Exercendo o mandato

Em qualquer situação administrativa, seja pública ou privada, sempre aparece alguém com olhar futurista e desenvolvimentista. Eu era moleque, ainda, e me lembro dos comentários positivos sobre o Prefeito da nossa querida Bicas.

Nilson Batista Vieira, então exercendo o cargo (1959 – 1962), fez uma arrumação nos quadros de funcionários da prefeitura naquela época, que podia se dizer: uma revolução. Criou os cargos hierárquicos em cada departamento e deu poderes. Poucos se deram conta disso, mas ajudou em muito sua administração. Assim, agilizou toda a burocracia e acabou com aquela coisa de “quem faz o quê”.

Várias obras estruturais como saneamento, calçamento de ruas e urbanização, podemos colocar na conta do mandato desse homem sério e empreendedor, que fez nossa terrinha dar um salto de qualidade. Foi durante o exercício do seu cargo que Bicas viveu pela primeira vez a situação de pleno emprego… Isso foi sorte, mas sorte também persegue quem trabalha.  Nilson Batista Vieira teve uma vida tranquila e longeva e virou nome de rua ainda vivo. Homenagem feita por outro prefeito, graças aos seus méritos… Bicas honrosa.

Na arquibancada do seu coração

Depois de vários anos, no ano passado recebi uma carta daquelas, que era como antigamente, o carteiro apertou a campainha, minha cachorra latiu, peguei o envelope, olhei o remetente e fiquei contente antes de abri-la. Primeiro, pela escassez dessa modalidade de comunicação, atualmente, e também pela origem da carta.   Era da minha professora do Grupo Cel. Souza…

Quero pedir desculpas a dona Elcy por tornar público o assunto, mas tamanho foi o meu contentamento, que resolvi dividi-lo… Minha querida professora me fez voltar naquela carteira de madeira onde aprendi o bê a bá. Me lembrei também de dona Noêmia, a diretora, dona Zenóbia, a merendeira e tantas outras professoras daquela época.

Dona Elcy tinha preocupação em nos ensinar as coisas corretas além da didática escolar. Minha esposa também é professora e gosta de usar também técnicas extras. Vejo a história se repetindo, apesar da distância entre as duas… Dona Elcy, obrigado pelas palavras de carinho contidas na sua carta que guardarei em lugar especial.

A senhora tem muita influência nas coisas que escrevo e na minha vida em geral. O trecho que mais gostei, foi aquele que a senhora disse que eu estou na “arquibancada do seu coração”. Sua dedicação e seu conhecimento estão presentes aqui no meu coração… Bicas batendo um bolão.

O Chevrolet preto do sr. Oscar Alhadas

O veículo estacionava em frente ao Brazinha, e a lotação ia entrando. O carro era igual ao coração de mãe. No banco traseiro cabia quase um time de futebol. Sr. Oscar era um paizão para nós… Gostava dos jovens e do ambiente noturno, mas por dever de ofício não dava moleza. Como da vez passada aconteceu um incidente, foi logo dizendo: “Aquele desgraçado que vomitou no banco traseiro da outra vez, eu não levo hoje”.  Pexano, bom de papo, colocou a mão no ombro dele e com a fala mansa murmurou: “E se ele for no banco da frente na porta?” Nosso chofer coçou o nariz e com aqueles olhos azuis, mirou e sapecou: “Assim pode, mas se fizer sujeira, novamente, não entra mais no meu veículo. Para onde vamos hoje?” Nosso destino era a Tia Rita, mas ele ponderou: “Lá teve confusão ontem, no Rebu só tem tranqueira, mas na BR3, chegou um mulherio de primeira esta semana”. “Então toca pra lá”, sentenciou o Helinho.

A BR3 ficava na divisa de Bicas com Guarará… Luz vermelha no teto, mesas bem arrumadas e, no canto da sala principal, tinha um palco e uma linda mulher seminua dançava apimentando o ambiente.  Daí para frente, cada um tomou sua posição e o Sr. Oscar disse para o Zé Augusto que ia tirar um cochilo e na hora de ir embora, era só chamar… Bicas caliente!

O açougueiro

 A pensão do meu pai era onde mais tarde foi o bar do Aduba. Bem em frente da pensão, no começo da Rua do Café, ficava o açougue do Lourival do Vale, que negociou ali por um bom período. Volta e meia eu era escalado para buscar as encomendas…

Me lembrei disso porque hoje fui comprar costelinhas de porco, e o atendente num piscar de olho cortou a mercadoria na serra elétrica. Vinha pelo caminho e me deparei com o açougue do Lourival lá na minha infância.

Confesso que naquela época o ambiente dos açougues era meio macabro: havia um toco enorme bem no meio do estabelecimento, com uma machadinha sempre suja de sangue. Se desossava o boi bem na vista do freguês.

No avental do Lourival tinha marcar reais de quem acabou de participar de uma carnificina… A cor branca era só na alça. Carnes, linguiças e até porcos em pedaços eram comuns se ver pendurados naqueles ganchos de ferro.

Num canto, havia um latão cheio de ossos e pelancas ungidos com aquele odor. Isso era comum naquele tempo. Lourival atendeu o meu pedido, embrulhou a carne num papel grosso e deu acabamento com uma folha de jornal. Não sei se fazia mal, mas o bife da pensão era muito apreciado. Será que as costelinhas que comprei eram de porco mesmo? Bicas na estatística.

Andando na linha

Aquelas duas linhas paralelas e infinitas, que cortavam a cidade de ponta a ponta, sempre foram motivo de curiosidade da molecada. Entre um trem e outro, nós utilizávamos os trilhos para nos divertir.

Primeiro, tinha aquela competição do equilíbrio, que consistia em disputar uma corrida em cima dos trilhos… Um moleque numa linha, disputando com outro na linha ao lado para ver quem chegava primeiro… O percurso variava mas, o mais usado era o da Praça dos Aposentados até a Estação. Não podia cair ou pisar fora e, o último a chegar, era “mulher do Padre”.

Outra brincadeira que valia até apostas, por ser bem mais difícil, era andar com o “arco” em cima do trilho. Essa era só para os bambas… Passávamos horas. E quando um comboio aparecia, era o momento de colocarmos os cacos de vidros em cima da linha para serem triturados e depois fazermos cerol (cola de sapateiro derretida misturada com o vidro moído).  Passávamos o produto nas linhas dos carretéis, esperávamos secar, e depois íamos bater “laçadas” de papagaios… Minha turma tinha uma agenda sempre cheia… E como era bom a ferrovia no nosso dia a dia… Bicas molecando.

Ensaio sobre um caso de amor

Além do portão da casa dela, a praça da Matriz foi a maior testemunha do amor daquele jovem casal, que demonstrava a todos o viço de uma paixão. Não havia um banco da praça que não tivesse assistido as carícias, abraços e beijos dos dois enamorados…

Mas, o destino e as idas e vindas do amor, puseram fim ao romance. Ele foi estudar fora, e de lá foi para outras paradas. Ela, jovem e bonita logo conheceu outro, se casou e foi tentar construir sua vida…

Vários anos se passaram, ele viúvo e com a família criada, resolveu voltar para Bicas para ter mais tranquilidade e relembrar seus tempos de mocidade. Logo que chegou, ficou sabendo que seu grande amor do passado também estava só, pois teve apenas um breve e ilusório casamento…

Sua curiosidade fez despertar a chama do amor adormecido no fundo do seu coração. Depois de alguns sutis contatos e respostas animadoras, eles marcaram um encontro naquele mesmo banco da praça, onde tudo começou.

Ele lá esperando e pensando “porque eu não trouxe o chicletes de hortelã que ela adorava? Será que ela vai ser fria comigo?”.

Vindo do outro lado da igreja, ela, toda cheia de dúvidas e nervosa, também capitulava: “será que ele ainda usa aquele perfume gostoso? E se ele fizer alguma cobrança? Se encontraram, os batimentos cardíacos aumentaram e o papo rolou. Quem assistiu a cena conta que sorrisos e afagos marcaram aquele momento … Bicas se reencontrando.

Façam suas apostas

Na juventude, lá pelos idos dos anos 70, uma diversão preferida da nossa turma era jogar sinuca. Bicas tinha vários bares com mesas de bilhar, mas nosso point era o Bar do Aduba, que ficava ali na esquina da subida da rua do Café, perto da linha do trem.

A freguesia era seleta: bastava ter grana e saber manusear o taco. Fins de semanas, as mesas ficavam sempre lotadas e muita gente esperando a vez para jogar. Me lembro de seis mesas e uma de bilhar francês (carambola)… As melhores sempre eram ocupadas pelos “cobrões” e aquelas com descaídas e panos mais velhos eram para os “patos”.

O time titular era composto por: Pinguim, Messias do Lalau, Horácio Machado, Tião Liberato e mais uns cinco ou seis que serviam para engrossar o caldo pois, apesar de jogarem bem, eram mais coadjuvantes e tinham grana, porque as apostas eram altas.

No jogo de “vida”, que era o mais popular, quando a disputa era forte, nossa torcida era sempre para o Pinguim, mais pela técnica, simpatia e, também, por que, vez por outra, quando ele ganhava, patrocinava as noitadas para nós que sempre terminava na Tia Rita.

Aduba sempre presente guardava os melhores tacos, talco e giz para eles. Assim a jogatina rolava solta. Lá pelas tantas, quando diminuía o movimento nas mesas, fechava-se as portas da frente abria-se uma nos fundos, que dava acesso ao improvisado cassino… Era quando começava a chegar a nova clientela.

Nós, os durangos, ficávamos só sapeando pois, com o cacife alto, não tínhamos nenhuma chance. Um dia a polícia deu uma batida e o cassino estava cheio. Apareceu uma saída de emergência que dava para o córrego. Foi um corre-corre danado. Ninguém foi preso, mas teve gente que ficou com um cheirinho nada bom. No outro dia, Aduba prestou depoimento e logo foi liberado… Bicas jogando.

Proeminência

Por conta da localização geográfica, Bicas herdou a ginga carioca e o tempero baiano. Assim, o jeito biquense de ser, sempre foi alegre e despojado. Um exemplo prático da descontração do nosso povo está na figura de Rubens Nazaré. Quem conviveu com ele lá nos idos dos anos sessenta, há de lembrar de sua irreverência e perspicácia que divertia os nossos corações.

Onde ele estava a alegria reinava… Contando piadas aqui, tirando sarro ali, Rubens era o protótipo da diversão. Tinha problemas como qualquer mortal, mas não deixava a peteca cair. Aparecia com uma língua de sogra e soprava no rosto de alguém, dava um cascudo em outro e se fingia de sério.

Na Sapolândia, durante o Carnaval, era o destaque natural. Todos os olhares eram primeiro para ele. Já naquela época, sua coreografia preferida era a dança da boquinha da garrafa. Coisa impensável e impagável para os normais.

 Conta a lenda que, quando Patesco chegou ao céu, São Pedro estava cochilando e ele deu um puxão na barba branca do guardião e gritou no seu ouvido: “Ô MUNHA!!!”… São Pedro deu um pulo da cadeira, acordando assustado e viu Patesco tomando a harpa de um anjo e pensou: “Acabou o sossego”… Patuscada biquense.

Ô Dona Maria!

Naquela época, as hortaliças eram cultivadas somente com esterco, e esse negócio de produtos orgânicos era coisa para o futuro. Assim, uma carrocinha recheada de verduras passava vendendo-as de porta em porta pelas ruas de Bicas.

Quando Tamaduro apontava em qualquer esquina, de qualquer rua, despertava um bom astral entre as donas de casa e a certeza de um almoço saudável. Ele tinha bordões divertidos que funcionavam como marketing. “Ô Dona Maria: banana, mamão e tomate tá maduro”… “Venha ver a mandioca do Tamaduro como tá bonita”… “Moça bonita não paga, mas também não leva”… “Temos  abobora putaiada (por talho)”, bradava ele, alegrando as comadres. Nossa molecada adorava sua passagem lá na rua do Brejo… Ríamos muito com sua performance.

Nunca soube o verdadeiro nome daquele mulato forte, bem-humorado e pau para toda obra. Vendia verduras na parte da manhã, à tarde pegava o seu machado e ia rachar lenha ou na cooperativa ou na casa de alguém, pois ainda era novidade o fogão a gás.

Tamaduro foi um personagem alegre, humilde e trabalhador que passou por nós dando lição de simplicidade. Sua frase preferida era: ganho pouco, mas divirto muito. Certamente, se foi para o além com a missão cumprida por aqui… Bicas quitandeira.

Barra Limpa

No começo da rua Melo Vianna, ainda existe um prédio abandonado, que no passado foi uma fábrica de açúcar. Conhecido popularmente como “Refinaria”. Por ser grande e bem arejado, alguém teve a ideia de transforma-lo em um clube, que foi batizado por: Barra Limpa.

Enquanto durou, o Barra Limpa foi um sucesso popular e vivia sempre lotado, principalmente, nos bailes carnavalescos. Já não existia aquela pressão com relação aos costumes imposta pelo sistema. Assim, por lá se fazia vistas grossas para certos procedimentos.

Numa noite de “grito de carnaval”, por exemplo, era comum os jovens usarem lança perfume tranquilamente no meio do salão. Num desses bailes, apareceu o folião Hélio Marcio (Garrafinha), que tirou do bolso e espalhou pó de mico pelos cantos. Causando um alvoroço, foi uma coceira danada. Os foliões ficaram momentaneamente sem rumo. Houve corre-corre e princípio de confusão.

Logo, Garrafinha foi identificado e devidamente enquadrado pelos policiais de plantão, Severino e Timóteo, que o retiraram do salão. A coceira passou e Luiz de Deus e sua Orquestra deram o tom da noite com marchinhas e muita alegria. O dia já estava clareando e Bandeira Branca estava sendo cantada por todos os foliões… Bicas na folia.