onde passaram eu e os meus irmãos, entre outros moleques…

A freguesia era eclética e numerosa. Modéstia à parte, meu pai formava sempre uma equipe com ótimos profissionais. Não havia assunto importante que não passasse por lá: morte do deputado Oliveira Souza, golpe militar, greve dos ferroviários entre outros tantos do dia a dia.

 Meu pai sempre discreto, ouvia mais do que falava, apesar de ser bom de papo, assim como os outros barbeiros. Esse talvez tenha sido o motivo de que lá na barbearia a conversa rolava solta. Se o assunto apertasse ou era proibido para menores, meu pai tinha uma saída, que era me pedir para ir lá no Armazém do Orlando de Freitas trocar algum dinheiro.

Isso era o suficiente para a conversa dos mais velhos chegar ao fim sem o ouvido curioso do moleque engraxate. Costumeiramente, os adultos faziam a barba todos os dias, e cortavam o cabelo uma vez por mês.

Quando surgiram os Beatles, com seus cabelos compridos, lembro-me que o outro barbeiro, Sr. Alípio, comentou que a freguesia talvez diminuísse. Meu pai achou que não e disse: “Até chegar por aqui, vai demorar; além do mais, você acha que os coroas vão aderir a essa moda?” Bicas comunicando…

A nossa benzedeira

Cheguei em casa, minha mãe me olhou e não teve dúvidas no diagnóstico: você está com olhos apagados. Isso é quebranto… Vai lá na esquina e peça para Dona Ciloca te benzer… Ciloca, na verdade, era Cecília de nascimento. Lembro-me dela como uma senhora de cabelos brancos e sempre de avental.

Ela parava seus afazeres para nos atender com o maior prazer, desde que não atrapalhasse muito sua rotina, pois tinha uma clientela enorme… Foi ao quintal, pegou um galho de arruda, preparou três brasas pequenas e deixou na boca do fogão. Me sentei. Ela pacienciosa, me ajeitou, passou a mão pelas minhas costas e se concentrou.

Trouxe um copo com água, firmou o meu ombro e me disse para repetir as palavras chaves da benzedura. Enquanto as três brasas não boiassem, teríamos de continuar… Colocou a primeira no copo, que foi pro fundo direto…

“Cavaco rendido tire o mal desse menino”. Em seguida, passou a arruda molhada com a água do copo em minha cabeça e disse “Xô mal olhado… Vai impregnar no inferno”… Colocou a segunda brasa, que boiou. A terceira também foi pro fundo. Continuou o ritual acrescentando outras palavras e aprofundando a benzedura até todas as brasas subirem, o que logo aconteceu.

Levantei-me e agradeci. Ela com, seu sorriso amável, acompanhou-me até à porta. Acho que todos os moradores da rua do brejo e da vizinhança foram benzidos por dona Ciloca, uma grande alma… Bicas na receita doméstica.

O realismo fantástico

Já dizia o compositor baiano que atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu. No carnaval biquense, só não viu a Sapolândia, quem estava no cemitério. Por ser completamente anárquica e debochada, não se sabe até hoje com certeza sua origem. Sabemos que Jorge Mossoró partiu de uma brincadeira com os amigos e montou o que seria a maior e mais representativa atração do carnaval biquense…

A Sapolândia tinha por princípio a irreverência carnavalesca, que sempre norteou a festa de Momo. Foi um… talvez bloco! Ou seria um bando de palhaços? Não importa. Assim como sua origem, o que sempre valeu foi sua presença marcante nos dias de folias…

Personagens nascidos da imaginação popular faziam o povo da terrinha escancarar belas gargalhadas durante o seu desfile. Além de Jorge Mossoró, que era o maestro regendo os loucos, com uma batuta improvisada, nariz de plástico, paletó de fraque e bermuda de bolinhas, tinha o Patesco , com suas patuscadas, roubando a cena com seus rebolados na boquinha da garrafa, e, vez por outra, pegava um folião distraído e gritava no seu ouvido “Oh Munha!!!”.

Sá Onça encarnava o fotógrafo “Medonça” com seu tripé tirando fotos explosivas, onde a mistura de pólvora com anilina sujava todos que estavam por perto, inclusive o fotografado. Mazzaropi era o repórter da PRCAPETA, rádio fictícia. Ele usava um microfone que dava para a pessoa segurar sugerindo uma entrevista, e antes da pessoa falar, apertava um botão dando choque.

O coitado assustado jogava o microfone longe. E tome gargalhadas… Os instrumentos da Sapolândia eram tubos plásticos com penicos nas pontas, violões sem cordas, latas velhas, buzinas e demais aparelhos acústicos, que não podem faltar em nenhuma orquestra de tantãs.

A música era um ruído anárquico sem variação, mas o que contava mesmo eram as coreografias daqueles homens travestidos de malucos, que passavam pelas rua deixando um estupor que jamais saiu da lembrança povo da terrinha, que teve a honra de participar ou assistir o que se tinha de mais genuíno no nosso carnaval… Bicas vertendo alegria.