Escola democrática

Quando o Ginásio Estadual foi inaugurado, o objetivo era sanar uma demanda enorme de pessoas que não podiam cursar o ginásio, por não ter como pagar. Só o Francisco Peres oferecia o curso pago, e a criação do Estadual, que era gratuito, contemplou a grande massa que queria e não podia estudar.

Nos primeiros anos, a escola funcionava à noite, no prédio do Grupo Escolar Cel. Joaquim José de Souza, com todas as salas ocupadas e lotadas… A minha por exemplo era a 1ª E, portanto, havia mais quatro turmas da 1ª série… Foi um momento importante para a educação biquense.

No pacote, vieram professores jovens que estavam fazendo cursos superiores e nem aí para os anos de chumbo. Gogóia, Gracinha Roque e Dora Croce, por exemplo, vieram com métodos novos de ensino e eram como nós os alunos: amavam os Beatles e os Rolling Stones. Isso ajudava a arejar a jornada dupla da maioria dos estudantes.

Dona Lilian era durona, mas sabia fazer o meio de campo, se por um lado ela media as saias das estudantes (quatro dedos no máximo acima do joelho), por outro, estava sempre ajudando os mais problemáticos. Tivemos grandes temas discutidos por lá, em época de ditadura, e nem por isso a escola fechou ou foi acusada de doutrinadora.

Parabéns Ginásio Estadual pelo seu papel na formação dos jovens biquenses… Que outras demandas venham e seu corpo docente continue com a sabedoria que sempre honrou esta escola.

Não chega de saudade

Quando ia aproximando o fim do ano, era aquela expectativa envolvendo o Baile de Debutantes que, na minha época, bombava no BTC… Paletó e gravata arrumava emprestado, mas era formalidade só na portaria.

Quanto a calça e a camisa, minha querida irmã entrava em cena com sua incrível habilidade e fazia o figurino cantar, deixando o mano nos trinks. Brylcreem nos caracóis dos cabelos, Mistral nas axilas e um perfume no pescoço.

Ia eu me encontrar com os amigos para o grande baile, que sempre era marcado por uma grande orquestra e pompa no salão… Quando nós subíamos aquela enorme escada, dava pra notar que a noite ia ser uma criança.

Nossa turma sempre junta e com o mesmo objetivo: fisgar algum brotinho (quem não tinha). No bar ao lado da piscina, tomávamos alguns drinks para animar… Me lembro que estava dando um rolê no salão e a orquestra tocou “Can’t help falling in love”, do Elvis Presley. Corri, e com sorte, achei meu brotinho. Tirei-a para dançar e ficamos todo o baile no maior love… Bicas amando.

Ostracismo social

Na Grécia antiga, o cidadão que atentava contra o bem público era condenado ao ostracismo. Tinha seu emprego cassado e ficava por dez anos praticamente isolado do povo, sem poder se manifestar sobre vários temas e, principalmente, as questões políticas.

A origem da palavra vem do movimento da ostra, que quando se sente ameaçada se fecha numa autodefesa… Na linguagem atual, é comum quando uma pessoa famosa ou poderosa vai perdendo sua influência retorna, ao pó de onde veio.

No meio político, estamos sentindo o movimento forte da ostra se debatendo para não se fechar. Como esta ostra não tem pérola por dentro, não vai fazer falta nenhuma, mesmo depois de fechada e pagando pelos seus pecados…. Vai exalar toda a sua podridão.

Golpe de mestre

Geraldo estava na cidade vindo de Três Rios. Ele era o encarregado de levar as cartelas da Loteria Esportiva para serem registradas. Coisa comum naquela época. Por conta desse trabalho, ganhava uma boa grana…

Ele adorava jogar sinuca e só jogava valendo. Pinguim, o melhor taco de Bicas, armou uma arapuca para pegá-lo. Assim que Geraldo entrou no bar do Aduba, nós já estávamos jogando uma “vidinha” com Pinguim (tudo armado).

Geraldo se aboletou no balcão e pediu uma caçulinha, enquanto via o Pinguim nervoso errando bolas fáceis e perdendo as disputas sempre… Chateado Pinguim parou de jogar e foi até o balcão, pediu um cafezinho e tirou do bolso um monte de dinheiro, que o Geraldo cresceu os olhos…

Aduba aconselhou Pinguim a ir embora. Ele, solerte, disse que ia dar a volta por cima, mas queria jogar “partida” e só estava faltando parceiro.

Geraldo engoliu a isca e… foram para o pano verde… Encurtando a história: nosso taco de ouro pagou várias rodadas de bebida no Brazinha, rolando até Drurys, que estava na moda, para os simples mortais. Terminamos a noitada lá na Parte Alta com as meninas… Bicas nunca trocou as bolas!

Euzinha emocionada

Dia 7 de setembro, completei noventa e seis anos. Não precisa pensar que sou velha, pois para uma cidade, essa idade é juventude pura. Queria agradecer aos meus queridos filhos que fizeram aquela festa maravilhosa. Quase morri de tanta emoção.

As crianças, os jovens e os coroas deixaram-me em prantos… Teve uma cidade amiga que não entendeu a diferença de data entre eu e a Estação. Expliquei que a Estação é mais velha 44 anos, e que eu só me tornei cidade por conta do crescimento que ela proporcionou.

E também disse que, a homenagem aos ferroviários era por que, sem eles, eu certamente não existiria ou não seria tão garbosa assim…

Notei que minha vizinha fez um arzinho de inveja, mas deixa pra lá. Estou radiante e espero que no próximo níver, os ferroviários parem lá no seu principal reduto (Bar do Zé de Brito) e tomem uma Brahma sem mosquito. “Só pra descontrair, hehehe”… Eu agradecida.

Esperança perdida

Quase sempre quando ele passava naquela rua, a observava na janela com admiração. Ele solteirão, passando dos cinquenta; enfim, um dia tomou coragem. Sabendo que ela era desimpedida, foi em frente, comprou um buquê, com lindas flores e bateu em sua porta. Ela moradora antiga do Bairro Santana, o recebeu sem oferecer a sala.

Entre o portão e a entrada da casa, havia um pequeno jardim. E, ali conversaram… Com a melhor das intenções, ele disse-lhe que estava cansado de ficar só e se ela quisesse, poderiam tentar vencer a solidão juntos. Ela se ajeitou no parapeito da varanda, calma e educadamente respondeu: “Fico contente por você ter se interessado em falar comigo; porém, fico na janela apenas observando aquela linda paisagem lá em cima.”

E, com um amargor cáustico fulminou: “Não gosto de homens nem de dinheiro… Alguns se aproximaram e não tiveram as respostas que procuravam. Provavelmente, o amor se é que existe, entre as pessoas, ainda não comoveu meu coração. Vivo com o fruto do meu trabalho e adoro minha solidão. “Às vezes, me pinto para mim mesma… Talvez essa seja a minha única vaidade”. E terminou: “Peço desculpas por decepcioná-lo mas, é melhor usar de franqueza… Acho que assim minimizamos as dores. Nós não estamos mais na idade de ilusões. As iniciativas têm que ser fortuitas, quando se vai chegando ao ocaso ”…

Ele, com ar de decepção, colocou o buquê ao lado dela e disse: “Enfeite sua penteadeira com estas flores, provavelmente, você terá a sua imagem mais bela que a paisagem da sua janela.” Saiu, fechou o portão e foi pensando… “Sempre achei que o coração fosse o órgão sensível do nosso corpo, por onde passa a emoção. Hoje, encontrei um petrificado… Bicas amarga!

Zelinha no céu

No corredor do céu, São Pedro vem com uma lista na mão e diz: “Zélia Antunes Ferreira da Costa está presente?”… Aquela mulher, com a alma radiante de bondade , levantou-se e chegando perto do barbudo se apresentou como Zelinha.

São Pedro então tira uma casquinha: “Zelinha do Nelson Cristóvão?” Pronto, ela olhou para os lados e sapecou: “Zelinha do Nelson é o seu…” Aí se lembrou que estava na entrevista de entrada para o céu… Amenizou “nariz” e completou…

São Pedro coçou a barba e a chamou para fazer a tal entrevista. “Sua ficha veio da terra com ótimas recomendações, mas tem uns assuntos aqui que preciso checar.”

Zelinha colocou a mão fechada no queixo e ficou escutando… “A senhora assinou uma promissória para sua vizinha analfabeta, jogava no bicho sempre. Os evangélicos bateram na sua porta e a senhora disse que ali não era lugar de religião e rolava sexo, droga e rock and roll. Também mandou um padre para aquele lugar né?”

Zelinha, quase cochilando, fuzilou: “Mas não neguei Cristo por três vezes não! E o meu galo cantou por alegria e não para anunciar uma fraqueza.”

Pedro deu uma raspada na garganta e mandou Zelinha entrar, exaltando sua bondade na terra e a luta contra a dureza da vida… Bicas amada.

Além do arco-íris

Depois que ela andou pelas ruas, sem parada, abriu a porta do quarto e sentou-se na cadeira. Passou a mão pela testa, encontrando as rugas. Seus olhos amendoados, que outrora foram armas para suas conquistas, não chamavam mais a atenção.

Aqueles lábios, antigamente carnudos, não passavam de peças crispadas e pálidas… Pensando no passado, a mulher, lembrou-se dos homens que podia escolher e outros tantos a queriam. Os poucos que se aproximaram dela, não conseguiram jogar a ancora por conta do mar revolto que a cercava.

Gênio complicado e vaidade nas nuvens eram seu cardápio principal: ostentação sempre foi seu brinquedo predileto … Assim, passou o tempo para a linda mulher, que quando deu por si, já tinha a solidão como a única companhia.

Com sacrifício, ajeitou-se em sua cama de solteiro (nunca se deitou em uma de casal), olhou para o retrato na parede, numa moldura empoeirada, e se viu aos vinte anos, e pensou que, antes de atravessar o arco-íris, ia pegar o pote de ouro no seu pé e encontraria finalmente a felicidade junto com um daqueles homens que desprezou. Bicas em preto e branco.

Num Domingo qualquer

Quando minha mãe ia fazer frango no almoço, já se sabia logo: caldeirão cheio de água pra ferver no fogão a lenha… Meu pai me mandava ir lá no armazém do Sr. Armando comprar queijo ralado e macarrão Santa Isabel, aquele que vinha numa embalagem roliça de papel.

O queijo era ralado na hora numa máquina manual que ficava fixa na beira de uma mesa. Na volta, em troca do serviço, avisava que a moela era minha, mas Ana Lúcia sempre me filava um pedaço. Os outros irmãos não ligavam…

Enquanto a água fervia, minha mãe já estava com o ciscante no ponto de sacrifício. Logo ela pisava nas asas e nos pés do galarote imobilizando-o. Colocava um prato de esmalte com algumas gotas de limão debaixo do pescoço já depenado do coitado e a faca mais afiada que língua de trapo fazia o sangue jorrar…

O limão era para o sangue não coalhar depois de exaurido. Assim, com a água já no ponto, começava o trabalho de limpeza e esquartejamento, para levar o galináceo à panela de ferro.

Em poucos minutos, espalhava pela casa aquele cheirinho do tempero da Dona Ana. O macarrão era quebrado antes de cozer, para facilitar a degustação. Na hora do almoço, o peito ficava sempre para o meu pai que podia troca-lo.

Havia um revezamento: quem comia a coxa num domingo, no próximo ficaria com o pescoço e os pés e assim por diante. Além da macarronada com frango, havia também algum complemento.

Antônio, meu irmão do meio, gostava de frango com macarrão, feijão e quiabo. Tinha para nós todos Q-suco, com gelo da geladeira da Ivone. Eu ria ao ver no espelho minha língua roxa da uva artificial.

No final do almoço, aquela forquilha de osso do peito ia para a chapa do fogão e quando ficava seca, eu a Ana Lúcia fazíamos a disputa puxando as pontas para ver quem ficava com o pedaço maior… Bicas self service.

Cinquenta anos “Normal”

Hoje me deparei com um vídeo que me remeteu aos meus quinze anos. Não tive a oportunidade de estudar no Francisco Peres, e muito menos fiz o “Normal’, aquele curso que formava as nossas professoras. Aliás, com um padrão bem alto… Todas que passaram por lá saiam afiadíssimas para enfrentar a profissão…

Foi uma festa de confraternização das ex-colegas comemorando os 50 anos de formatura. Quase todas compareceram, umas vindo de longe. Vendo o vídeo me deparei com algumas professoras que me ajudaram em Bicas, outras não me lembrava e pedi ajuda a uma amiga… Sempre fui saudosista, não nego, fiquei emocionado com a imagem do prédio da escola e dos professores das formandas.

Mas, o que mais achei legal foi a alegria das alunas de outrora matando a saudade num encontro que durou perto de oito horas. Devem ter saído de lá roucas. Parabéns a todas as professoras que tiveram papel importante na instrução de várias gerações biquenses e em outras cidades também… Bicas normalizando. 

(Veja o vídeo na Coluna do Zé Arnaldo desta quinta-feira, dia 25)