
Bicas. Se você tem o hábito de ler esta coluna, já deve ter se deparado com esse nome – a última oportunidade foi há apenas duas semanas, quando contei das peladas num campinho no fundo do quintal de uma casa da minha infância. Caso ainda não tenha olhado num site de busca, te conto agora: trata-se de uma cidade da Zona da Mata de Minas Gerais, tornada independente da vizinha Guarará no dia 7 de setembro de 1923 e habitada por 13.978 pessoas, segundo o censo de 2022. Fiquei feliz de saber, na pesquisa que acabei de fazer para refrescar a memória, que o índice de desenvolvimento humano (IDH) é alto: 0,799. Quem nasce lá não é bicudo, isso é provocação do pessoal de Juiz de Fora, o maior centro urbano da região. É biquense, como eu e Danilo Luiz da Silva, que ontem se tornou o terceiro ser humano a marcar um gol pelo Flamengo numa final de Libertadores.
E que gol. Todos os anteriores tinham sido de Arthur Antunes Coimbra e Gabriel Barbosa – quatro cada um, sempre com o pé. Danilo, por sua vez, acertou uma cabeçada forte e precisa, aos 13 minutos do segundo tempo. Para os supersticiosos, foi impossível ignorar que a bola tocou na trave e entrou do mesmo lado em que Gabigol virou o jogo contra o River Plate, em 2019. Para quem procura uma boa história para contar, ali estava o herói improvável: o reserva de Leo Ortiz, que só jogou porque o titular não se recuperou a tempo de uma lesão; o mesmo que, 12 anos antes, marcara de falta para o Santos de Neymar, desempatando outra final, contra o Peñarol.
Flamengo é campeão da Libertadores 2025
Mas o aspecto mais relevante sobre Danilo talvez seja o fato de que ele escolheu o Flamengo. Como muitas crianças que não nasceram no Rio de Janeiro, esse biquense cresceu rubro-negro. Era o time do pai, que ontem não pôde estar em Lima porque perdeu uma irmã, e foi devidamente homenageado pelo filho após a conquista. O mesmo aconteceu com o hoje treinador Filipe Luís, catarinense que se apaixonou pelo vermelho e o negro por influência do avô. Ambos voltaram da Europa ainda com bons anos de carreira pela frente, e jogar pelo time do coração não precisou ser só um ato de amor. Havia dinheiro e estrutura para trazê-los – assim como Jorginho e Alex Sandro, outros personagens importantes da campanha.
E já tinha acontecido com Arrascaeta e Bruno Henrique, os maiores conquistadores de títulos da história do Flamengo, atraídos por bons salários e boas condições de trabalho depois de brilhar aqui mesmo, no futebol brasileiro. Nem um nem outro estava em campo ontem, quando soou o apito final. E, embora tenha sido eleito o herói do campeonato pela Conmebol, Arrasca não foi sequer o melhor uruguaio da decisão – a honra coube a Varela, lateral direito que ainda enfrenta (ou enfrentava) a desconfiança do torcedor. Craques ganham jogos, elencos ganham campeonatos.
Foi com a força do elenco construído a partir da reestruturação comandada por Eduardo Bandeira de Mello que o Flamengo se transformou no Brasil da Libertadores. Assim como a seleção se tornou a primeira tetracampeã mundial num duelo de tris contra a Itália, em 1994, o confronto de ontem tinha o simbolismo de apontar o maior vencedor brasileiro no continente – num duelo direto entre os dois primos ricos. A conquista rubro-negra veio de muitos lugares. O decisivo? Bicas, uai.
Fonte: O Globo – 30/11/2025












