Um causo à parte / Memórias / Remédio caseiro

Remédio caseiro

Minha mãe me chamou lá da horta para eu mostrar o meu machucado para a sua comadre Luzia que estava do outro lado da cerca. Passei mancando pelos canteiros. O de couve manteiga estava verdinho e com as folhas enormes… o de alface nem te conto…

Dona Ana, mostrou o meu pé e disse que eu tinha pisado num estrepe e que o machucado zangou. Luzia, por um buraco da cerca, calmamente, passou a mão sentiu que estava quente e falou: “Vou fazer uma infusão e darei para você se banhar”.

Olhou também para a minha nuca e notou que o emplastro de fumo com azeite e açafrão que ela colocou tinha dado resultado, pois no local da impigem o cabelo estava nascendo… Voltei e vi a parreira de chuchu lotada.

Modéstia à parte, meu pai cuidava bem lá de casa. As duas comadres continuaram o colóquio e eu fiquei esperando o tal banho de guiné com alfavaca que, segundo Dona Luzia,
não só ia desinflamar, como também o estrepe ia pular fora…

Bicas medicamentosa.

Um causo à parte / Memórias / Histórias Quentes

Histórias Quentes

Nas noites de inverno, era comum, antes de irmos para a cama, acomodarmos à beira do fogão à lenha para ouvir histórias. As de assombrações eram as nossas preferidas. Meu pai caprichava no enredo, sempre pedindo confirmação para a minha mãe… que anuía.

Sr. João era bom contador, sabia nos prender com aquela fala mansa… A Mula sem Cabeça soltava fogo pelas ventas, destruindo tudo que estava à sua frente e não adiantava querer saber onde ficavam suas ventas.

O Saci Pererê passava assobiando com o cachimbo na boca, pulando na garupa do cavalo e trançando suas crinas. Tinha também aquela mulher vestida de branco que arrastava correntes no casarão abandonado…

Minha irmã ficava com os olhos arregalados, eu me encostava em minha mãe. Os outros irmãos se fingiam de durões, mas quando iam para a cama não queriam que apagasse a luz do corredor.

Eu nem me hesitava em cobrir a cabeça e ficar sem mexer até dormir. Nossas noites eram quase sempre assim. O rádio saía logo do ar, não existia televisão, os mais velhos, às vezes, liam algo. Mas o bom mesmo era ficar à beira do fogão curtindo aquele medo.

Bicas Fantasmagórica.

Um causo à parte / Memórias / Amistosa pelada

Amistosa pelada

O escrete brejense foi solicitado para um jogo amistoso, lá na Forquilha. Estávamos jogando um bolão e na zona urbana, nossa invencibilidade já chegava à casa das trinta partidas…

Para o deslocamento dos atletas, foi contratado o caminhão do Sr. Eurico. Ramiro, ao volante, e Duca, na manivela, fizeram aquele Ford verde e preto funcionar. Os craques foram subindo: Miro, Lengo, Orney e todos os outros grandes nomes…

A viagem foi longa e com muitas paradas para o desaquecimento do motor. Enfim chegamos… Gá passou mal e foi tomar um chá de losna para desembrulhar o estômago. Eu
fiquei meio verde, mas aguentei firme…

Num jogo duríssimo, Fumachu deu uma bicuda que quebrou o travessão de bambu. A peleja foi interrompida, mas logo a bola voltou a rolar. Ganhamos de 7×5. Na volta, vínhamos cantando: “É canja, é canja, é canja de galinha, arranje outro time pra jogar com a nossa linha”.

O pneu do caminhão furou e alguém teve a ideia de enchê-lo de capim, pois não tinha estepe e a câmera de ar rasgou toda. Gá passou mal de novo, jogou os bofes pra fora, acertando o
cangote do Panelão. Terminamos a viagem no solavanco…

Bicas e seus pupilos!

Um causo à parte / Memórias / Dançando quadrilha

Dançando quadrilha

Quando fui transferido para o Grupo Retto Junior, no meio do ano, me convidaram para dançar quadrilha. Meio sem jeito, relutei, mas depois que soube que meu par seria a Ângela, não pensei duas vezes e aceitei.

Nos ensaios, o que eu mais gostava, era quando ela me dava o braço. A marcação da dança, naquela época, era em francês e eu achava muito chique… “Anarriê”, “Alavantu” e “Balancê”, estas palavras nunca saíram da minha cabeça.

No dia da apresentação oficial, todos nós vestidos a caráter, nervosos e a escola cheia. Era pura emoção. Todos bem ensaiadinhos, fizemos o dever de casa… Muitos aplausos e
abraços.

Dava pra ver, no meio de toda aquela parafernália, nossa diretora, Dona Ernestina com
um sorriso de orelha a orelha. Ah se tivesse selfies naquele tempo!

Bicas juninamente.

Um causo à parte / Memórias / A alma do negócio

A alma do negócio

Desde quando inventaram o dinheiro, o homem vem usando a criatividade para captá-lo. Zé Longo tinha um bar perto da Estação, vizinho do Açougue do Lourinho. O negócio andava meio borocoxô e precisava de uma injeção de ânimo, pois só tinha movimento de moscas…

Ele que era um marqueteiro nato, resolveu mudar seu espaço interno… Colou no teto rótulos de bebidas, colocou uma estufa para conservar os salgadinhos de ontem e, principalmente, afixou uma lista com os nomes dos bêbados, com a data de seus óbitos…

Aquilo logo causou um alvoroço. Nós, curiosos, íamos lá: “Cheiroso”, morte até junho; “Mário Lobisomem”, não passa de setembro; “Valdevino”, a qualquer momento. Não me lembro se a lista acertou algum prognóstico…

E assim, o bar aumentou a frequência e também o faturamento. Os citados na lista ficaram uma fera, mas como naquela época não existia a baboseira do politicamente correto, ficou o dito pelo não dito.

Zé Longo com seus olhos claros, sorriso rotineiro e humor esquisito, nos deu uma aula de como aumentar as vendas…

Bicas surfando na onda!

Um causo à parte / Memórias / Tesoura voadora

Tesoura voadora

Nossa rua era muito antenada. Armamos um ringue com quatro estacas amarradas com corda de bacalhau e deixamos tudo pronto para o “telecatch”…

O juiz tinha que ser um moleque mais velho e honesto. Cachaço era da nossa idade, porém grande e forte, o danado batia em todo mundo. Paulo da Durica tentou dar uma tesoura voadora nele e ficou pela metade… suas pernas ficaram presas em seu pescoço.

Cachaço aproveitou e aplicou-lhe um golpe encostando suas costas no chão;  assim, ganhando mais uma luta…

Passamos um bom período com essa brincadeira meio pesada, que era fruto de um programa de televisão dos anos 60, que virou febre nacional. Quem é daquele tempo se lembra com facilidade de Ted Boy Marino, Tigre Paraguaio, Verdugo, Rasputin e muitos outros…

Eu ia no Bar do Agostinho todos os sábados assistir às lutas. Esse sucesso se deveu, principalmente, à popularização da televisão e à teatralidade das lutas.

Era o bem contra o mal. Teve lutador que virou ídolo e fez carreira longa na tevê. Eu apanhava, mas me divertia no campinho da Rua do Brejo…

Bicas engalfinhada.