Sobrevida


Nessas alturas do campeonato, a sabedoria passa a ser uma companheira fiel. Tudo passa a ser analisado com mais calma… e os exemplos que a vida te deu.
Quem não quer viver igual a Rainha Elizabeth II, que morreu aos noventa e seis anos, lúcida e ativa, amada pelo seu povo e que deixa um legado de prosperidade?

O idoso que se preze tem que tomar algum tipo de medicamento, tem que saber o nome dos remédios e comentar com seus amigos, idosos também, que toma valsartana, glifage, rosuvastatina… exames de sangue, tomografias, stents etc… senão você não é um idoso normal.

A Rainha tomava seus remedinhos, mesmo tendo sangue azul, e conseguiu uma boa sobrevida. Já vi gente dizendo: “De que adianta levar uma vida saudável, com atividade física e comidas isentas de praticamente tudo, e morrer com 100 anos?”

Como disse a Rita Lee: “Envelhecer não é pra maricas, não”. A luta é continua, um dia de cada vez…

Logicamente, sua cabeça não envelhece… só que não dá pra sair tomando todas e comendo tudo de uma vez como antigamente, mas dá pra provar algumas bebidinhas e guloseimas com parcimônia.

Dia desses encarei uma lager estupidamente gelada e um lombo de porco com batatas no forno a lenha… Desceu bem, na quantidade certa, ou seja, uma long neck e uns 150g do lombo. Ainda sobrou espaço pra uma goiabada cascão com queijo da Canastra!

Antigamente, antes de virar idoso, o papo era outro: a cerveja era um fardo e a comida acabava naquele momento…

Alguém já me disse que morrer com saúde é coisa de gente que passou pela vida e não viu ela passar, não viveu com a intensidade que uma vida merece, tipo: você nasce, cresce, fica bobo e casa…

Confesso que extrapolei em alguns momentos, porém faltou orientação, faltou andar com pessoas mais equilibradas e não com más companhias. Aliás, sempre tive boas companhias e de pessoas com boas intenções, só que sempre na contramão.

Mas, se você não leva umas trombadas, acaba não aprendendo nada e não consegue tirar suas próprias conclusões!

Imagina um caboclo que acredita numa utopia durante 13 anos, aparelhado, com lavagem cerebral? Quando fica sem o pixuleco, ao invés de aprender, quer voltar na cena do crime… Isso é demência!

Tá ficando idoso, tendo uma sobrevida sem nenhuma perspectiva real, vai sonhar até o quinto dos infernos!!!

Mas, muita coisa ainda pode acontecer nessa sobrevida. Eu, quando descobri que o bicho pegou e que a solução era radical ou o fim, chorei e revi toda minha existência em menos de 1 minuto; porém, o médico que vem me tratando disse uma coisa que me animou muito: Após a cirurgia te garanto uma sobrevida de pelo menos 5 anos…

Era tudo que eu precisava ouvir naquela hora, internado, com a família ao lado aflita e com o astral oscilando pra baixo sem margem de erro, derrotado antes do primeiro turno, como diria o Fiuza.

Passados alguns meses, vivendo um dia de cada vez, e no lucro, comentei com um amigo, de ascendência libanesa, ou seja, com grande faro pros negócios, sobre a  sobrevida, e ele logo me deu a dica:  “Assim que tiver faltando menos de um mês pra acabar os 5 anos, corre lá e pede uma prorrogação, pede mais um tempo…”

Moral da história: a sobrevida é uma caixinha de surpresas!

O gibi


As
histórias em quadrinhos no Brasil (também chamadas de HQsgibisrevistinhas, ou historietas) começaram a ser publicadas no século XIX, adotando um estilo satírico conhecido como cartuns, charges e caricaturas e que depois se estabeleceria com as populares tiras. A edição de revistas próprias de histórias em quadrinhos no país começou no início do século XX.

Eu desde muito novo fui apresentado aos quadrinhos e me tornei um aficionado. A principio minhas revistas favoritas eram O Fantasma (Caverna da Caveira, 400 anos, pigmeus Bandar, Patrulha da Floresta, Diana, Capeto e Héroi, muita ação, etc.) e  Mandrake (mágico, hipnotismo em massa, Narda, Lothar, aventuras mirabolantes, etc.).

O Superman (Kriptonita e Clark Kent), Flash Gordon (espacial com muita ficção e aparelhos que viriam a ser inventados anos depois) e o Batman (Caverna do Morcego, Batmóvel, Coringa, Pinguim e Charada) também tinham seu lugar.

Também era febre os quadrinhos do Walt Disney com o Tio Patinhas, o Mickey, o Pato Donald, mais os Irmãos Metralha, o João Bafo de Onça, o Professor Pardal e até o Zé Carioca.

Nessa época tudo era novidade e alguns quadrinhos europeus também apareciam por aqui como o Bolinha (Luluzinha), Hagar e Os Sobrinhos do Capitão.

No Brasil surgia o grande Maurício de Souza e A Turma da Monica (Cebolinha, Bidu, Magali, Cascão…). Até o Ziraldo andou se aventurando nessa área com vários personagens a partir do Menino Maluquinho.

Nos jornais, principalmente, no Caderno B do JB, e no Segundo Caderno de O Globo, haviam sempre as tirinhas do Fantasma, Mandrake, Brucutu, Família Buscapé, Príncipe Valente, Batman, Superman, etc.

Tempos depois surgiu a revista do Homem Aranha que impactou bastante junto com o Capitão América, Hulk e outros dessa fase.

Teve uma época que eu só lia Tex, um faroeste mais adolescente e mais complexo. Os criadores são italianos e as histórias muito bem elaboradas, além dos  desenhos impecáveis. No mesmo padrão, o Zagor, com aventuras no Canadá.

Cada hora aparecia alguma coisa nova e foi assim que conheci O Asterix e o Obelix. Goscinny e Uderzo seus criadores, franceses, não pouparam esforços pra nos brindar com esses gauleses malucos que tomavam uma poção mágica preparada pelo Druída (uma espécie de Merlin do Rei Arthur) e passavam a ter uma força descomunal.

Esses gauleses, antepassados dos franceses, viviam as turras com império romano com ótimas histórias, relembrando com muito humor essa época, sempre parodiando os italianos e os desenhos fenomenais. Aliás bota fenomenal nisso!!!

A pequena aldeia Gaulesa era intransponível e César não conseguia dominá-la. A única coisa que deixa Abracurcix (o chefe da aldeia)  acovardado é o medo do céu cair sobre a sua cabeça.

Obelix, fabricante de menires, amigo do Asterix e comedor de javalis inteiros, tem um cachorrinho, Ideafix, que não deixa ninguém maltratar as florestas…

Um brasileiro que também começou nas tirinhas, muito criativo com quadrinhos mais adultos, foi o Angeli e seus personagens urbanóides e sensacionais (Rê Bordosa, Bob Cuspe, Skrotinhos, Wood & Stock).

Alguns colecionadores e adoradores de gibis que conheci tinham centenas de revistas e raridades. Convivi com três desses “viciados”, porém discretos leitores de quadrinhos:  Frank Granado (advogado e grande orador dos encontros anuais na redação de O Município, nas dependências do belíssimo sobrado da família Machado Veiga), Ério Silva (advogado, tabelião e colecionador de relógios e armas, restaurador do Clube Biquense) e Elcio Granado (Lanchonete Elgran, das vitaminas e  produtor do melhor suco de laranja batido no liquidificador da região. Sua lanchonete era o point da cidade. Anos depois abriu outra lanchonete – Elvana – em frente a original, que viria a se tornar o maior fenômeno da night biquense: O Bar do Jorjão!).

Até hoje ainda leio esses quadrinhos e  guardo alguns de lembrança.

Os anos passam rápidos…

A trilha

Algum tempo atrás, eu gostava de andar, principalmente, em locais afastados dos grandes centros. Nada de carros e concreto e tudo de árvores e ar puro.

Em Bicas, comecei com a tradicional caminhada Bicas-Guarará, passando pela Rua da Caixa, a divisa entre as cidades, que são unidas no bairro São Paulo (conurbação social), depois a Ponte Seca e o Mundo Novo, até a Praça Afonso Leite. Mais ou menos 6 km, ida e volta.

Outra caminhada era pela Saracura, seguindo o Ribeirão São José, estrada de chão, até encontrar a BR-267 e voltar pela Cutieira. Mais ou menos 15 km.

O Parque Florestal ou Horto também era facilmente “caminhado”, apesar do subidão, o visual no ponto mais alto é compensador.

Nessa época, Zé Frau e eu queríamos incrementar o parque com novas árvores e fomos buscar ajuda no Rio, mais precisamente no Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico RJ e conseguimos muitas dicas e sementes de várias espécies, doados pelos botânicos daquela instituição.

Só a ida as instalações desse instituto de botânica, entrada pela Rua Pacheco Leão já foi uma experiência única. Os técnicos disponibilizaram um servidor só pra mostrar como coletava as sementes das árvores… muito legal.

De volta a Bicas, foram plantadas mais de mil mudas produzidas dessas sementes nas áreas do parque; porém, poucas vingaram, por falta de cuidados básicos…

Já fiz Maripá-Bicas, via estrada de chão. São Manoel-Santa Helena, pela crista dos morros e retorno pela MG-126. Depois Água Santa, via campo do Leopoldina. O visual, como diria o Cooperfield, é de cinema!

Outro trajeto incrível foi desbravado do Campo do Leopoldina, até a MG-126, na Serra de Bicas pra São João Nepomuceno, no meio do mato e mais de 15km…

Nessa época virei um “treikeiro” solitário e vivia em função de caminha e andar sempre.

A saúde estava ótima e o alto astral que essas andanças proporcionam não tem explicação.

Fui parar em Visconde de Mauá: lugar mágico, Serra da Mantiqueira, antro de trilheiros, rockeiros e outros bichos. Eu tinha uma camiseta da “Bicho do Mato”, uma grife de Penedo e escutava sem parar a música de mesmo nome, da incrível banda Som Nosso de Cada Dia, do disco “Snegs”.

Mauá, as duas Maringás (de Minas e do Rio, separadas pelo sensacional e despoluído Rio Preto), Alcantilado, Maromba, Santa Clara, Escorrega e etc é muito bom!

Trutas com pinhão, lareira e cachoeiras. Nessa época, tentei subir na Pedra Selada, levando a família junto, só que a turma abriu o bico e voltamos quando a subida ficou mais difícil e adentrou pela mata. Vale a pena ir. A trilha começa numa fazenda no pé da serra, é bem sinalizada, e paga pra entrar. Dizem que lá do alto o visual é fora do comum…

Também, aventurei-me na trilha da Pedra do Baú, em Campos do Jordão, via Horto Florestal, úcom alto nível de consciência ecológica, super sinalizado (coisa de paulista), imperdível e em Monte Verde (Sapucaia). Tudo na Serra da Mantiqueira.

Ibitipoca: cachoeiras dos Macacos (indo por baixo e voltando por cima), Lagos dos Espelhos…

E a Serra da Bocaina, região de Trindade, praias paradisíacas… Paraty?
Não posso esquecer da Ilha Grande e a trilha no meio da mata atlântica para a praia de Lopes Mendes, uma das mais lindas do planeta.

Nem deixar passar a Ilha de Itacuruçá, região de Mangaratiba RJ, trilhas, mata atlântica e muita comida…

Passava horas sonhando em morar no Rio só pra desfrutar as trilhas incríveis da Floresta da Tijuca.

Na Serra dos Órgãos, Teresópolis/Petrópolis/Guapimirim, caminhei um belo trecho em direção a Pedra do Sino; porém, mais uma vez não completei… Acho que o meu negócio era ir e depois desfrutar da gastronomia local, logicamente, regado as cervejas e vinhos.

Como diria meu sogro: um bon vivant.

Em Diamantina também andei me aventurado na Estrada de Escravos, na cachoeira Sentinela (música do Milton), na nascente do Rio Jequitinhonha e em Biribiri, um distrito no meio do nada, na Serra do Espinhaço, além de um bate-e-volta no Serro. Show.

Uma das trilhas mais incríveis que pude desfrutar foi em Tiradentes, na Serra de São José. Nessa trilha, Vitória e eu estávamos em plena forma e da Pousada Mãe d’Agua até os poços no alto da Serra foi uma bela caminhada, uns 15km mais ou menos. À noite, degustando os sabores da Traga a Luz, um garçom disse que essa trilha era maldita e que pessoas eram assaltadas por moradores da mata. Comigo correu tudo bem. Valeu muito. Águas cristalinas, mata nativa, ar puro, adrenalina e muita vontade de virar um Bicho do Mato!

Bons tempos!

Sob nova administração

Meu corpo suportou magnificamente até os 60 anos, mesmo levando todo tipo intempéries que a vida meia desregrada me proporcionou.

Foram anos de andanças com altos e baixos, cada dia numa situação, conflitos e vitórias, comemorações e frustrações.

Acredito que um rapaz latino americano assim como eu vai bem até meados dos sessenta anos, sob a mesma administração, ou seja, muito cigarro até os 45, alimentação rica em proteínas, colesterol e carboidratos, além é claro dos 3 tipos prediletos de bebida alcoólica: nacionais, importadas e falsificadas.

Aprendi a tomar cangibrina em BH nos anos 70/80 e fui iniciado com as deliciosas cachaças do Norte de Minas (acima de Montes Claros). O terror dessa região produz canas dentro do polígono das secas e o grau de açúcar é incomparável… 

Bem, voltando ao estado atual, essa vida me proporcionou momentos de extrema felicidade e aprendizagem, pois o conhecimento está justamente nos locais mais inusitados. Exemplo: comer uma moqueca de surubim debaixo da barragem de Três Marias (MG) ou um bacalhau no Portugália, no Largo do Machado (RJ).

Nisso os anos vão passando, algumas pendências resolvidas, a vida profissional, quando realizada de forma honesta, te deixa muito bem visto dentro do mercado, os filhos crescem e te apoiam cada vez mais, ou melhor: a estabilidade, apesar de tênue, finalmente chegou!

Nessas alturas, depois de mil malabarismos, mudanças de endereço e apertos financeiros, a minha opção principal passou a ser viajar! Pode ter muita coisa igual; porém, melhor não existe!

Sempre falo pra minha família e meus amigos: “Se você tem mobilidade, saia e vai conhecer outros lugares!”

Minas tem 3 lugares imperdíveis: Diamantina, Ouro Preto e Tiradentes. Uma ida nesses lugares e você volta cheio de energia. É carga de bateria na veia.

A Europa sempre foi meu sonho de consumo. Atualmente, está meio caro, mas com alguma poupança e programação, dá pra ir e passar momentos fantásticos.

Hoje, aos 67 anos, a saúde vem dando sinais de desgaste e já não consigo me deslocar com a facilidade dos 60. Venho lutando com a ajuda da “patroa”, das filhas, amigos e também da medicina atual que evoluiu e que me deu uma sobrevida…

Essa fase, considero sob nova administração, pois não faço nenhum movimento sem a permissão dos srs. cardiologistas, oncologistas e, principalmente, do cirurgião do aparelho digestivo, Dr. Luiz Henrique Borsato, que agora cuida de mim no dia a dia.

Quando conheci o Dr. Borsato lhe disse: “O Sr. cuidou do Capitão, e o Brasil está sob nova administração, quero a mesma coisa pra minha vida!”

Tô no lucro!!!

Por enquanto, estou indo muito bem!

A primeira vez a gente nunca esquece

Entrei num avião pela primeira vez quando fui de BH (aeroporto da Pampulha) pra Montes Claros. Era um boeing da Varig e eu, marinheiro iniciante, trabalhava no CETEC (Fundação Centro Tecnológico de MG), como engenheiro do extinto BNH (Banco Nacional de Habitação), fiscalizando obras de saneamento no Norte de Minas.

A sensação de estar flutuando acima das nuvens e depois ao aterrissar não dá pra descrever. O coração acelera e a adrenalina toma conta! Era 1981 e, de repente, com pouco tempo de formado eu estaria além do voo conhecendo cidades maravilhosas de Minas situadas numa região oposta a minha, a Zona da Mata. Cidades como Mirabela (terra da carne de sol), São Francisco (na beira do Rio), Brasília de Minas, Januária (atravessando de balsa), Itacarambi, Manga (balsa novamente), Espinosa (no cocuruto do estado divisa com a Bahia), Monte Azul, Porteirinha e Janaúba…tudo estrada de chão… cada retão de perder de vista!!!

Lá, naquelas bandas, é tudo plano, é plantação de algodão e pastos bem cuidados abarrotados de gado nelore branquinho. Muitas carvoeiras também e a comida sensacional. Fiz esse trajeto por 13 vezes e sempre dormia em Montes Claros na primeira e na última noite. Logicamente o almoço era na Cantina do Nelson, que servia uma moqueca de surubim com camarões generosos e uma salada magnifica. Claro, regada a Antártica de Pirapora e, como ninguém é de ferro, uma ou duas talagadas de Havana ou Lua Cheia de Salinas.

A segunda parada era em Januária… Beirada do Rio São Francisco e hotel no centro histórico com casario igual ao de Ouro Preto. No calçadão, ao lado rio, arborizado, ficava o meu restaurante predileto e o hotel. A pedida era sempre a mesma: surubim grelhado na brasa e Antártica de Pirapora…O garçom, nas últimas visitas, já me conhecia e trazia logo uma estupidamente gelada. O clima naquelas bandas pede 35º na sombra, e a primeira garrafa descia em segundos.

Meu serviço era conferir as medições das empreiteiras que executavam captações de água, estações de tratamento, reservatórios, elevatórias e redes de distribuição. Em algumas cidades também tinham obras de de esgotamento sanitário e de drenagem (águas pluviais). Nesse ínterim aprendi coisas que a escola de engenharia nem mencionava, além de conviver com verdadeiros papas da hidráulica e do saneamento básico do estado de Minas. Dia seguinte, Manga e Matias Cardoso (nessa localidade uma igreja majestosa em ruína lindíssima ainda resistia ao descaso), em pleno Vale do Jaíba, área irrigada e de altíssimo potencial do agronegócio.

Dali se pegava uma estrada sem fim pra Espinosa, com retas a sumir de vista, chão batido e pé no acelerador do fusca da empresa de apoio do BNH. Dava pra rodar a 100km/h sem medo, só retonas, estrada larga e sem buracos. De um lado, terras indígenas; do outro, barrigudas e nelores. Numa dessas vezes cheguei a quase atolar no pó da estrada…

Espinosa, na divisa com a Bahia, era outra cidade a visitar e pra dormir. Geralmente eu jantava um bifão de nelore com fritas e depois apagava no hotel mesmo pensando no barbeiro, mosquito (Trypanosoma Cruzi) transmissor da Doença de Chagas. Nesse tempo, todos os dias um avião jogava veneno BHC… veneno pra matar o mosquito (hoje esse veneno é proibido pois matava o mosquito e poluía as lavouras), e o cheiro ficava no ar por várias horas…

Dia seguinte: Monte Azul com seu monte azul lindo ao fundo, Porteirinha e Janaúba. Em Janúba, a última dormida. Todo mundo de bicicleta pois a cidade é tão plana que o reservatório é um elevado que a gente vê de qualquer ponto do mapa. A comida ótima ou surubim ou nelore na chapa com farofa de dendê…show!

De novo em Montes Claros, tempo livre, o jeito era ir no mercado municipal. Produtos regionais de cair o queixo: pimenta malagueta, pinga de Salinas e carne de sol de Mirabela (cortes de nelore)… Foi numa dessas que quase me dei mal. Comprei tudo que tinha direito, enrolei a garrafa de pimenta malagueta na roupa suja e despachei no aeroporto.

Chegando a BH, fui pra esteira, quando vejo um grupo de passageiros reclamando o cheiro de pimenta e malas sujas pra todo lado… Um absurdo! Chamem o responsável da Varig! Minha mala tá toda lambuzada…!

Sorrateiramente, peguei minha bolsa, dei uma de esperto, saí reclamando, peguei o primeiro táxi e sumi dali.

Moral da história: Pimenta nos olhos dos outros é colírio!

O lixo

Sempre fui leitor do O Globo e telespectador da TV de mesmo nome até que notei que o negócio dos Marinho’s sempre foi meramente mercantilista.

Berço de grandes cronistas e articulistas, essa mídia já abrigou figuras como Nelson Rodrigues, que escrevia coisas como o Sobrenatural de Almeida (tricolor apaixonado) a Toda Nudez Será Castigada. Nessa época, Pedro Almodóvar, cineasta espanhol espetacular (transforma pequenas e ingênuas situações em fantásticos filmes com desfechos surpreendentes), era garoto e no Brasil tínhamos o inesquecível e grande (mais de 1,90m de altura), ARNALDO JABOR!

Esse caboclo, que tive a felicidade de encontrar rapidamente no metrô do Rio, na estação Jardim Oceânico (Barra da Tijuca), e trocar algumas palavras, transportou para o cinema, de forma magistral, vários contos e resenhas do Nelson Rodrigues.

Foi nesse filme que conheci a música de Astor Piazzolla, Adiós Nonino. Logo depois catapultou a carreira da talentosa Fernanda Torres, apresentando-a em Cannes…

Daí em diante, Arnaldo além de outros filmes, passou a ser escritor de crônicas, articulista e comentarista de telejornais. Show de bola… Suas aparições, com aquele olhar hipnotizante, sempre foram certeiras. O nível do linguajar empregado por ele, onde a língua portuguesa era formulada de forma brilhante e contundente, me deixava estupefato.

Que facilidade, que cultura e sensatez!

Porém seu posicionamento político não agradava a mídia, o consórcio e logo o puseram em stand by

Só que ele sempre foi independente, sempre teve opinião própria, assim como o Augusto Nunes (Jovem Pan) e o Guzzo (ex-Veja) e continuou até o fim.

A esquerda sentiu-se aliviada com o seu falecimento, pois não sabia como retrucar uma mente tão lúcida e transparente que execrava a Venezuela, Cuba, Nicarágua e outros excrementos governados por ditadores ricos, escrotos e sanguinolentos.

Pois bem, hoje segundos após a pandemia (que parece estar com dias contados já que estão voltando a falar do Aedes), essa emissora, que perdeu muita audiência, que deve ao fisco e que gera fake news em escala cavalar, está sem assunto. A CPI da covid foi engolida pela falta de credibilidade de seus criadores fajutos (Renan, Azzis, Randolfe e outros dejetos), tentaram com artistas (dependentes da Rouanet), depoimentos forjados de militantes e ativistas do malfadado e carta marcada do STF, denegrir a imagem do Presidente Jair Messias Bolsonaro, só porque o Capitão é a favor de coisas boas para o Brasil, coisas boas pro povo trabalhador, melhorias várias dos entraves e custo Brasil e principalmente a estanqueidade da roubalheira e corrupção implantados pela facção criminosa, que vem detonando e sangrando o tesouro nacional.

Esqueçam tudo. Agora vamos falar da guerra da Ucrânia, vamos falar da alta dos preços por causa da guerra, vamos falar mal do agronegócio (nossa maior riqueza), vamos mostrar as pesquisas mais que duvidosas da corrida presidencial.

Misture bem, coloque uns militantes articulados pra elucubrar conspirações internacionais, torne sensacional a falta do potássio Russo e bote a culpa no Mito…

Enquanto isso, o Molusco (analfabeto funcional) vai conseguindo na justiça o perdão jurídico dos crimes cometidos e comprovados de apropriação indébita de valores incalculáveis, surrupiados da nação.

Haja garis pra tanto lixo!

Na década de 1970

Na década de 1970 passei os melhores momentos da vida! Comecei com 15 anos e terminei com 25 anos. O auge da saúde e das descobertas…

Terminei o ginasial (no lendário Chico Peres – Bicas) e adentrei no mais lendário ainda 5 e 50 da Viação Santos (recém-adquirida pela Bassamar) para cursar o que era chamado de “científico” em JF, no Colégio dos Jesuítas.

A base adquirida no ginasial em Bicas mais o alto de grau de indisciplina desse que vos fala foi fundamental pra tomar dois paus e deixar meus pais com a pulga atrás da orelha: Será que esse menino tem concerto?

Então fui rematriculado no outro lendário Colégio São José, que também ficou conhecido como papai pagou filhinho passou (PPFP). Era tudo que eu precisava: só tirava notão, zoava sem parar e conheci várias figuras de JF e região, folclóricas e carismáticas que me viram e conviveram os mesmos sonhos dos anos 70.

O terceiro e último ano do científico fui fazer na Academia de Comércio, quer dizer: rodei por alguns dos melhores colégios daquela época.

Nesse momento a melhor coisa era “azarar as minas“, ou melhor: paquerar, namorar e pra isso no intervalo ou recreio íamos de carro ver as garotas dos outros colégios: Stela, Granbery e Magister.

O som predileto, além dos Beatles, era o rock inglês chamado progressivo. De altíssima qualidade é o que escuto muito até os dias atuais.

Muito magro, cabeludo e barbudo, atravessei uma fase meio bicho grilo com calça pata de elefante e chinelo de sola de caminhão; porém, no científico integrado com cursinho, e a mulherada que chovia no pedaço, fui adquirindo outra silhueta: calça Lee boca fina e camisa Hang Ten

Lembro do dia que cheguei no CAVE com essa indumentária e a galera me observando de rabo de olho. Todo mundo era bicho grilo e cocota, a onda de calça boca fina chocou e a camisa hang ten ainda era um artigo só encontrada no Rio.

Passei no tão sonhado vestibular, fui morar na capital (BH), conheci a minha futura esposa, me formei em 1980 e desfrutei de uma Belo Horizonte que ainda não era tão metrópole mas já era linda: Savassi, Carmo, Sion, Sta. Tereza, Cidade Nova, Centro, Mercado Municipal, Mineirão com o Atlético de Reinaldo e Cerezo, Bar do Bolão, CTI na Savassi com o filé à moda do chefe (uma bola de filé recheada com queijo canastra), Alto da Mangabeiras, Gutierrez, Contagem, Betim, Pampulha, Praça Sete, Casa do Uísque, Ângelo…

Nesse ínterim a vida vai passando, amigos vão ficando e as fases mais felizes voam e só agora é que a gente percebe.

De uma coisa eu levo disso tudo: faria tudo de novo com a mesma intensidade!

Calouros & veteranos

Na época dos vestibulares, o funil pra ingressar nas universidades ocorreu nas décadas de 1960, 1970 e 1980, mais ou menos.

Os cursinhos proliferavam e quem não tinha condições de frequentar um era praticamente eliminado antes das provas.

Lembro que grandes cursinhos pré-vestibulares eram capazes de “garimpar” escolas públicas atrás de gênios escolares (hoje nerds) e bancarem tudo pro caboclo de alto QI e tê-los entre os matriculados e catapultá-los para os primeiros lugares de Medicina, Engenharia ou Odonto, tempo que cursei o CAVE em JF, com um quadro de professores de altíssimo nível e conhecimento do assunto.

O curso de Direito não era tão procurado e hoje sabemos que é o mais bem remunerado…

A maratona em horas-aula e carga de conhecimento vinha condensada em apostilas repletas de dicas e bizus, formas de decoreba e até como colar sem ser notado…

Os pais faziam qualquer coisa para ver seu lindo rebento adentrar em uma universidade pública. Aquela candura de menino cabeludo, com rock na cabeça dia e noite e roupas desbotadas, iria pra outro patamar. Era como ganhar na loteria.

Passado o tão espremido vestibular… quem passou passou… quem ficou, mais um ano de cursinho ou tentar alguma faculdade que tinha vestibular no meio do ano. Eu caí numa dessas quando fui fazer um tour, digo um vestibular em Ouro Preto, considerada uma das mais exigentes universidades do estado. Tirei de letra, uma semana de embalos e eliminado categoricamente. Ainda bem que meu pai estava de bom humor e sacou que tudo não passava de armação adolescente…

Finalmente consegui no ano seguinte e virei calouro, ou seja: eu era um ser meio perdido curtindo cada segundo da adolescência dos anos 1970 e agora ingressava finalmente na tão sonhada faculdade pra fazer, sem teste vocacional, o curso de Engenharia Civil!

De cara você tem que se virar com a quantidade de documentos existentes no Brasil. Só não pediram o passaporte vacinal porque naquele momento a Rede Chorume de TV estava com os militares…

Nesse instante senti na pele o que era ser um calouro, ou seja: um bicho grilo na mão dos Veteranos!

O primeiro dia de aula era uma sacanagem sem fim. Éramos amontoados em um canto da faculdade e convidados a fazer as mais variadas barbáries e humilhações sob os olhares vorazes dos antigos, que também haviam passado por isso.

Cabelo pintado, picotado, roupas detonadas, descalço, arrumando dinheiro na rua pra pagar o chope dos veteranos… e tudo sob a conivência dos diretores. Nessa época as brincadeiras eram mais saudáveis e a integridade física não sofria tanto.

O Brasil não sabia o que era esse sentimento de ódio criado pelo PT e seus aparelhados. As universidades já estavam abarrotadas de bichos grilos com a camisa de Che Guevara, porém essa tchurma só conseguia vaga em História, Filosofia, Comunicação e outras modalidades em que professores e alunos tinham o mesmo perfil: Idolatria por Karl Marx e “irc” de produção!

A partir daí, até os trotes foram sendo patrulhados por essa gente. O politicamente correto foi-se infiltrando na sociedade até chegar aos dias de hoje, onde a mídia, assim como já previa George Orwell, em 1948, iria monitorar todos através da TV e câmeras de vídeo espalhadas por todo o planeta!

Passado meu período de calouro, passei a ser veterano no ano seguinte, mas ainda recebia ordens de veteranos do terceiro, quarto e quinto anos. Virei um tipo Recruta Zero, só que sem a pecha de calouro bocó do primeiro ano.

Hoje tudo mudou… os trotes foram sendo terceirizados, violentos e estão proibidos em várias universidades. Uma lástima, pois era uma tradição, era aceitável, sem ódio e sem divisão entre ideologias!

Vá de trem

Minha mãe sempre me dizia: ” O que se leva dessa vida é a vida que se leva”

E não é que é isso mesmo? Morreu e fim. Pode ser milionário, pode ser proprietário, pode ser otário ou proletário. Não vai levar nada…

Dizem que em uma família de libaneses quando o patriarca morreu os filhos colocaram dinheiro no caixão como forma de agradecer o pai… O filho mais velho depois que todos colocaram a grana no ataúde recolheu o montante, somou os valores, enfiou tudo no seu próprio bolso e fez um cheque com o triplo da quantia amealhada, nominal e cruzado ao moribundo…

Acho que coisa boa pra levar dessa vida são as viagens de trem que comecei cedo, fazendo o trajeto na Estrada de Ferro Leopoldina, Bicas- Pequeri. Tempos depois encarei uma Vitória-Minas, da Cia Vale do Rio Doce.

Foram 19 horas iniciadas em BH, na linda estação central CVRD, saindo por por volta das 20 horas em trens com poltronas e restaurante. Isso foi nos anos 70, e a paisagem beirando o Rio Doce ficou na memória até a tragédia do rompimento da barragem… Dizem que a Vale vem recuperando tudo. Tomara!

Depois Tiradentes-São João del Rei, metrô do Rio, metrô de SP, trenzinho do Corcovado, metro de Buenos Aires, metro de Santiago (fui parar dentro de uma vinícola)…

Bem, aí fui conhecer parte do Velho Continente, meu principal sonho de consumo, minha obsessão!

Quando conheci o Underground de Londres e o Metropolitain de Paris comecei a entender o que é qualidade de vida, conforto e segurança. As linhas de metrô e trens dessas cidades são como teia de aranha, vão pra todo canto, passam sob o Tâmisa, sob o Sena, sob o Canal da Mancha… Dá vontade de ficar o dia todo, a semana toda, o ano todo, conhecendo as estações, quebradas, bairros em cada parada! Você não precisa de carro, basta um mapinha na mão e vontade de girar. Os passes não são caros e tem de todo tipo: diário, semanal, mensal.

O melhor do metrô da Europa é que tudo está interligado. Trem pra todo lugar. Já fui de Amsterdan pra Brugges passando por Bruxelas e voltei no mesmo dia. Velocidade = 290km/h, flutuando, internet, bar…

De Madrid pra Barcelona a 300km/h é fantástica e dura 3 horas. Barcelona além de linda moderna medieval tem também um fantástico traçado de trens e estações tipo a que me levou em Mont Serrat, um mosteiro situado nas alturas que subi em trens com cremalheira.

Em Portugal, fiz Lisboa-Sintra, Lisboa-Cascais e Porto-Guimarães, fora o metrô de Lisboa, ainda pequeno; porém,  muito confortável.

Na República Tcheca, mais precisamente em Praga, o sistema é recheado de Leves Sobre Trilho, assim como Berlim e Amsterdan (que ainda é entrecortada por canais navegáveis e incríveis).

De Praga pra Berlim, o trem vai beirando o Rio Elba, e as paisagens são de cinema, locais de sonhos.

Deixei a Itália pro final, mesmo não sendo o último destino, porque fizemos tudo de trem e com passes comprados aqui antes da viagem.

Roma-Positano, parte em trem parte na estrada mais linda que já passei beirando o Mediterrâneo nas alturas, penhascos, curvas de 360 graus, vilas, barcos…

Nápolis-Pompeia, trem local lento e panorâmico, Vesúvio, cidade petrificada…

Nápoles-Firenze, Toscana, Da Vinci, Dante Alighieri, Michelangelo, Galeria Uffizi,…

Firenze-San Giminiano, cidades medievais, vinhos pontuados na esquina, muros e torres, comida de babar, bisteca Fiorentina, ossobuco…

Firenze-Siena, cidade do Palio (corrida de cavalos entre famílias, tradição de mil anos…).  Firenze-Pisa, torre inclinada, Piazza der Miracoli.

Finalizando pro retorno Firenze-Roma.

Com a cara e a coragem em 16 dias intensos e que levo na memória pra sempre.

Se for não pense duas vezes: Vá de trem!!!

Essa crônica é pro Dr. Ricardo (amante dos trens).

Naquele tempo

O tempo vai passando e nossa memória começa a falhar pra fatos recentes e lembranças do passado voltam com mais nitidez.

Eu sou do tempo do Cine São José. Naqueles tempos aos domingos tinha matinê, sessão das 18h30 e sessão das 21h.

Primeiro a missa obrigatória semanal pra poder ir na sessão das 18h30…

A concentração da galera, da rapaziada, era em frente ao Bicas Bar, ao Cinema e no Tabuleiro da Baiana. O fluxo de carros era pequeno, a estrada pra São João Nepomuceno era de chão… O trem ainda estava a todo vapor e as oficinas também.

Tinha a Fábrica de Calçados Almirante, da família Curzio, com muitos funcionários, que chegavam as 7 horas, com os apitos da Leopoldina e as sirenes da fábrica. Na hora do almoço, o movimento era intenso em frente a minha casa, na Sapataria Zélia.

Meu pai recebia os pedidos, os sapatos, via trens… meu tio Felício Rebouças era o chefe da estação.

Naqueles tempos, a Praça São José estava sendo remodelada com espelho d’água e seu entorno era de terra batida…

Passados alguns anos e lá estava eu, na puberdade, aprendendo coisas na rua, depois da missa esperando a sessão das 18h30. As “meninas” vestiam suas melhores roupas, sempre acompanhadas de irmãs mais velhas e os namoros eram escondidos dos pais, pelo menos enquanto não começava a sessão.

O esquema era o seguinte: as minas entravam primeiro, lá nas filas do gargarejo, e sentavam juntas. Assim que apagavam as luzes elas mudavam a configuração, saltando uma cadeira pro’s meninos sentarem. Era ensaiado e todo mundo já sabia o que fazer. Não havia tempo a perder.

Naquele tempo, a coisa era demorada. Pra “pegar na mão da mina” durava quase um filme inteiro; porém, quem conseguia sabia que o beijo estava próximo ou seria no próximo domingo…

A turma da sessão das 21h já ia bem mais adiantada, já adentrava no Cine São José de mãos dadas e o amasso era inevitável, só terminando no portão da casa da namorada.

Quem conseguia chegar na varanda estava com os dias contados e coisas mais íntimas rolava com “consentimento” dos pais.

Esse “esquema” perdurou por muitos anos, até que a televisão foi revirando os conceitos e preconceitos… a mulheres foram se emancipando e os cinemas definhando.

Naqueles tempos, o caboclo que “pegava na mão” na primeira sessão era celebrado durante a semana como um dom Juan e virava celebridade até que outro provava que já tava beijando… na boca!!!

Nos dias de hoje a coisa mudou muito. No primeiro encontro o sexo rola normal e sem compromisso. Namoro na varanda passou pro quarto e cinema é no sofá da casa da sogra e a sessão é das 24h em diante…

Bons tempos!