Receita para viver só

Olhando o passado e comparando, parece que o filme “Uma Mente Brilhante” foi inspirado na vida do meu guru Valdir dos Santos (Cesário). Uma das tantas noites que eu parei na Estação para conversar com ele, deitado quase sempre naqueles papelões da loja do Mégda, sabia que ia receber mais uma aula inesquecível…

Falando sobre sua solidão, me disse: “Estou aqui só nesta vida, por ter abdicado da família e por conta dos vícios, mas existem várias outras maneiras de ser dominado pela solidão, que é única…”

E continuou tecendo seus comentários…

“As pessoas consideradas normais entram para o clube da solidão, por alguns pecados capitais, a soberba é o caminho mais curto para se isolar. Aqueles que dão suas opiniões como verdades absolutas, geralmente, terminam sozinhos no banco da praça.”  

Valdir estava com a alma aberta e, como o tema era sua especialidade, se ajeitou, acendeu um cigarro e fuzilou: “Menino… Amizade verdadeira você vai ter poucas, como todos, mas não se esqueça que o olhar da igualdade é o tijolo principal do relacionamento. “Saí satisfeito e pensando: “será que isso é coisa fácil ?”.  Bicas tenho dito!

Forró risca faísca

Tião da Modestina estava fazendo a barba e pedindo pro meu pai caprichar no aparo do bigode, pois tinha um forró arretado lá nos “Manjados”, ali pelas banda do Campo do Leopoldina.

Niquinha alertou para tomar cuidado porque a barra lá era pesada… Uma tenda improvisada no quintal, o sanfoneiro, importado da Forquilha, Zé pretinho no triangulo e Manezinho Torto na zabumba.

Tião da Modestina chegou cheio de chinfra, numa estica danada, botando banca. Dançou com uma, cumprimentou outra e foi bamboleando as cadeiras…

Uma mulata cheia de curvas e decotada caiu na graça do dançarino, que não perdeu tempo e atarracou-se com ela, encostando o bigode na ponta da orelha da gatona.

Tão agarradinhos estavam, que pareciam um só dançando… Pisgoinho quando viu sua amada naquela base com o Tião, o ciúme lhe subiu pela cabeça e não titubeou, tirou a faca da bainha e a riscou pelo chão, fazendo faísca pra todo lado.

Foi um sururu danado… Modestina querendo se livrar da mulata, mas ela segurava e apertava ele. A sorte é que, Zezinho Felisbino, seu amigo, estava perto do candeeiro e o jogou ao chão.

O ambiente ficou meio turvo e Tião da Modestina desapareceu na escuridão. Quando o baile voltou ao normal, se via Pisgoinho com sua mulata trocando carícias num cantinho… Bicas demarcada!

Fim do martírio

Seu marido caiu de cama e ficou inválido com a gravidade da doença. Ela, bonita a formosa, cumpria à risca seu papel de esposa. Cuidava sozinha do enfermo sem reclamar…

Assim a vida ia indo, porém, a jovem mulher, com o passar do tempo, se queixou com uma amiga do calor que sentia por dentro e não sabia o que fazer. Sua amiga entendeu o recado e minimizou: “Olha, você sempre foi fiel, embora os olhares dos homens quase te fizeram vacilar, mas seu marido sempre colocou água na sua fervura. Agora que você está pegando fogo e ele não tem como te acalmar, não vejo nada de errado arrumar alguém para te esfriar, afinal é uma maneira de você ser compensada.”

Já havia um amigo do marido que sempre jogava piadinhas apimentadas para ela, quando ia visitar o doente. Um dia, ela o atendeu na porta e disse: “Depois que você fizer a visita, finja que vai embora e me espere no quartinho dos fundos.” Assim foi feito. O doente estranhou a brevidade da visita, mas o amigo disse que tinha que desemperrar uma fechadura que estava inativa há tempos.

Ela o acompanhou, abriu e fechou a porta sem sair ninguém, depois falou para o marido que ia passar roupas no quartinho e que ele esperasse um pouco… Seu corpo desejoso e cheio de calor avançou sobre o visitante, que demorou para suprir a demanda da bela mulher. Ela voltou alegre para sua rotina e o amante teve a certeza que desemperrou e lubrificou bem a fechadura… Bicas sem ferrugem.

Barra limpíssima

Aquele burburinho mostrava que a folia prometia. Do outro lado da calçada, encostados no muro da casa do Pedro Machado ou sentados na linha do trem, era aquele mundaréu de gente esperando a banda do Luiz de Deus entrar em ação lá dentro…

Além dos foliões, também, os ambulantes pegavam carona na noite. Carrinho de cachorro quente, pipocas e lança-perfume, eram alguns dos itens do comércio paralelo que abrilhantava o carnaval do povão, do lado de fora.

Prestes a começar, se via foliões fantasiados com mascaras, roupas extravagantes e coisa e tal… O prédio do Barra Limpa funcionava numa antiga fábrica, tinha uma acústica meia boca, mas ninguém dava bola para isso.

O teto numa altura acima do normal, ajudava a ventilação, deixando o povão mais arejado… Quando os metais da orquestra davam início ao tão esperado momento, a aura carnavalesca dos biquenses explodia de alegria, tanto dentro como fora do clube mais efémero que Bicas já teve… Bicas entre confetes e serpentinas.

Madrugada de Carnaval

Depois que as escolas de samba desfilavam, e os bailes nos clubes iam terminando  madrugada adentro, apareciam aqueles que levavam a festa de momo ao pé da letra. O sentido sempre foi brincar, mas na madrugada a brincadeira era mais séria.

Os grupos de amigos tinham seus pontos e demarcavam seus territórios… Ali rolava bebidas, drogas e muitos pegas. Tinha aquela minoria com um pouco de medo, mas o normal era a maioria botar pra quebrar, e a folia rolava total.

Era comum os jovens passarem do ponto, e loucuras aconteciam com bastante frequência. Namoros se iniciavam ou terminavam durante os quatro dias de festa. Os foliões e foliãs aproveitavam para colocar suas demandas para fora ou para dentro. Com a entrada da pílula e do preservativo no cotidiano, as madrugadas carnavalescas pegavam fogo, atrás da Estação, nas quebradas da Inex e no escurinho dos becos… Eram inconfessáveis o roçar das fantasias.

Nove meses depois, algum incauto era flagrado por conta do excesso. Na verdade, o Carnaval sempre foi uma válvula de escape para as estripulias humanas que maduravam até ficar no ponto na festa do momo… Bicas se dando.

Aquele que se achava

A primeira sessão de domingo era a mais concorrida e invariavelmente o Cine São José ficava lotado. Era um burburinho interessante, antes do início da sessão. O pipoqueiro Jair Cotta, em frente, explodindo milho sem parar. Lá dentro do cinema, perto da portaria, Maninho, com seu tabuleiro de amendoim (doce e salgado), atendia a outra freguesia.

O filme era: ”Duelo ao Sol”, com Gregory Peck e Jennifer Jones… Bang bang muito aguardado. Antes das badaladas anunciando o abrir das cortinas, era legal observar casais se ajeitando e namoradinho marcando a cadeira que o brotinho estava para depois do apagar das luzes ir sentar juntinho.

Nesse momento, vez por outra, aparecia o soldado raso Timóteo cheio de pose parecendo um general. Ele adorava aparecer em qualquer lugar… Ali, então, era seu clímax. Naquela época, era tempo de ditadura, e o policiamento se metia até dentro do cinema. Timóteo, devidamente fardado, descia o corredor central, batendo o cassetete na mão, olhando para todos os lados e, às vezes, até pedia silêncio.

 Nesse dia a turma da pesada formada por Orenôco, Sá Onça, Charles Cândido e outros do mesmo calibre, esperou aquele momento do apagar das luzes e, antes da tela se abrir, fizeram uma linda homenagem para o soldado raso. Tomates podres, ovos e até farinha de trigo… Apesar da escuridão, os arremessos tiveram um alto aproveitamento.

Foi um alvoroço… Sargento Adão mandou ascender as luzes, com a intenção de reconhecer os meliantes, mas, não conseguiu. Todo mundo quietinho nos seus lugares com cara de paisagem. Timóteo com a farda toda lambuzada e bufando de ódio. Foi a glória dos oprimidos. Quando a sessão finalmente iniciou, choveu gargalhadas. Acho que por conta desse episódio, os policiais não entraram mais no cinema, se limitando à portaria… Bicas contra a opressão.

Brotinho encabulado

Nós já havíamos passado daquela fase do flerte. Eu numa vontade danada de apertar sobre o meu peito aquele corpinho delineado e primaveril, mas ela sempre se esquivando.

Porém, se via desejo por parte dela, também, por isso minha insistência… Numa brincadeira dançante na casa do Quincas do Nico Mamede, eu bem que tentei uma melhor sorte, mas ela disse que seu irmão estava de plantão, vigiando.

Na verdade, o brotinho estava igual ao filhote de passarinho quando vai deixar o ninho: cheio de dúvidas e se protegendo… Num sábado na praça da matriz, ela estava sentada com as amigas.

Eu passei e seu sorriso angelical a comprometeu. Num ato decisivo, me aproximei e sentei bem ao seu lado. As amigas saíram nos deixando a sós.

Antes que ela falasse algo, peguei na sua mão suada e nossos olhares desejosos amenizaram o nervosismo. Foi um ótimo papo que terminou com um leve selinho trêmulo bem perto do portão da casa dela… Bicas se emancipando.

Comércio clandestino

Com uma mente fértil e precisando de arranjar uns trocados, Ari Biscoito foi à luta. Desceu a Parte alta da cidade com um passarinho dentro de um alçapão, dizendo que era um canário e que era bom de canto. Passou pelo armazém do Sr. Armando, olhou a clientela e o ofereceu para Sr. Manuel Roque, que deu uma olhada por volta do alçapão, viu que tinha algo errado e descartou qualquer oferta…

Ari seguiu e, no Pedro Machado tentou passar o pobre do bichinho. Pedro muito esperto disse que só criava canário belga. Doca, que estava saboreando um picolé de coco não perdoou: ” De novo esse cara nos trambiques?”. Já meu desiludido, ele foi indo e chegou bem em frente da estação, tentou fazer negócio, mas nenhum carroceiro entrou na dele…

Finalmente, Ari Biscoito encontrou alguém que quis negociar. Derli Arruda comprou o “canário” e foi embora. Passado uns dias, Derli foi se encontrar com Ari e logo reclamou: “esperei o danado cantar conforme você disse e nada. Mas depois que o coitadinho foi tomar banho e a água ficou amarela, é que vi que comprei um belo pardal. Quero meu dinheiro de volta!”. Ari Biscoito deu uma risadinha sacana e falou: “fique tranquilo, assim que eu pegar um canário verdadeiro, te dou de graça… Bicas gato por lebre.

Judia de mim

Da janela de sua casa, o fundador Sr. Boia observava a concentração aumentando e indo para a avenida. Com os olhos brilhando e o coração palpitando, ele pensava: “tudo começou de uma brincadeira e agora tomou esse rumo. Que maravilha!”

Lá no burburinho se via a Sheila Salomão andando de um lado para o outro, tentando ajeitar tudo para não ter erros. Bebete nervosa roía as unhas. Alguns voluntários dando os últimos retoques nas fantasias e alegorias. Colocando um alfinete na fantasia, para ficar firme ou uma fita no turbante do membro da bateria para encaixar melhor… Assim a escola ia se encaixando. Betinha, a nossa porta-bandeira, cochichava com o mestre-sala Francisco as coreografias ensaiadas exaustivamente.

No primeiro apito do diretor de bateria, o Miro, se via uma aura carnavalesca de causar inveja. Começava assim mais um desfile do Areião, escola de samba fundada na querida Rua do Brejo e que levou o nome de Bicas ao mais alto patamar do carnaval, na nossa região. Muita gente de outras cidades não perdiam o carnaval biquense, pois a disputa era acirrada, e as concorrentes não ficavam para trás. Havia até apostas para ver quem ganhava. Nossa gente sempre foi muito festiva, e o carnaval era apenas um escape da nossa alegria… Bicas na avenida.

Interpretando o capítulo

Assim que terminaram os afazeres domésticos e mais um capítulo da novela, minha mãe desceu até ao portão para conversar com as vizinhas. Naquela época, os vizinhos tinham a mania de conversar entre si. Entre vários temas, estava é claro: O Direito de Nascer (sem dúvidas, o maior sucesso novelístico do rádio).

Luzia estava inconformada com o tratamento dado pelo vilão (Dom Rafael) a sua escrava mamãe Dolores: “Onde já se viu chamá-la de negra alcoviteira e querer mandá-la de volta para a lavoura… Coitada.  Ela é uma mulher de idade avançada e não vai suportar o serviço pesado”

Dona Ciloca, nervosa com Albertinho Limonta, que pulou o muro para se encontrar às escondidas com Isabel Cristina: “Será que os capangas de Dom Rafael vão pegar o Albertinho?”, disse, amassando o avental.

Durica tinha certeza que a proteção de mamãe Dolores ia dar segurança ao casal apaixonado. Minha mãe também aturdida falou: “Acho que o amor entre os dois é tão forte que aquele velho nojento não conseguirá impedir”.

A novela O Direito de Nascer foi sem dúvidas a maior audiência do rádio, ao longo de quase um ano. Nos capítulos finais, os maridos reclamavam do atraso do almoço, inclusive teve “replay” da trama mais tarde. Quando veio a TV, uma das primeiras novelas apresentadas foi justamente essa. Os atores e atrizes, quando tiveram seus rostos mostrados, viraram celebridades num período romântico da nossa sociedade… Bicas em capítulos.