Mordendo a língua

Sabemos que a nossa língua pátria é uma das mais belas e difíceis do mundo. Por conta disso, quem nunca sofreu numa prova de português? Eu tive a sorte de ser aluno do Padre João, no Ginásio Estadual.

Ele era um conhecedor da língua, disciplinador e tinha um ótimo domínio de classe, além é claro de gostar do que fazia. Para quebrar a monotonia, ele sempre aparecia com uma surpresa. Nosso professor tinha um método para nos ajudar nas notas, dando pontos por participação. Na verdade, ele dava uma mãozinha sempre antes das provas.

Um desses exercícios consistia em uma leitura oral com tarefas interpretativas: mandava o aluno ler um texto e conjugar o verbo que lá estava. No meu caso, li um parágrafo e conjuguei no pretérito perfeito. Me sai o suficiente para beliscar um pontinho para a prova. Maria do Carmo tirou de letra, num texto bem mais difícil que o meu.

Nosso mestre chegava na carteira do aluno, abria o livro numa página aleatória e olhava nos olhos dele dizendo: “Leia aqui”. Tinha gente que amarelava e outros nem tanto

Quando chegou a vez do Cridão, padre João fez o mesmo ritual e uma observação: “Euclides preste atenção no acento”. O texto tinha o verbo “amássemos”. Não sei se Cridão pensou no assento da cadeira… Só sei que ele sapecou: “Jesus disse  que “amassemos” uns aos outros”. Padre João fez cara de poucos amigos, enquanto a sala se perdeu em gargalhadas… Bicas soletrando.

Leilão na parte alta

Quando eu cheguei ao leilão, já havia terminado a celebração na igreja. Assim, Zé Pafo, o leiloeiro, estava com uma prenda na mão: era um bolo. Sua embalagem, aparentemente, estava tão apetitosa quanto seu conteúdo. Ele falou alto o valor mínimo do lance inicial… Luís de Deus comandava a banda com seus dobrados. Fui depressa até ao serviço de alto-falante, que ficava numa janelinha ao lado da igreja, e ofereci uma música para a minha paquera.

Custava baratinho e tinha até fila. A música oferecida foi: “Sentado à beira do caminho”… Daí  a pouco, me preparei para passar perto dela, bem no momento em que o locutor, com aquela voz macia. anunciou: “Esta música, alguém de japona listrada, oferece para o brotinho de blusa xadrez, que está ao lado do carrinho de pipocas”.

Deu tudo certinho: passei e o brotinho me retribuiu com um sorriso largo. Foi a senha para começarmos o papo… Queria ficar sozinho com ela, mas sua irmã, segurando “vela”, não dava trégua. Mais tarde, com muito jeito, levei-a em sua casa, que ficava por ali perto. Foi quando sua irmã se adiantou e aí, eu me dei bem. Peguei na sua mão e saiu até um beijinho. Não cheguei até o alpendre, pois seu pai era bravo, mas foi uma noite e tanto.

Cheguei em casa alegre e fiquei mais ainda, quando vi o colarinho da minha camisa manchado de batom… Bicas prendada.

Desarranjo conjugal

Francisca estava terminando de passar uma pilha enorme de roupas, quando olhou para a sala e viu seu marido só de ceroulas lendo um livro. Chegou pertinho dele e disse: “Vê se arranja um servicinho para ajudar nas despesas da casa. Valdir, com um olhar contemplativo respondeu: “Mulher, muita grana é bobagem, dinheiro não traz felicidade. Estou preocupado com a Dulcinéia aqui do livro: pra mim, ela nunca amou Dom Quixote. O que você acha?”, perguntou ele para Francisca. Ela já cansada do lero do marido teve uma inspiração raivosa:  pegou o cabo do escovão, e num movimento certeiro, acertou-lhe o traseiro.

Valdir tomou um susto e saiu correndo ajeitando as calças, mas antes de chegar na rua, levou outra traulitada na cacunda perto do cangote. Os dois passaram correndo por nós que estávamos brincando em frente à casa da dona Ciloca e foram em direção à rua do Ginásio.

Perto da casa do sr. Martins, Francisca parou com o porrete na mão e vociferou: “Volte aqui seu vagabundo que eu vou te mostrar como a tal ‘Doroteia’ amava o Dom sei lá das quantas.”

Valdir, como uma flecha, chegou à casa dos seus pais, que ficava na esquina. Com os olhos arregalados foi dizendo: “Pai me ajuda que a Chica tá querendo me matar”. Sr. Cesário, já acostumado, sorriu e minimizou: “Vai lá, que sua mãe faz uma água com açúcar pra você”. Dona Leonilda, ocupada com seus afazeres domésticos, balançou a cabeça e sussurrou: “Esse menino não toma jeito mesmo”. Valdir foi aninhar no quarto de sua mãe… Bicas furiosa.

Com o rabo ardendo

Já estava na hora de ir dar umas voltas, quando escutei aquele assobio característico do Maninho. Olhei pela janela de casa e lá estava ele me esperando com sua atiradeira no pescoço e um embornal cheio de munição. Era a dica para irmos caçar passarinhos. Peguei meus apetrechos e fomos. Chegando no campinho da dona Graciema, na beira do córrego, havíamos gastado quase toda a munição e nada.

Foi quando olhamos para dentro do quintal do sr. Neném e vimos o pé de eugênia carregadinho… Não pensamos duas vezes: entramos cuidadosamente por um buraco que havia na cerca e escondemos atrás das bananeiras para sondar o ambiente. Silenciosamente, subimos na árvore e começamos a colher aquelas gostosuras de casca cor de vinho e polpa branca.

Enchemos nossos embornais, quando, de repente, levei um chuchada na bunda com um bambu e escutei um grito de satisfação: “Peguei vocês seus ladrõezinhos!” Era o dono do quintal.

Nisso, Maninho também recebeu uma bambuzada na perna. Eu com medo disse: “Sr. Neném se o senhor deixar a gente ir embora, prometemos que não entraremos mais aqui”. Ele bravo, replicou: “Conversa fiada… Todos os dias vocês estão aqui enchendo o saco”. Subi lá nas grimpas. Maninho, muito esperto, segurou a ponta do bambu, e eu desci em disparada.

Quando estava perto da cerca, levei uma varada nas costas e fui parar dentro do córrego. Maninho escapou pelo quintal do vizinho e nos encontramos no campinho. Ele estava com a perna sangrando e perdeu a atiradeira. Eu tirei do embornal umas frutas e fomos comendo. Cheguei em casa, fui tomar um banho e tirar as ferpas da bunda… Bicas sacana.

Quebra de acordo

Quando tudo ia calmo na terrinha, surgiu a notícia pelas ruas que as apostas do jogo do bicho estavam suspensas. Se sabia que algo em breve ia acontecer. Não se via nenhum cambista nas esquinas, e os apostadores passavam momentos de angustia.

De repente, apareceu um aparato policial com vários camburões, armamentos pesados e tal. Laerte e Mosquito foram em cana, juntos com outros cambistas. Dulin, nesse dia estava pescando no Araci, e escapou de fazer companhia aos demais. Um famoso banqueiro do jogo, à época, também, foi devidamente enquadrado e todos foram diretos para a cadeia em Guarará.

Teve gente que sumiu do mapa por uns tempos. Nas ruas, o assunto fervilhava: pessoas apostando por quanto tempo a turma ia ficar encarcerada; outros, dando graças pelo fim da jogatina e por aí ia.

Naquela época, o Jogo do Bicho era visto como uma diversão qualquer, coisa de varejo com ares românticos, mas era uma contravenção e os donos de bancas ganhavam uma grana respeitável, pois o volume de apostas era enorme e não tinha tributação. Portanto, era bem rentável. Os gastos eram com os prêmios, cambistas e molhar as mãos de quem pudesse incomodar.

Esses sobressaltos, por coincidência, aconteciam sempre quando mudava o comando policial da região. Os cambistas saíram logo, mas o famoso banqueiro ficou mais tempo, tanto que nossa molecada ia de bicicleta visitá-lo. Pelo lado de fora da cadeia, é claro. Bicas na contravenção.

Fim do Senai

No começo da década de 70, teve início o desmonte da malha ferroviária no país. Isso foi o maior pesadelo que Bicas tem até hoje. Nossa cidade vivia praticamente em função da Leopoldina, com quase mil empregos diretos e mais duas escolas ligadas à Rede Ferroviária: Liceu e o Senai. O Liceu era uma escola de ensino fundamental de ótima qualidade, exclusiva para filhos ou parentes de ferroviários e foi extinta praticamente junto com o Senai.

Minha turma do Senai (formandos de 1971), foi uma das últimas a passar por lá. Me lembro que quando entrei existia uma placa antiga comemorativa dos vinte e cinco anos da escola. Todos os meus irmãos passaram pelos crivos dos grandes professores e formadores de cidadãos que lá existiam.

Para ser aluno do Senai, era preciso passar por uma prova eliminatória (como se dizia na época). Quando eu fiz a prova, por exemplo, se inscreveram mais de cem candidatos para disputar as vinte e cinco vagas fixas. Era sempre assim, vinham interessados de várias cidades. Aqueles que, como eu, tiveram o privilégio de passar por lá, puderam usufruir do que havia de melhor no ensino técnico, como marcenaria, ajustagem, tornearia, ferraria e caldeiraria, além do curso de desenho técnico

Quem assimilou todo o ensinamento, certamente, não precisa hoje de antidepressivo. Com todo esse cabedal, ainda recebíamos meio salário mínimo por mês, com carteira assinada e tudo. Foi uma perda sem tamanho para nossa querida cidade… Bicas infeliz.

Nos anais

Os jovens que passam pela calçada ali quase em frente ao Banco do Brasil, e vêm uma placa anunciando serviços fotográficos, podem pensar que é apenas mais uma loja qualquer. Mas se deparar com a história da histórica Foto Adelson, vai ter uma surpresa daquelas.

Desde pequeno eu gostava de ver as vitrines fotográficas do Adelson. Fotos de casamentos, inaugurações, eventos e tudo que acontecia de importante em Bicas, nosso principal fotógrafo registrava tudo. Acho que suas vitrines só perdiam em visualizações para os cartazes do cinema.

Me lembro de quando fui fazer aquela foto padrão da primeira comunhão, Adelson perguntou se eu queria colorida. Espantei, pois ainda não tinha visto. Mais tarde fiquei sabendo que ele pintava a foto em preto e branco artisticamente. Isso já era uma boa novidade.

Quando estive na terrinha no ano passado, tive o prazer de conversar com o Adelson. Além de me mostrar fotos que são verdadeiras relíquias, ele me disse que seu acervo fotográfico conta boa parte da história de Bicas. Isso é um patrimônio capaz de fazer inveja aos historiadores e tomara que não se perca na poeira do tempo, porque cidade sem memória é cidade fantasma… Bicas em foco.

Crime e castigo

 Antes de surgirem os Beatles, era costume os homens cortarem os cabelos religiosamente todos os meses. Mal começavam as madeixas subirem às orelhas, pronto! Já era hora de ir ao barbeiro (naquela época não existiam cabeleireiros para o sexo masculino). Eu, que trabalhei dos dez aos treze anos na barbearia do meu pai, não tinha nem como dialogar, ele olhava e me mandava sentar na cadeira para o corte.

O que eu observava e achava engraçado, era quando um pai chegava quase puxando o filho para fazer o corte. Quando a criança finalmente se sentava na cadeira, ouvia a ordem: “Sr. João, máquina manual e príncipe Danilo”. Numa tradução livre queria dizer que o garoto fez alguma arte e chegou a hora de pagar.

Meu pai que tinha como lema: “o freguês tem sempre razão”, não titubeava, colocava o avental no pobre do menino, e começava a penitência. A máquina mais embotada que ele tinha, arrancava mais do que cortava os cabelos. Príncipe Danilo era um corte que deixava apenas um topetinho na frente. Nossa! Era para pagar os pecados mesmo. O danado do pai do garoto, ainda dizia: “se chorar, raspe tudo”. Quando terminava, o pobre do mancebo olhava para o Sr. João com lágrimas escorrendo pelo rosto, misturadas com cabelo e meleca, levantava da cadeira e saia correndo em disparada, mas antes, ouvia do meu pai que era para  melhorar o comportamento; assim, na próxima vez, poderia usar a máquina elétrica. Sr. Alípio, o outro barbeiro, dava aquela gargalhada sem medo de mostrar as gengivas… Bicas escalpelada!

Os espinhos da vida

O quintal da minha casa, ao fundo terminava na matinha do Ginásio que, por sua vez, ia até perto do campo do Leopoldina. Bem perto de casa havia um jequitibá, que beirava os trinta metros de altura. Quando ele começava a soltar as sementes que ficavam dentro de uma proteção, logo se sabia que a pita que era a tal proteção iria se desprender e parar no chão. Eu descobri que a pita era a base dos cachimbos dos índios e também do Saci Pererê.

Lá no meio da matinha, nós (a molecada), fizemos uma gangorra de cipó imitando os filmes do Tarzan, que estavam bombando. A árvore ficava numa pirambeira e a fila enorme para se dar uma volta. A todo momento ia um moleque soltando um grito igual ao do astro do cinema. Aqueles mais ousados, paravam em outra árvore e depois pegava carona para voltar.

Como demorava bastante para chegar a vez para nova volta, alguém teve a ideia de gangorrar em duplas. Várias duplas decolaram sem nada acontecer, porém, quando eu e o Gá saímos, o cipó arrebentou e nós dois descemos rolando pelos arranha-gatos, passamos por uma amoreira e paramos numa moita de urtiga. Eu não sabia se coçava ou tirava os espinhos. Gá estava com o nariz inchado e a orelha ardendo de ralada. Os colegas se dividiram, uns riam e outros procuravam nos ajudar. Saímos e fomos nos lavar numa caixa d’água, que existia ali perto do Ginásio… Bicas Krig-Há, Bandolo!

Os alquimistas estão chegando

Nosso QG ficou sabendo que aquele dia era dia de festa. Pelo jeito, uma senhora festa. Na hora marcada nos reunimos e fomos para a parte alta da cidade, mais precisamente lá perto do trevo. Ali seria o rega bofe…

Assim que chegamos, vimos uma valeta enorme cheia de carvão e espetos de bambus com quase um metro de comprimento. A “Furiosa” do maestro Luiz de Deus estava se alinhado num canto, para mandar aqueles dobrados maravilhosos…

Fitas e placas a serem descerradas. Políticos lendo de última hora seus discursos de improviso, pois o governador estava chegando. Era a inauguração do asfalto ligando Bicas à Juiz de Fora. Sem dúvidas um marco histórico, haja vista o tamanho do palanque e a quantidade de políticos presentes…

Quase todos nós já tínhamos conseguido os espetos recheados de carne; então, paramos para ouvir as autoridades. O nosso prefeito classificou a obra como uma das maiores conquistas de Bicas nos últimos tempos, abrindo assim o caminho para o desenvolvimento da amada terrinha.

Na sua vez, o governador foi mais enfático: disse que a possibilidade que faltava para a nossa cidade avançar em direção ao progresso estava começando ali com o asfaltamento que, naquele momento, ligava Bicas ao resto do país.

O pároco benzeu todas as placas comemorativas, que saíram do anonimato, a banda tocou, os foguetes estouraram no céu azul e nós aproveitamos a ocasião para enchermos a pança… Bicas stand by.